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Aos unicórnios

Se é verdade que há, atualmente, uma forte corrente que nos encoraja a celebrar aquilo que nos torna únicos, não é menos verdade que todos já encarámos a necessidade de escolher entre conformar ou desafiar padrões. Até o atual exaltar do que é único em cada um de nós vai apenas até certo ponto: persiste uma enorme pressão para a uniformização, empurrando-nos para um molde que dita a forma correta de sentir e de nos relacionarmos com os outros. Eu nunca fui igual. Fui sempre diferente. E, curiosamente, camuflar a minha identidade para encaixar num padrão nunca foi uma opção que considerasse válida: aos 15, aos 18 ou aos 20, eu já sabia que, entre preservar o que me torna especial e esforçar-me para corresponder às expectativas, escolheria mil vezes a primeira. 


Infelizmente, e a menos que tenhamos muita sorte, isto implica fazermos parte do caminho sozinhos. Implica sermos, sempre, os nossos maiores defensores, porque os outros não nos defenderão - lembrem-se, a sociedade não fornece as ferramentas para lidar com e apreciar a singularidade. Envolve um considerável esforço mental para não deixarmos que os julgamentos que fazem sobre nós maculem quem nós sabemos ser - mas, se gostarmos de nós, o esforço é bem menor. Uma das coisas mais importantes que aprendi foi que as pessoas, regra geral, julgam-nos pela sua bitola, assumindo que a nossa motivação numa determinada situação seria equiparável à sua própria forma de reagir numa situação semelhante. Assim, se me cruzo com um conhecido na rua e não lhe aceno, preferindo, quem sabe, fingir que não o vi, é provável que essa pessoa me passe o veredito de antipática, porque essa seria a única razão para ela própria ter semelhante atitude. Na verdade, talvez eu tenha fingido que não a vi porque me estou a sentir particularmente tímida nesse dia. Percebem onde quero chegar? Há muita verdade na afirmação de que cada pessoa é um mundo, e podemos descobrir coisas fantásticas se estivermos abertos a tal. 



Sermos nós próprios é o nosso superpoder. É lamechas, mas uma enorme verdade. Somos o único "nós" no mundo, por que haveríamos de querer transformar-nos num "eles" descaracterizado?

4 formas simples de reduzir as despesas secundárias

Há mais de um ano, pouco depois de começar a trabalhar, escrevi este post com as estratégias de poupança que tinha começado a aplicar e que estavam a funcionar para mim. Na altura tinha começado a poupar para a minha rinoplastia, com um prazo definido de mais ou menos um ano para chegar à meta pretendida.  No meio da minha inocente euforia, do meu wow-sou-a-master-da-poupança, houve quem se revoltasse. Que não tinha renda de casa para pagar, que andava de transportes públicos, que sabia lá eu o que era a vida. É verdade, ainda não tenho renda de casa para pagar, ando de autocarro e não tenho créditos nem prestações. Sei que há muitas pessoas que não conseguem poupar porque, simplesmente, as despesas fixas mensais igualam o valor do salário. Mas também sei que há outras que auferem um salário razoável ou bom, que, por falta de planeamento, têm pouco controlo sobre a sua vida financeira, e que gostavam de se organizar melhor para conseguir poupar mais. Obviamente, estas dicas, como as primeiras, são para essas pessoas. Enquanto as primeiras eram mais generalistas (estabelecer um valor máximo para as despesas secundárias de cada mês, criar uma conta poupança para evitar tentações, etc.), estas são mais específicas às despesas secundárias e como podemos diminuí-las. Vamos a isso?


