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A minha cirurgia estética - segunda parte

Passaram mais de dois meses desde que partilhei aqui a decisão de me submeter a uma cirurgia estética. Não recebi um único comentário que não fosse encorajador e fiquei com a certeza (se dúvidas houvesse) de que este blog só é lido por malta fixe. Mas apercebi-me também de que posso ter passado uma ideia um pouquinho desfasada da realidade sobre a minha relação com o meu nariz, que não foi sempre saudável. É verdade que falo sobre este assunto com naturalidade, mas isso é porque a cirurgia sempre me pareceu o caminho "natural" para solucionar o meu problema, e por isso não sinto, de forma alguma, que esteja a ser corajosa quando falo sobre isto em público. Mas o problema em si incomoda-me diariamente, e requer um esforço contínuo - não de aceitação, porque não é algo que queira (ou consiga) aceitar, mas de paciência. 


O meu nariz não foi sempre assim. Parece óbvio, porque todos nascemos com mini-narizes, mas em alguns casos este torna-se desproporcional em idades precoces, o que serve de catalisador para os bullies deste mundo. Não é, aliás, incomum que se decida fazer uma rinoplastia depois de anos de a ser-se gozado pelo tamanho ou a forma do nariz. Comigo não se passou assim, e foi só com a puberdade que começou a mudar: cresceu, ganhou uma bossa, tudo coisas boas. E, como foi uma característica que fui adquirindo, e não algo que tenha nascido comigo, houve uma altura em que a realidade bateu, em que percebi "caramba, este é o meu nariz". Esse foi o início do período difícil. Não será surpresa que isto tenha surgido num contexto mais alargado de insegurança. A minha pele resolveu começar a ser acneica, tinha começado o mestrado e o ambiente e expectativas eram diferentes daqueles da licenciatura, estava interessada numa pessoa com quem só falava através do Facebook e cuja perspetiva de conhecer pessoalmente causava uma ansiedade terrível. No meio disto tudo, o nariz foi o bode expiatório - devo acrescentar que acho que, de entre todos os "defeitos" físicos que podemos ter (excluindo, obviamente, deficiências e coisas que prejudiquem ou decorram de problemas de saúde) o nariz é o mais suscetível de ser um incómodo constante, porque está no meio da cara, sem chance de esconder. Comecei a usar óculos em vez de lentes de contacto para camuflar a bossa, tirei mil fotos de perfil na esperança de encontrar uma em que não me parecesse tão mau, culpei o universo porque "até as pessoas feias têm narizes normais e eu estou aqui encalhada com esta coisa". Sei que isto parece idiota e um bocadinho petulante, mas era assim que eu pensava nessa altura. 


Sabia, mesmo enquanto estava a acontecer, que me encontrava no limiar de um caso clínico de dismorfia corporal (um transtorno psicológico), e tomei a decisão consciente de não me prolongar nesses sentimentos. Comecei então a fazer o que podia para atenuar visivelmente o impacto do meu nariz, por um lado, e para manter a minha mente afastada dele, por outro: abandonei o estilo demasiado girly e procurei um mais cool por achar que combinava melhor, adotei pequenos truques como manter o cabelo afastado do rosto e usar rabos-de-cavalo altos, proibi-me de tirar fotografias de perfil e de me olhar propositadamente ao espelho em maus ângulos, etc. Fundamentalmente, abandonei a maioria das técnicas para esconder o meu nariz (exceto os óculos de sol, uma bóia de segurança demasiado tentadora para abdicar dela) que, assim como assim, nunca funcionaram, e aprendi a contrabalançar o seu peso no meu rosto, na medida do possível. O que nunca fiz foi tentar obrigar-me a aceitar o meu nariz, porque isso seria mudar algo que me é central - o facto de ser uma pessoa muito direcionada para a estética. Tentar encontrar alguma beleza no meu nariz (uma beleza alternativa, por exemplo) seria, na minha perspetiva, uma forma idiota de auto-ilusão. E isto não é self-hate, porque da maneira como vejo as coisas este nariz não é meu, é um apêndice que está aqui provisoriamente até que eu possa "ir buscar" aquele que deveria ter tido à partida. É isto que quero, que me desculpe a malta defensora de que somos só essência se não tenho vontadinha nenhuma de iniciar uma viagem espiritual, ir viver para uma comuna e fumar mescalina até atingir o nirvana e menosprezar a existência do corpo.


