Slider

O raio dos tutores dos cães*

Uma das (imensas, infinitas) razões que me fazem sentir bem nas cidades e não conseguir, de forma alguma, gostar de aldeias, terrinhas e terriolas prende-se com a beleza que é a ausência, nas primeiras, de cães sem trela. Nunca fui uma pessoa de cães (não me perguntem porquê, não clica), mas sucessivos acontecimentos fizeram-me ganhar-lhes medo. A todos, que o medo não discrimina, exceto aos quatro que moram cá em casa. Todos os dias, quando preciso de me deslocar a pé neste fim de mundo para apanhar o autocarro que me me conduz à civilização ou levar as embalagens ao ecoponto -sempre com medo que apareça algum para me morder os calcanhares-, sinto vontade de encher a cara de estalos àquelas pessoas que dizem que não há cães maus, que são todos puros, belos e cheios de amor no coração. Há ainda aqueleque usam o cão como detetor de corrupção moral e que juram a pés juntos que se este não gosta de certa pessoa, então certa pessoa só pode ser má. À merda, todos - há cães estúpidos, embirrentos e violentos, tal como há pessoas estúpidas, embirrentas e violentas. Não deixem os cães andar por aí sozinhos, sujeitos a ser atropelados e a sujeitar alguém a levar com os dentes cravados na perna ou a apanhar um susto valente. Ah, mas ele não morde. Pois não, e os assassinos também são inocentes até à primeira vítima.


* Texto escrito no aftermath de um regresso a casa cuidadosamente planeado para evitar encontrar-me com algum destes amigos quadrúpedes e que ainda assim terminou com uma breve perseguição por um pequeno demónio ladrante. Desculpem lá qualquer irritação. 

A ideia que pode mudar o mundo: supermeat



Acredito genuinamente que a grande, grande maioria das pessoas não se sente confortável com a realidade da exploração animal. Ninguém, salvo quem sofra de algum grau de psicopatia, fica satisfeito ao imaginar os milhares de animais não-humanos que diariamente são forçados a entrar em matadouros - lugares de sangue, brutalidade e morte que perturbam até quem lá trabalha - para que lhes roubem as vidas em prol da nossa conveniência. Disso é sintomática a postura que muitos adotam em relação a quem escolhe não ser parte desse horror, como se ficassem genuinamente irritados por alguém lhes relembrar, muitas vezes apenas com a comida que traz no prato, de que também eles têm escolha. O perguntar pelo sofrimento das alfaces e o indagar por outras dimensões do caráter da pessoa que é vegan (dás esmola aos mendigos? Se não dás és mau e isso justifica que eu continue a comer animais!) são sintomas de que a pessoa, mesmo que não o admita, está inquietada. O tentar convencer-se de que esta é a realidade da pirâmide alimentar (ou, para os mais caústicos, o ciclo da vida) é outra instância dessa ilusão que alguns tentam criar...como se confinar galinhas em jaulas durante meses, em aviários permanentemente ilumidos para que ponham ovos continuamente ou inseminar artificialmente vacas e retirar-lhes as crias para obter um alimento - o leite - que não só não nos pertence como nos faz mal, como se algo disto ou algum dos milhentos horrores associados a estes processos pudesse, em alguma realidade, ser considerado natural.