1 - Reduzir para o mínimo as despesas regulares de beleza. De vez em quando, sou acometida por uns sonhos loucos relacionados com o mundo da beleza: pintar o cabelo de louro platinado e fazer extensões de pestanas são os mais comuns. Depois lembro-me que ficaria presa ao custo das manutenções (e que não tenho tom de pele para ser loira) e regresso à Terra. Idas frequentes ao cabeleireiro, unhas de gel e gelinho, depilação na esteticista - precisamos mesmo disso tudo? Pela minha parte, o único "luxo" desse tipo que me permito é o threading de sobrancelhas, a cada mês e meio, porque acho que faz muita diferença e não tenho habilidade para fazer em casa;  




2 - Só comprar roupa em promoção. Em 2017, comprei uma única peça de roupa que não estava em promoção, porque me apaixonei por ela e faltavam 2 meses para o início dos saldos. Regra geral, faço 2 compras maiores por ano - nos saldos de verão e de inverno - e, se pelo meio preciso ou tenho vontade de comprar uma coisinha, opto pelos outlets. É preciso paciência, visitar as mesmas lojas e os sites várias vezes durante o período de saldos, mas é possível fazer ótimas compras por uma fração do preço que pagaríamos em época normal. Outra hipótese é comprar em promoções de meia-estação ou com cupões de desconto. No CupomValido.com.br encontram cupões de desconto em diversas marcas presentes em Portugal, como Adidas, Fnac, Quem Disse Berenice? e O Boticário.




3 - Fazer planos culturais gratuitos (ou muito baratos). Em Lisboa, os museus oferecem entrada gratuita aos domigos, até às 14h, para cidadãos portugueses. Há imenso para ver ou rever: Jerónimos, Estufa Fria, Castelo de S.Jorge, Torre de Belém, Palácio da Ajuda, e muito mais. Para quem gosta de cinema, as promoções são muitas. Alguns exemplos: usuários Yorn pagam apenas €3 às terças nos cinemas UCI, portadores de cartão NOS compram 2 bilhetes pelo preço de 1, nos espaços Cinema City podem adquirir um bilhete único de refeição e cinema por €9. Além disso, alguns cinemas, como os UCI, têm um dia por semana denominado "dia do espectador" em que o custo dos bilhetes é inferior ao normal. Não há desculpa para pagar bilhete inteiro! 




4 -  Pensar se valerá mesmo a pena. Esta é uma dica que cada um deverá aplicar à sua maneira, porque não atribuímos todos o mesmo valor às mesmas coisas. Até há pouco tempo, evitava ir a restaurantes porque era uma experiência passageira, preferindo guardar esse dinheiro para comprar uma camisola ou um vestido bonito (em saldos, claro - ahah!). Já não penso exatamente dessa forma, mas ainda acho que existem experiências cujo custo supera o valor. Por exemplo, será que nos compensa pagar €15 por um brunch, quando podemos fazer algo igual, em casa, por menos de metade do preço? 






Espero que tenham achado estas dicas úteis! Deixem nos comentários as vossas estratégias favoritas de poupança =)

Eu em dois parágrafos

Finalmente, dois anos e cinco meses depois da criação do Kill Your Barbies, preenchi a secção "Sobre mim". Não foi por desleixo, mas antes porque cada pessoa é tanto que se torna difícil dizer quem se é em meia dúzia de palavras. Passem por lá, os que andam aqui desde o início (obrigada!) e os que vieram cá parar hoje. Podem ler aqui.  



Caso ainda não o façam, sigam-me lá no Instagram, onde tenho sempre conteúdos novos para partilhar. :)

Produtinhos do calendário do advento The Body Shop!



Já andava há uns dois anos com vontade de comprar um calendário do advento, pelo motivo óbvio de achar fantástica a ideia de abrir um "presente" diariamente, durante os 24 dias que antecedem o Natal e, adicionalmente, ficar a conhecer melhor uma marca. No entanto, sempre achei os preços demasiado altos (ainda que a maioria das marcas garanta que o valor do conjunto é mais elevado que aquele que estamos a pagar) e não encontrei nenhum calendário que tivesse uma combinação de produtos perfeita. Penso que íamos a seis ou sete de dezembro quando encontrei um dos três calendários que a The Body Shop lançou em 2017 a metade do preço no Freeport. Como podem imaginar, esse foi um dia feliz porque abri todas as casinhas até ao dia em que estava (mas, a partir daí e até ao dia 24 abri religiosamente uma a cada manhã, apesar de por vezes ter espreitado). O calendário trazia:


- 3 sabonetes (o terceiro é o único produto em falta na imagem, porque já o usei);

- 4 géis de duche; 

- 3 cremes/loções de corpo; 

- 1 removedor de maquilhagem para olhos; 

- 3 bálsamos de lábios; 

- 2 cremes de mãos; 

- 1 lápis de olhos preto; 

- 1 esponja de banho; 

- 1 par de luvas esfoliantes;

- 1 esponja de limpeza de rosto; 

- 1 lima; 

- 1 enrolador de pestanas; 

- 1 pente de sobrancelhas; 

- 1 glitter.