Perdi a conta às vezes que li e ouvi, nos mais variados contextos, a frase feita de que os humanos nunca estão satisfeitos com o que têm. E li muitas mais vezes a mesma afirmação dirigida às mulheres e à sua aparência. Percebo que essa seja a realidade de muitas, devido à rigidez dos padrões de beleza, mas nunca foi o meu caso. Sou, desde sempre, a minha melhor amiga e defensora - acho até que chego a ser um tudo-nada autocentrada, de forma que só algo manifestamente inestético e desproporcional foi capaz de me provocar uma reação diferente. A minha personalidade, bem como o facto de, ao contrário do que acontece frequentemente em casos semelhantes, nunca ter sido vítima de bullying ou comentários inapropriados a respeito do meu nariz, permitiu-me nunca duvidar de que estou a fazer isto por mim - o que, por mais cliché que seja, é muito importante. Sou confiante ao ponto de dizer com sinceridade que o meu ideal de corpo é o que tenho e que a única pessoa com quem me quero parecer é a melhor versão de mim própria. Ao contrário de muitas pessoas que procuram uma cirurgia estética, não vou levar para a minha primeira consulta fotografias da celebridade tal que tem o nariz perfeito - se levasse algumas, levaria as minhas aos onze anos, quando ainda tinha o meu nariz perfeito. 


Tenho conseguido (exceto, obviamente, durante aquele período de crise) ser confiante na minha aparência porque, na autoimagem fixada na minha mente, tenho o nariz que deveria ter, não este. Mas é também por esta razão que, por vezes, encontro uns dias mais difíceis - porque quando, por acidente, apanho no espelho ou na câmara um ângulo menos favorecedor, não estou, genuinamente, à espera de ver o que vejo. Se tudo correr bem, é isso que, daqui menos de um ano, irá mudar com a minha cirurgia: poder ver no espelho a imagem de mim própria que vejo na minha cabeça. E vai ser muito, muito bom.

Christmas Veggie Challenge - quem alinha?


Desde que, em março, organizei o My Fit Self Challenge que tenho vontade de voltar a propôr algo do género. E agora, com a aproximação do Natal, volto com uma ideia um bocadinho diferente, mas que me é igualmente querida. Quem passa por cá sabe que a forma como escolho comer é mais que uma dieta. E tenho tentado usar esta plataforma para fazer alguma diferença, pequenina mas nunca insignificante, partilhando informação e normalizando a alimentação à base de produtos vegetais. É sobre esta segunda vertente que vos falo hoje. Nos últimos tempos, tem-me deixado muito feliz ver que as pessoas, mesmo consumindo produtos de origem animal, estão cada vez mais abertas e disponíveis a conhecer -e provar- o outro lado. Mas em épocas festivas, como o Natal, a tendência é (compreensivelmente) a de não arriscar além daquilo que se conhece. E é aqui que acho que poderíamos fazer alguma diferença: convido-vos a preparar, para a ceia de Natal, um prato de origem vegetal, que pode ser uma entrada, prato principal ou uma sobremesa. Levem para o jantar de família, vejam as reações e partilhem-as nos vossos blogs, bem como a receita que fizeram. Ao longo de Dezembro, vou publicar receitas como exemplo para cada uma das categorias, sempre coisas simples (e boas, é preciso dizer?) e, na maioria, com produtos que poderão encontrar em qualquer supermercado. Se têm um blog e querem participar, basta que me enviem um e-mail para perdidaemcombate.blog@gmail.com até domingo, dia 4. Conto convosco! =)

Kill Your Barbies chega ao séc. XXI... e ao Instagram



Cheguei a esta festa com uns cinco anos de atraso, mas acho que ainda venho a tempo. Nuns meros quatro dias já consegui perceber que não sou grande fã do "ambiente" do Instagram, lá com aquela malta que segue-para-ser-seguida-e-depois-deixa-de-seguir (vá, não levem a vida tão a sério), mas noto que ter um espaço para partilhar fotografias faz com que esteja mais atenta às coisas e menos absorvida pela música no fone do ouvido, por melhor que esta seja. Gosto disto, pronto. Se quiserem seguir (que era um gesto bonito da vossa parte, just saying), cliquem aqui. Não prometo muito, mas prometo fotos de gatos giros.