O meu pressuposto de que as pessoas são, na realidade, mais sensíveis a este problema do que geralmente se pensa é reforçado pela postura que, enquanto sociedade, temos em relação aos animais que nos são mais próximos - o cão e o gato. Não concordamos que se abandonem ou espanquem animais e revoltamo-nos com os casos de negligência. E fazêmo-lo porque tal não afeta a nossa vida: nós não batemos nem abandonamos cães, por isso podemos insurgir-nos em pleno. Com uma vaca, um borrego, uma galinha ou um porco é diferente, porque condenar a atitude significaria termos que alterar as nossas práticas diárias. Todos condenamos quando a vítima é um cão, mas quando alguém tenta explicar que a vida de um porco (um animal igual ou superior ao cão a nível de inteligência) não tem menos valor (qualquer que seja o critério que usemos para definir esse valor), abdica momentaneamente da maioria das suas faculdades mentais e só consegue pensar "mas... carne" e começa secretamente a planear uma manifestação pelos direitos das alfaces. Por algum motivo muitas pessoas que comem animais adotam uma postura passivo-agressiva em relação aos veganos, partindo do pressuposto de que estes se consideram melhores pessoas que eles. Que essa ideia esteja na cabeça de tanta gente acaba por trair o que essas pessoas realmente pensam: elas, no fundo, também não concordam com esta indústria da morte, sabem que não participar dela é uma decisão altruísta e, por essa razão, acabam por desenvolver um sentimento de inferioridade que se traduz em recalcamento e ataque.


As pessoas, mesmo que o mascarem por via dos mais variados  artifícios, não são indiferentes. Se declarar-se a favor da vida animal não impactasse o quotidiano, a maioria estaria do lado do lado daqueles que decidem banir o sofrimento animal das suas vidas. A novidade é que isso poderá ser possível . Sim, sem alteração de hábitos, continuando a comer carne. É essa a proposta por detrás do Supermeat.







O Supermeat não é um produto alternativo à carne - esses existem e, apesar de em muitos casos o sabor replicar perfeitamente aquele do frango, da carne de vaca e do atum (entre outros), esses produtos são maioritariamente consumidos por veganos, especialmente aqueles que estão em transição. O Supermeat, por seu lado, é destinado ao consumidor de carne, porque é carne. Carne de cultura, cultivada a partir de células animais mas sem a utilização de animais - sem crueldade e muito melhor para o ambiente. O projeto está em desenvolvimento e penso realmente que caso consigam apresentar custos significativamente mais baixos poderá ter sucesso, especialmente se apontarem para as próprias cadeias de distribuição (que, neste cenário, passariam a comercializar a Supermeat em vez da carne de exploração). Se os números forem vantajosos, a indústria da morte de animais não-humanos pode ser ameaçada. Afinal, é o lucro que move a máquina da exploração animal... lembram-se das galinhas enjauladas e forçadas a pôr ovos continuamente, certo?


Podem saber mais sobre este projeto em supermeat.com



It' soap to you!



Há uns dias fui contactada pela Francisca que me apresentou o seu novo projeto: sabonetes artesanais, 100% homemade. Os produtos mais naturais têm-me apelado cada vez mais, bem como a necessidade de excluir aqueles com ingredientes de origem animal ou testados em animais, e por isso aceitei prontamente quando fui convidada a escolher e experimentar alguns sabonetes. Quando abri o catálogo que ela me enviou, fiquei logo positivamente surpreendida: os sabonetes são personalizáveis, sendo que escolhemos a base (vegetal, leite de cabra ou leite de burra), o fator de hidratação (manteiga de manga ou de karité) e o aroma, de entre os seis atualmente disponíveis. Eu optei pela opção vegan-friendly, sendo a base dos meus três sabonetes 100% vegetal, e alternei entre a manteiga de manga e karité para a hidratação. Para os aromas, escolhi o Just Breath - o rosa - com cheiro a lavanda e bergamota e que é adequado para um momento relaxante; o Wild calm - verde - com notas de cidreira, limão e eucalipto e que a mim cheira a frescura e energia; e o Man Up, um aroma mais masculino a madeira de cedro e limão, que escolhi por associar as notas mais amadeiradas ao outono que (infelizmente) aí vem. 