O que achei do calendário e dos produtos? 

Em primeiro lugar, fiquei contente por não o ter comprado ao preço original de €60. Alguns produtos - como a lima e o pente de sobrancelhas - desiludem um bocadinho (há mesmo alguém que penteie as sobrancelhas?), e tive pena de não ter recebido um gel de limpeza ou esfoliante de rosto, mas pelo preço de desconto o conjunto mais que valeu a pena. Partilho da opinião geral de que os produtos da marca são realmente bons e dou imenso uso a coisas como bálsamos de lábios e cremes de mãos. Sem falar dos produtos para o corpo, que têm o tamanho ideal para viagens! Também fiquei contente por trazer um lápis de olhos preto em full size, que tem sido de uso diário desde então. Foi uma ótima oportunidade para conhecer melhor a The Body Shop, uma marca que tem a enorme vantagem de não testar as suas fórmulas em animais, e vou decididamente passar a estar mais atenta aos produtos e lançamentos da marca.


E vocês, abriram algum calendário do advento em 2017?

É possível gostar de animais e não ser vegetariano?





Há dias, recomendaram-me que respondesse a este post sobre vegetarianos, não-vegetarianos e o amor pelos animais. Abre com uma declaração de compatibilidade entre gostar de, e comer, animais, mas acaba por abordar temas que são comuns a discussões sobre este tema. Este post parte da leitura desse, sem ser uma resposta ponto por ponto. Antes de começar, impõe-se uma advertência: não tenho a pretensão de agradar a toda a gente através de um discurso zen-fofinho. Ninguém me ouvirá dizer que, ainda que não coma animais, não me incomoda que outros o façam. A minha posição é a de que comer animais é errado de um ponto de vista ético. Isto não é um ataque a quem os come, é uma defesa daqueles que não têm voz. E o facto de não respeitar a vossa escolha não invalida que vos respeite enquanto indivíduos e humanos. Amigos como antes, sim?


Começemos pela justificação mais singela, que é, de certa forma, a mais sincera: gostar de carne. OK, percebo perfeitamente. Se determinada prática nos é querida, socialmente aceite e enraizada pela força do hábito, para quê aboli-la do nosso quotidiano? Só que eu não conheço nenhum vegetariano que não gostasse de algum produto de origem animal. Eu fui grande admiradora de coisas tão ecléticas como cozido à portuguesa, sardinhas assadas no pão ou Grana Padano. Mas apreciar um sabor perde peso quando percebemos que os nossos apetites são uma futilidade quando do outro lado da balança está a vida de um ser senciente. O que para mim era uma refeição, para eles era o fim da existência. Quando comecei a minha transição para o vegetarianismo, mal conhecia a cozinha vegetariana. Nunca tinha ido a um restaurante específico, não sabia cozinhar nem se algum dia iria gostar. Mas isso não era relevante, porque eu sabia que não tinha o direito de dispor das vidas daqueles animais para agradar as minhas papilas gustativas e os meus hábitos enraizados. Saber que continuaria saudável bastava-me (uma dieta vegetariana adequada é considerada saudável em todas as fases da vida. Ver, por exemplo, aqui e aqui). Mudamos porque é o nosso dever ético, não por não gostarmos dos sabores com que crescemos. 