Review: Máscara de Pestanas Better Than Sex



Então, que tal essa Black Friday? Manequins derrubados, corridas para ver quem chega primeiro à pilha dos jeans, puxões de cabelo por causa do último par de Adidas? Por aqui, tudo na paz do Senhor. Smartphone comprado, casaco quentinho encontrado - as duas coisas que tinha planeado adquirir nesta promoção - e uns básicos ao preço da chuva. A minha tática para este fim de semana resumiu-se a evitar as grandes superfícies atulhadas de gente e optar por um Outlet pequenino, que na verdade só tem duas ou três lojas em que entro (a Mango, a Calzedonia/Intimissimi e a Perfumes&Companhia) e correu lindamente. Mas adiante, que o assunto é outro. Há um mês, comprei a famosa máscara de pestanas da Too Faced, a Better Than Sex, juntamente com a base Born This Way (review aqui). Não sou nenhuma buscadora incansável das pestanas mais volumosas (esqueçam lá isso de passar três camadas), mas tinha expectativas altas. No entanto, e depois de um mês de uso diário, fortaleci a convicção prévia de que há marcas muito fortes no marketing e branding, e que um packaging cinco estrelas e nome original fazem milagres. É que a máscara é boa, mas não é melhor que coisa nenhuma. 


A Better Than Sex promete nada menos que 1,944% mais volume, alcançado através do aplicador em forma de ampulheta e a fórmula enriquecida com colagénio. A experiência de uso começa maravilhosamente, devido ao tubo de material robusto e acabamento luxuoso. A máscara é muito preta, tal como prometido, mas a escova é, na minha experiênca, aquilo que falha. Já experimentei máscaras de pestanas suficientes para saber que prefiro aquelas com aplicador de silicone - o aspeto é mais natural, facilitam uma aplicação rápida e dificilmente formam grumos. Apesar de me ter sido prometido o mesmo pela representante da Too Faced que me aconselhou na loja, a minha experiência de uso foi diferente: o aplicador é demasiado grande para as minhas pestanas, acabando por pintar a pálpebra, e as pestanas nem sempre ficam bem separadas, sendo necessário cuidado extra para evitar os grumos. Quando tudo corre bem, o efeito é muito bonito, conseguindo de facto muito volume só com uma camada. Mas, requerendo uma aplicação tão atenta, não considero que seja a melhor máscara para uso quotidiano, quando queremos despachar a maquilhagem em cinco minutos. A duração é boa, aguentando o dia inteiro (ainda que por vezes borre um tudo-nada), e a remoção muito simples, não necessitando de desmaquilhante bifásico. No final de contas, depende do que procuram numa máscara de pestanas. Se aquilo que querem é um volume dramático e não se importam ou preferem o efeito pestanas falsas, não procurem mais. Quanto a mim, parece-me que estarei de volta aos aplicadores em silicone. 




Podem encontrar A Better Than Sex -bem como os restantes produtos da Too Faced- na Sephora, por cerca de €23.

Review // Fantastic Beasts and Where to Find Them


Gosto muito de Harry Potter. Não como quem gosta daquele filme que apanhou uma vez na televisão, mas como quem tem Harry Potter como uma das suas dez coisas favoritas de sempre. Pego num dos livros a qualquer altura, para o reler ou para uma visita de dez páginas, e nunca deixei de rever os filmes frequentemente. O meu conhecimento daquele universo é tão grande quanto inútil (aposto que não conhecem muitas pessoas que se lembrem do nome completo de Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore) e não há detalhe ou teoria de que não esteja a par. Por isso é justo dizer que, na passada sexta-feira e após um ano de espera ansiosa, cheguei ao cinema cheia de expectativas mas também com um olho pronto a disparar. Não acho que os filmes de Harry Potter sejam formidáveis (escrevi sobre isso aqui), mas foram indiscutivelmente bem sucedidos no requisito essencial de trazer a magia até nós. Sentimo-nos parte daquele universo, estamos lá dentro desde o primeiro minuto de Philosopher's Stone, e por isso estarei sempre grata aos realizadores, produtores, argumentistas, atores e às equipas que criaram os cenários e os figurinos, bem como à autora, por ter garantido que universo que imaginou estava a ser corretamente adaptado ao grande ecrã. Infelizmente, em Fantastic Beasts - um esforço sólido e, na minha opinião, um filme francamente bom dentro do seu género, com muito em seu favor - foi precisamente essa magia, aquela que nos enche a partir de dentro, que faltou. A boa notícia  - para além da natureza muito pessoal desta opinião, que é mais uma sensação - é que esta é a única grande falha que lhe encontro.