Quando me chegaram às mãos, reparei imediatamente na atenção da Francisca ao detalhe. Cada sabonete vinha num saquinho individual - com padrão de flamingos! -, acondicionado por plástico e com um lacinho que confere um ar amoroso e exclusivo. Estou a usar o Just Breath e só tenho elogios: o aroma é leve e relaxante, cumpre na hidratação e (para mim, a grande vantagem) não se desfaz no contacto com a água, mantendo a sua forma. A base vegetal não contém SLS (sodyum laureth sulfate), um agente químico responsável pela produção de espuma e que é reconhecidamente agressivo para a pele. Ou seja, não terão muita espuma, mas isso é, afinal, um aspeto positivo. Não podia estar mais satisfeita e recomendo a It' Soap to You para uma excelente experiência de compra e produtos de excelência. Passem lá e confiram :)




A minha cirurgia estética - parte um

Talvez isto pareça estranho neste blog. Sobretudo depois de posts como este, em que defendo como seria bom que as mulheres "percebessem que ter o peito pequeno, ou grande, ser alta ou baixa, ter coxas volumosas ou pernas magras não são, em si mesmos, defeitos nem qualidades: são caracterísiticas". E mantenho-o. Ao longo da história, todas estas características corresponderam, num momento ou outro, ao padrão de beleza vigente, pelo que a preferência de uma conjugação de atributos sobre outra é absolutamente aleatória. Isto, no entanto, não considera duas outras realidades: em primeiro lugar, que ao nível da perceção da beleza do rosto houve historicamente menor variação, sendo considerado belo o que é harmonioso, simétrico. Segundo, que uma característica não é um defeito até que a própria pessoa a considere como tal. E foi por isso, por detestar um certo atributo do meu rosto (e por ter decidido que não quero e não tenho que aceitar, muito menos tentar gostar), que aos dezasseis anos decidi que um dia faria uma cirurgia estética. 


A cirurgia que vou fazer é uma rinoplastia. Decidi falar sobre isso aqui por duas razões. Por um lado, porque só agora é uma possibilidade real. Ao longo destes anos nunca deixou de ser uma ideia presente, mas só agora se tornou um plano, com um esquema de poupanças e um prazo limite. Por outro lado, porque acho giro documentar aqui as diferentes etapas. Estão a ver aquelas pessoas que juram a pés juntos que nunca fizeram nada e querem convencer meio mundo de que nasceram com aquele nariz, aquelas mamas ou aquelas orelhas? Pois, não. Não só porque não entendo a motivação subjacente a essa postura (eu cá acho que vou perguntar a todas as pessoas com quem me cruzar se já viram o meu nariz novo) mas porque, no meu caso, será demasiado evidente - se correr tudo bem, a diferença será bastante percetível. O meu nariz só é "normal" de frente; de perfil são visíveis todos os problemas: é projetado (termo simpático para grande), tem uma bossa muito saliente e as narinas são demasiado grandes (para isto não creio que exista termo simpático). O meu nariz tem todos os problemas a nível estético e é contraprodutivo negar a realidade da coisa, até porque o mesmo foi-me já confirmado por um cirurgião. É, principalmente, desproporcional no meu rosto, que é pequeno e de traços finos. Quando penso na minha cirurgia, imagino-me a entrar na clínica antes do nascer do sol e sair já noite escura, tal será o tempo necessário para resolver esta trapalhada. 


Para alguém tão medricas quanto eu - medo de cães, medo de andar de carro, medo de levar vacinas, medo de trovoadas e de ser aquela pessoa entre milhões que morre após tomar uma aspirina - é surpreendente que não tenha medo desta cirurgia. Mas não tenho. Não me incomoda saber que me vão partir um osso à martelada enquanto durmo tranquilamente nem me apoquenta o desconforto que sei que se seguirá no pós-operatório. Assusta-me a anestesia, mas não o suficiente para me demover. Para mim, são uns milhares de euros bem empregues e três ou quatro dias de desconforto em troca de uma coisa que me fará sorrir sempre que me olhar ao espelho - e sim, sou vaidosa, a beleza e a estética têm para mim uma importância considerável, e uma rinoplastia não é diferente de usar aparelho ortodôntico (que usei). Estabeleci o prazo de um ano, a começar agora, para fazer esta cirurgia. Quero fazê-la enquanto não tenho grandes encargos financeiros, permitindo-me poupar um valor considerável todos os meses. E vou documentando aqui, para quem quiser acompanhar e para que eu própria fique com este registo de todo o processo.