Comer carne não é o problema. Precisamos apenas de reduzir a quantidade e alterar os métodos de produção. Quando dizemos que comer carne não é errado de um ponto de vista ético, estamos a dizer que podemos justificar eticamente o abate de um animal não-humano saudável sem que exista uma necessidade real para tal (e, se estão a ler este texto na parte ocidental do globo, é pouco provável que tenham uma necessidade real de matar um bovino, um suíno ou outro animal cujo consumo é socialmente aceite). É dar o nosso cunho de aceitação a que se mate alguém (alguém, não algo) que sente dor, medo e stress. Eu acho que qualquer mudança é positiva. Se reduzirem o vosso consumo de carne para duas vezes por semana, já estão a fazer alguma coisa, no mínimo, pelo planeta e pela vossa saúde. Mas esta posição perpetua a visão dos animais não-humanos como bens que estão à nossa disposição ao invés de indivíduos com o direito básico à vida. Quando afirmamos que basta reduzir o consumo e criar melhores condições para os animais da pecuária, estamos a dizer que é correto matar alguém que não quer morrer. 


Os animais carnívoros também matam para comer e isso não é imoral.  Certo. Do mesmo modo, também não é imoral quando um leão mata as crias de machos rivais, mas isso não não significa que um macho humano possa andar por aí a matar as crias de outros homens. O que quero dizer com isto é que há uma tendência para usar o argumento da natureza conforme mais nos convém. Defendemos que podemos comer animais porque também somos animais, ao mesmo tempo que atribuímos um valor inigualável à espécie humana porque somos diferentes dos outros animais. Ora, a espécie humana só existe como tal por ser um híbrido de natureza e cultura. É impossível regermo-nos pelos padrões dos animais não-humanos, e estou certa de que a maioria das pessoas que justifica comer animais porque "é a natureza" não quereria ver a mesma lógica aplicada a outros assuntos. 


Uma dieta vegetariana é mais dispendiosa. A resposta concisa é "não". Talvez fiquem com uma ideia mais clara que disser que gasto entre quinze a vinte euros no supermercado numa semana normal. Às vezes gasto mais porque quero (assim como um omnívoro pode comprar um bife mais barato ou outro muito mais caro), e é engraçado notar que a que minha dieta é mais saudável quando gasto menos, porque significa que como menos alimentos processados, que são aqueles que elevam o custo de uma dieta vegetariana. 


As plantas também são seres vivos. Esta é uma justificação que traz implícita a ideia de que matar, por exemplo, um bovino, equivale a arrancar uma alface do solo. Mas reparem que, se consideram que a vida humana tem mais valor que a vida de um bovino, daí decorre, numa ordem de pensamentos lógica, que devem considerar a que a vida de um bovino tem mais valor que a de uma alface. Se vêem a atribuição do valor da vida como um continuum, é certo que algumas das características que encontram num humano e que tornam a sua vida superior à de um bovino se encontrarão de forma mais expressiva num bovino que numa alface. Se, ainda assim, quiserem colocar as plantas no mesmo patamar que os animais não-humanos tradicionalmente usados na pecuária, reparem que, para que que vocês comam a vossa carne, os animais tiveram que comer plantas, e em maior quantidade que aquelas que vocês comeriam. Assim, se estiverem realmente preocupados com os níveis de senciência das plantas, o passo lógico é comê-las e não aos animais que as comem, eliminando, assim, um elo da cadeia do sofrimento. 


Tens que respeitar a minha escolha de comer animais. Este argumento assenta no pressuposto de que a vida humana é tão superior à vida de um animal não-humano ao ponto de os animais não terem o direito de não serem mortos, enquanto que os humanos que os matam têm o direito a nem sequer ser confrontados com as consequências das suas escolhas. Quando um vegetariano afirma que comer animais é desrespeitar os mesmos, estamos a falar de tirar vidas. Quando alguém que come animais se queixa que um vegetariano não respeita a sua escolha, está em causa o questionar da validade de uma conduta. É só isso, a vossa vida não está, de forma alguma, ameaçada. Queiram desculpar-me se estou mais preocupada com ser uma voz para aqueles que não têm voz que em ferir a vossa sensibilidade. Dito isto, parece-me evidente que o ataque pessoal não é uma forma eficaz de ativismo. Mas afirmar que é impossível respeitar uma escolha que tira vidas não é um ataque - é um ato de respeito para com as vítimas.