Em jeito de contextualização: em Harry Potter, Fantastic Beasts and Where to Find Them é um livro de magizoologia da autoria de Newt Scamander. O pequeno livro, espécie de manual escolar em Hogwarts, foi publicado, cheio de anotações de Harry e Ron. Pouco sabiamos sobre o Newt, mas a J.K. Rowling, que sempre pensou e escreveu sobre o universo mágico para além do conteúdo dos sete livros, já sabia muito. O filme foi anunciado em 2013, e em 2016  foi confirmado como o primeiro de uma franquia de cinco filmes. Não sou a favor da revisitação infindável do mesmo universo depois do término natural da história, mas este é um caso diferente. Afinal, o argumento estava a cargo da J.K. Rowling e o comando entregue a David Yates, que tinha realizado os últimos quatro filmes da saga de Harry Potter. E, apesar do desabafo inicial sobre a ausência da magia, gostei muito desta nova abordagem. 


Fantastic Beasts não é, nem tenta ser, Harry Potter. Embora isso me tenha entristecido durante a primeira hora do filme, reconheço que foi uma decisão inteligente para uma franquia que se espera continuar por mais quatro títulos. Somos apresentados a um ambiente diferente, menos místico e que, passando-se na Nova Iorque de 1926 - sessenta e cinco anos antes dos eventos de Philosopher's Stone - parece, não obstante, mais moderno (lembram-se das roupas maravilhosas dos professores Dumbledore e McGonagall? Esqueçam). Yates e Rowling encontraram o balanço ideal entre alusões àquilo que conheçemos e adoramos (ouvimos falar sobre Hogwarts, Dumbledore e Quidditch, por exemplo) e a dedicação a uma nova história. Não obstante a certeza de continuidade através de uma outra personagem que nos foi introduzida nos livros e traz a promessa de um perigo iminente para os próximos filmes, Fantastic Beasts não viverá na sombra da saga original. Com um argumento bem construído, excelentes atores e efeitos especiais convincentes (as criaturas mágicas estão lá e são fantásticas), é certo que quem voltar para o próximo voltará para acompanhar a jornada de Newt Scamander e não para matar saudades de Harry Potter. 

Sou anti-praxe?

Nunca senti grande motivação para falar sobre a questão da praxe académica, até à altura em que alguns de vós deduziram qual seria a minha opinião sobre o assunto e sugeriram-me que elaborasse sobre o meu ponto de vista. À superfície, a resposta é simples: não sou anti-praxe. Ser contra implica uma oposição ética a algo que, regra geral, se configura como uma prática que prejudica direta e intrinsecamente seres sencientes, humanos ou não, que são participantes involuntários ou coagidos, pelas suas circunstâncias económicas, culturais ou sociais, a participar. E, apesar de existir no exercício da praxe uma clara componente de pressão (a principal razão citada para participar é a da integração, sendo que a maioria vê pelo menos algumas das atividades feitas em nome da praxe como um mal necessário) - não considero que exista realmente coação naquelas universidades onde a escolha de não participar não se faz acompanhar de uma segregação compulsiva.