O amor do Duvivier

Acho que já não há quem não conheça o Gregório Duvivier e a Clarice Falcão. Primeiro juntos, no fenómeno que é o Porta dos Fundos, depois separados. Partilho do posicionamento político do Gregório e gosto, mesmo muito, das músicas da Clarice. Esta semana o Gregório publicou um texto, sobre gratidão e o amor de uma vida. Eu nunca escreveria um texto destes. Na verdade, nem me atreveria a pensar nestes termos. A minha postura face ao fim de um relacionamento é, invariavelmente, uma de duas: se já não te quero nem me lembro que te conheci ou se já não me queres podes ir morrer longe e espero que apanhes sífilis, gonorreia, escorbuto e peste negra. Mas apesar disso - aliás, precisamente por isso - sei a grandeza e a maturidade emocional necessárias para escrever um texto como aquele. Podem lê-lo aqui - mas vão por mim, não o façam num sítio público. 

Almost gone

O último dia de piscina porque esta fecha a meio do mês, a ameaça repentina de chuva e trovoada (oi? como?), a mudança de hora e a noite às cinco da tarde, o regresso forçado do cardio e do yoga depois de meses de "não dá, está muito calor", a malta de traje académico e, em breve, o enervante barulho da enervante praxe mesmo aqui ao lado. O verão está a dar as últimas (o verão mais verão dos últimos anos) e não há estação de qual goste menos que o outono - pelo menos no inverno há a promessa de uma primavera próxima. Valha-nos esta música dos The Doors.





Caramba...

Bastaram-me meia dúzia de dias de trabalho para ganhar toda uma admiração pela malta que mantém mil interesses e atividades, que chega a casa, calça os ténis e vai correr, ou fazer tricot, ou jogar bingo - o que seja. Ou que tem paciência para planear posts e visitar outros blogs. Isso é tudo muito bonito, mas não sou eu. Eu tenho reservas limitadas de energia e quando chego a casa (e não chego tarde, nem saio exageradamente cedo) só tenho vontade de ver um episódio da Escrava Isaura e outros dois de uma qualquer série do FoxComedy. No limite, assim na loucura, consigo arranjar um tempinho para ler, no autocarro... mas isto é a teoria, porque na realidade não há dia em que não adormeça em ambas as viagens.


(Em contrapartida, não há emprego nem cansaço que consiga fazer de mim uma pessoa meeeesmo sedentária. Não consigo, fisicamente, estar mais de uma hora sentada sem sentir urgência de me levantar e andar, mesmo que não precise de ir a lado nenhum. Valha-me isso.)

Enquanto esperam pela nova temporada

Não sei como é que só descobri isto agora. Mas quis o destino (ou os algoritmos do Youtube; sabem lá as coisas maravilhosas que já descobri à pala do "recommended for you") que fosse parar a um vídeo que dizia ser um musical de Game of Thrones. E é - uma espécie de, pelo menos. Trata-se, na verdade, de um sketch cómico feito para o Red Nose Day de 2015, narrado pelo Liam Neeson (o Schindler de Schindler's List), com letras e melodias originais dos Coldplay e interpretadas por alguns dos atores principais. Eu sou suspeita, porque acho que o Nikolaj Coster-Waldau devia ser reconhecido como a oitava maravilha do mundo, mas achei muita graça à sua performance de Closer to Home. Nas palavras do Liam Neeson, "it's the first romantic ballad about incest in Coldplay's career". Muito bom. 




© Kill Your Barbies. Design by Fearne.