Comer carne não faz de mim melhor pessoa, seres vegetarian@ não faz de ti melhor pessoa. Concordo até certo ponto. O conceito de "boa pessoa" é algo muito lato e certamente que todos fazermos coisas certas e erradas, pelo que é difícil avaliar quem é "melhor" ou "pior" com base num único comportamento. No entanto, se considero eticamente reprovável comer animais, daí decorre que se a pessoa X deixa de comer animais, todos os seus outros comportamentos se mantendo, a pessoa X é melhor pessoa que anteriormente. Isto é, acho que qualquer pessoa que deixe de comer animais se torna melhor face a uma versão de si própria que os coma. 


No final, estes argumentos só são possíveis porque quem os faz parte do pressuposto enraizado da intocabilidade da vida humana versus o estatuto contestável da vida não humana. Só que a ideia do caráter único da vida humana só é justificável se acharmos que existe um Deus que nos criou à sua imagem. Porque, na verdade, entre as características (mais ou menos arbitrárias) que usamos para definir o valor da vida, existem poucas que todos os seres humanos possuam e, aquelas que são comuns a todos, são também partilhadas com animais não-humanos. Não fui eu quem descobriu isto, foi Peter Singer. Notem também que os argumentos acima expostos e que procuram justificar o ato de comer animais parecem ser apenas válidos para alguns animais - os animais explorados pela atividade pecuária. Dificilmente alguém dirá que respeita a vossa escolha de não bater no vosso cão, mas que espera que respeitem a sua escolha de maltratar o seu. Se é possível gostar de animais e não ser vegetariano? Talvez, dependendo do significado que atribuirmos a este gostar, e de que animais estejamos a falar. Muitas vezes dá-se o caso de que as pessoas que afirmam gostar de animais gostam, na verdade, de cães, gatos, e do leque de espécies que compõem a megafauna carismática. E parece-me à partida muito redutor falarmos em animais como se estes formassem uma entidade unificada, quando as espécies existentes são contabilizadas em milhões - neste sentido, a terminologia humano/animal serve para perpetuar a dicotomia nós/eles, fortalecendo conceptualmente a "nossa" superioridade sobre milhões de espécies. É muito fácil dizer que gostamos de animais quando os vemos como um construto ao invés de os encararmos como indivíduos, portanto acredito realmente que alguém possa sentir que gosta de animais, assim conceptualizados ao nível da abstração. Infelizmente, aos animais explorados pela pecuária, de pouco serve este gostar. Uma coisa é certa: enquanto eles continuarem a morrer em vão, haverá quem fale por eles.

Obrigada, 2017



Ao contrário de muitas pessoas, não vejo as resoluções de ano novo como aquela tradição que pretende marcar o início de um novo ciclo mas que nunca sai do papel. Pelo contrário, funciono bem por objetivos e tenho sempre metas a curto e a médio prazo (que o longo prazo fica muito longe e não tenho tanto controlo sobre a minha vida, principalmente profissional, que me permita traçar planos num futuro distante). Por outro lado, torço um bocado o nariz às recapitulações do ano que passou, porque acho que as fases não se delimitam com o fecho de um ano civil. No meu caso, será em meados de 2018 que fecharei a fase atual. Mas é sempre bom pensarmos no que atingimos, portanto fica aqui para a posteridade (ou para ler naqueles dias de depressão) e em ordem cronológica um apanhado das conquistas e principais momentos de 2017, que foi um dos melhores anos de sempre. 


Fui feliz no amor (mas continuei com azar ao jogo): No final de 2016, deixei-lhe um papel com o meu e-mail (porque achei que o número de telemóvel era muito pessoal, ahah) no lugar onde estava sentado na biblioteca. Ele respondeu meia hora depois e o resto, as they say, é história.


Voltei ao Algarve pela primeira vez em anos: E tomei os melhores banhos de mar do ano. Fui em trabalho, mas aproveitei todas as horas livres para me enfiar dentro de água (na piscina do hotel ou na praia) e para passear no centro histórico de Lagos. Pelo meio resgatei uma gaivota que tinha sido atropelada e, apesar de não saber o que lhe aconteceu depois de a deixar junto das entidades competentes, espero que ande por aí a voar, feliz da vida.