E no entanto, apesar de não ser abertamente contra, eu não participei na praxe, porque não concordo com o conjunto de valores e determinações que a constituem. O meu posicionamento flui de duas motivações: uma a nível pessoal, outra ao nível estrutural. E ambas decorrem da forma como encaro aquela que é pedra basilar da praxe, que é, na sua essência, uma organização hierárquica. A nível individual, os valores e as práticas da praxe formam o contraste perfeito da minha personalidade. Sou uma pessoa naturalmente inquisitiva e desde que me lembro me pergunto porque é que as normas socioculturais são as que são - porque é que comemos animais? Porque é que devemos respeito unilateral aos mais velhos? Porque é que só as mulheres usam saia? Às vezes o questionamento é tão-só curiosidade intelectual - a vontade de saber como determinada prática se formou - e outras vezes torna-se mais do que isso. Certo é que a minha reação face a uma ordem no âmbito da praxe seria perguntar à pessoa trajada por que raio teria eu que encher cinco flexões ou porque é que me sujaram de farinha.  


Não reconheço que alguém, apoiado apenas no facto de ter mais matrículas que eu, tenha a autoridade para me mandar fazer seja o que for. Eu não concordo com nenhuma praxe porque não considero que aquelas pessoas tenham o poder para me dizer o que fazer - e aqui não importa se é dar um passo em frente ou simular um ato sexual, porque é do princípio que discordo. Muitas vezes, a autoridade reveste-se de uma característica curiosa, no sentido de que o poder de determinada pessoa apenas existe na condição da sua validação pelo dominado, e eu não validei a precedência dos trajados sobre mim. Não creio precisar de referir a componente manifestamente sexual de diversas praxes - o simular sons, posições,  etc. - bem como os degradantes gritos ou lemas dos cursos e instituições (o da minha antiga universidade é "ISCTE, ISCTE, conas abertas, caralhos em pé!", um charme), ou a categorização dos caloiros como "bichos" ou "bestas", coisas a que sempre me oporia caso tivesse participado. O problema da praxe é de raiz e dispensa as características das suas práticas mais ou menos fluidas para ser confrontado.


Claro que quem participa racionaliza este acatamento de ordens com a ideia de que a praxe é um ritual de integração que lhes facilitará ou enriquecerá a vida académica. Estou certa de que haverá aqui alguma verdade, porque é uma prática que fomenta a proximidade e a entreajuda (pudera...), mas será que alguém acha realmente que na ausência de praxe os estudantes não socializariam e que não se formariam amizades? Porque é isso que se passa no secundário, certo? No entanto, de todos os argumentos a favor da praxe, o único que considero realmente perigoso é aquele segundo o qual a praxe seria uma espécie de treino para a vida. E não na vertente de entreajuda que referi, mas no sentido de aprender a acatar regras e não questionar aqueles que estão numa posição de poder superior à nossa, uma espécie de treino para a vida adulta e laboral. Isto sim, é perigosíssimo, e é algo incutido pela praxe mesmo que não seja sempre verbalizado, porque a praxe é muito isto: obedecer a outrém com base numa precedência arbitrária de uns sobre outros. Se eu tivesse decidido, como espécie de experimento social, participar da coisa, teria ouvido, a determinada altura, alguém a mandar-me pular, ou gritar, ou fazer abdominais. E eu, talvez não à primeira vez, mas certamente no primeiro dia, teria respondido com um "faz tu", antes de virar costas e abandonar a palhaçada.

Alerta série: The Crown

Elizabeth II e Winston Churchill em The Crown



De vez em quando, surge uma série que é tudo o que poderia pedir. Com exceção de pouquíssimas (entre as quais o saudoso Lost é o melhor exemplo), só assisto a uma mão-cheia de boas comédias (displicentemente) e a séries históricas ou de época (religiosamente). Downton Abbey, The Tudors, The Borgias, Wolf Hall - cada uma destas deixou o tipo de saudades relatado pelas pessoas que gostam muito de ler, ao terminar uma grande viagem literária. Em Wolf Hall, mini-série sobre Thomas Cromwell, o ambicioso estadista que serviu sob Henrique VIII de Inglaterra, Claire Foy interpretou Ana Bolena, a segunda rainha consorte do rei e a primeira a ser condenada a um destino trágico. Gostei tanto da interpretação da atriz que passei a associar a figura histórica à imagem da Claire Foy, apesar de ter visto outras cinco atrizes no mesmo papel. Em The Crown, série de 2016 da Netflix, Foy é Elizabeth II - e é ainda melhor. 