Viajei (também pela primeira vez em anos): E planeei uma viajem pela primeiríssima vez. Fomos só ali a Barcelona, onde já tinha estado, mas gostei de descobrir que consigo planear uma viagem no princípio ao fim, permanecer dentro do budget, fazer tudo o que planeei e não me perder. O mérito desta última conquista vai para o GPS (a melhor invenção depois das lentes de contacto e o meu amigo de todas as horas), mas as outras ninguém me tira.


Domei a minha hipocondria: Fui a diferentes médicos, fiz toda a espécie de análises e exames, e no fundo, tomei controlo sobre a minha saúde. Estamos todos carecas de saber que devemos fazer exames de rotina anualmente, de forma permitir aos médicos a deteção precoce de uma eventual doença, mas eu acho sempre que vou ser aquele caso da pessoa que descobre que está doente e é informada que só tem duas horas de vida e, se é assim, prefiro nem saber. Por ter perfeita noção de que é um pensamento irracional, esforcei-me para ultrapassar esta paranóia e prometo, a partir de agora, ir ao médico anualmente.


Fui buscar um nariz novo: Já falei tanto sobre isto ao ponto de quase esgotar o assunto, mas é o exemplo daquela coisa que sabemos que faremos um dia, apesar de toda a gente duvidar. Foi uma das melhores decisões que tomei e um processo super tranquilo. Não doeu (literalmente) e teve um impacto infinitamente positivo na minha autoimagem. 


Explorei uma cidade portuguesa: Três semanas depois da cirurgia, e ainda de olhos negros, fui passar uns dias a Évora. Pequenina, mas com boa comida vegetariana, e alguns pontos de atração histórica (com destaque para a Sé de Évora). Comi muito, descansei mais e ainda aproveitei a Black Friday. 


Ganhei uma bolsa de mérito académico: No último mês do ano, fui informada de que fui a melhor aluna do meu curso (no caso, mestrado) no ano letivo de 2013/2014 e de que, como prémio, receberia uma bolsa de mérito. Sim, foi uma atribuição tardia, mas chegou como mais uma recompensa por toda a dedicação e todas as horas ganhas (nunca perdidas) a trabalhar na minha dissertação. 


Comprei bilhete para o concerto do Bob Dylan em 2018: Sejamos honestos - o senhor já tem uma certa idade, não tarda nada só vai querer sopas e mantas, de forma que não sabemos se voltará a Portugal. Eu acho-o um verdadeiro génio e decidi não deixar escapar a oportunidade, apesar de ninguém se ter voluntariado para me acompanhar e temer ser atropelada por um multidão em histerismo.


Escrevi dois capítulos de livro e um artigo científico: Não é muito divertido, mas são provas tangíveis do meu trabalho e que servem para, aos poucos, enriquecer o meu CV. Quem trabalha no meio académico sabe que este artigo só deverá ver a luz do dia, numa publicação, lá para o final de 2018, mas é ainda assim uma conquista do ano que passou.


Passei um ano no mesmo trabalho: Antes de setembro de 2016 só tinha tido trabalhos temporários de entre dois a três meses. Apesar de, também agora, estar com contrato a termo certo, no final terei passado pouco menos de dois anos a trabalhar no mesmo projeto. O meu contrato termina em meados do ano e a incerteza acerca do futuro já me começou a tirar o sono. Se tudo descambar a partir daqui, terei sempre este post a lembrar-me que 2017 foi um ano do caraças. 


E o vocês? Conseguiram cumprir as metas que se propuseram em 2017? Espero que o vosso ano tenha sido, no mínimo, tão feliz como o meu. 💙