Não sei o que pensaria se ainda existisse uma monarquia em Portugal mas, muito provavelmente, olharia a família real com o mesmo asco com que olho para as famílias mais tradicionais e antigas, aquelas da caça, das touradas e da direita conservadora, todas coisas que abomino. No entanto, nos países dos outros, a coisa é diferente. Não tenho nada contra ou a favor de membros específicos da realeza europeia e vejo a Coroa, enquanto instituição, como uma sobrevivência do passado -um bocado como quando vou ao supermercado e vejo os rebuçados peitorais Dr. Bayard ou entro numa papelaria e está lá o novo número do almanaque Borda d'Água. O passado tem um certo apelo - principalmente o passado mais remoto, em que a existência da pintura em vez da fotografia e do vídeo conferia um certo caráter de reverência à pessoa representada, que adquiria um estatuto para lá de humano. Isso, claro, estava a mudar na época em que Elizabeth II subiu ao trono. 


O mundo econtrava-se em palpável mudança (pagava para poder ter vivido a experiência de alguém que nasceu no início do século XX e atravessou as maiores alterações a que o mundo assistiu num curto período de tempo): a Europa tinha atravessado duas Guerras Mundiais, com todas as alterações estruturais que estas provocaram a nível social, económico e tecnológico. A sua cororação foi a primeira a ser transmitida na televisão e, com isso, perdeu-se muito da reverência concedida e preservada pelo mistério. Instituições como a monarquia, que repousam no princípio básico da superioridade do monarca (uma superioridade que implica tanto privilégio quanto dever) por virtude das circunstâncias do seu nascimento, perdem muito do seu poder quando o povo percebe que o soberano é, na sua essência, igual a ele. Hoje as casas reais europeias não têm poder sobre as respetivas políticas nacionais. O "povo" transformou-se em "público". E o papel da rainha (que, além do Reino Unido, é soberana em mais de uma dezena de países, entre os quais a Austrália, Nova Zelândia e Canadá) resume-se, em grande parte, a manter o delicado balanço entre a esfera pública e a privada, sempre com o dever de preservar a instituição anacrónica da monarquia e valorizar a Coroa acima das vontades individuais - as suas e as dos restantes membros da família real.


Pela minha parte, é impossível não nutrir uma certa admiração pela Rainha. A personagem histórica que mais admiro é o Thomas More - tenho um fraquinho por pessoas estóicas, que fazem prevalecer os seus valores em detrimento de qualquer noção de conveniência e levam isso até às últimas consequências. Para More, que viveu numa época terrivelmente sanguinária, isso implicou perder - literalmente - a cabeça. Para a rainha, implica ser vista, não raras vezes, como uma pessoa a quem falta humanidade. A série não será um retrato exato da vida privada de Elizabeth, mas acho que ajuda a humanizar a figura e a perceber as suas motivações e um pouco do seu caráter (sabiam, por exemplo, que aos dezoito anos e depois de muita insistência junto do pai, o rei George VI, a princesa serviu como mecânica e motorista nos meses finais da Segunda Guerra Mundial?). The Crown é uma série brilhantemente escrita, dirigida e interpretada, na qual nenhum detalhe é ignorado. Vi a primeira temporada em menos de uma semana e fiquei desgostosa ao ler só teremos a segunda no outono de 2017. Com uma classificação de 9.1 no IMDB, é imperdível para os amantes de ficção histórica.


Elizabeth em fotografia oficial

O «efeito 2016»

Está a pessoa doente, de sofá, com uma constipação até às orelhas, levemente atenta à televisão sintonizada num canal de informação (porque sim, sou assim tão chata, e convém saber caso o Trump anuncie que vai dar uso ao armamento nuclear) e ouve qualquer coisa como: 


Notícia de última hora: acabamos de ser informados que Bob Dylan... *pausa dramática*


Garanto-vos que nem sou uma pessoa muito cáustica, mas quando, num ano como este, é mencionada uma informação de última hora acerca de um artista de reconhecimento mundial (e em especial, um que já não vai para novo), torna-se natural pensar que foi desta para melhor. Mas não, diz só que não está virado para ir a Estocolmo receber o Nobel, o sacana. 


[Agora a sério, 2016, podes levar tudo, como tens levado até agora, mas deixa cá o Bob Dylan e a Maggie Smith, OK? Gracias.]

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