A Internet, a gratificação instantânea e a minha crise de leitura

Quando eu era pequena, gostava muito de ler. Primeiro banda desenhada da Disney e da Turma da Mônica, depois Harry Potter e outros livros juvenis. Lembro-me de, num verão, passar dias inteiros a ler a Ordem da Fénix, e acho que nunca chorei tanto como quando o Sirius, o padrinho do Harry, morreu. Foi como se estivesse lá e, embora não tenha voltado a ter exatamente a mesma experiência com outros livros, continuei a ler e a apreciar a leitura. Com a Lolita de Nabokov comecei a descobrir as obras dos grandes autores: Melville, Tolstói, Dostoiévski, Austen, Flaubert, García Marquez, Saramago, Steinbeck... E, a cada história, conhecia essa sensação de imergir (umas vezes mais, outras menos) num universo diferente. Acho fantástica a forma como os livros nos permitem estar fisicamente presentes num sítio, seja o nosso quarto ou o comboio, enquanto a mente está tão além que, quando alguma coisa nos força abruptamente a regressar, ficamos espantados por não termos saído de onde estávamos quando começámos a ler. Mas esta é uma sensação que já não reconheço: nos últimos anos, quando - raramente - li algum livro, não foi com entusiasmo. A culpa é da minha relação com as tecnologias digitais.


Este ano terminei apenas um livro. Não foi por falta de tempo ou de livros que me agradem. Li como quem desempenha uma tarefa, porque achava que, se forçasse, cedo entraria no ritmo. Mas, no final de cada página, tinha vontade de puxar do telemóvel. Espreitar as novidades nos grupos de Facebook de que faço parte, ver umas Insta Stories ou consultar o e-mail. Se estivesse em casa, começava a pensar que preferia estar a ver um vídeo no Youtube ou uma série. Eu, que tinha passado anos a detestar computadores e a resistir ao canto de sereia da Internet e das redes sociais, percebi que estou completamente absorvida. Acho que é mesmo a palavra acertada: a Internet é como a toca do coelho da Alice no País das Maravilhas e tem o poder (se deixarmos, claro, mas esse potencial é intrínseco à natureza da Internet) de nos absorver e manter fixados. Quem nunca se sentiu preso ao computador, ao final do dia, sem mais necessidade de o manter ligado, mas sem vontade de desviar o olhar? Eu senti, inúmeras vezes. Só mais um vídeo do Buzzfeed, só mais um episódio desta série de que nem gosto assim tanto. Temos o mundo inteiro ali, virtualmente qualquer informação que quisermos à distância de um clique. E é fascinante, e maravilhosa, a forma como nos facilita a vida de tantas maneiras e nos permite expressar a nossa criatividade e opiniões através de plataformas como o Youtube, o Blogger ou o Instagram, ou mantermo-nos ligados a amigos através do Facebook e WhatsApp. Mas é também desgastante para quem, como eu (e, acredito, cada vez mais pessoas), não se consegue desconetar. À imagem de um cyborg, é como se o smartphone já fizesse parte da nossa mão.


Na minha dissertação de mestrado, sobre a relação da mente humana com as tecnologias digitais, escrevi sobre o poder contido na Internet que pode, até, modificar a própria estrutura da nossa consciência. Um exemplo disso é o declínio de certos mecanismos de lembrança de informação: tendo toda a informação no bolso das calças, há muitas coisas que já não precisamos aprender. A Web deu-nos muito, mas acredito que também vá tirar - afinal, estamos só agora a assistir às primeiras gerações nascidas na era das tecnologias digitais, que cresceram com elas como nós crescemos com a televisão, mas que têm um poder que a televisão não tem. E vai ser engraçado ver de que formas nos irão transformar, até porque a mudança não tem que ser má, pode apenas ser... diferente. Até lá, o que gostava mesmo, mesmo, era de me enroscar com um livro à lareira (ou ao radiador, não sou esquisita) e ser transportada para outro mundo, sem a inquietação de estar ligada à rede que nos une a todos e à informação na Web.

Sim, as mulheres são más umas para as outras (e o que podemos fazer para mudar isso)

Créditos: Unsplash



Sei que falar sobre este tema é como aproximar a mão de um ninho de vespas, portanto permitam-me abrir com uma declaração de interesses: sou feminista e reparo diariamente nos efeitos que uma sociedade de cunho machista e patriarcal tem na perceção das mulheres sobre si próprias, bem como nas relações interpessoais entre mulheres e homens e mulheres entre si. As mulheres são objetificadas, frequentemente desvalorizadas em posições de liderança e avaliadas pela sua aparência física. Calma, não estou a dizer que a sociedade está numa cruzada contra o feminino e o que ele representa (pelo menos, não a sociedade ocidental e não neste momento histórico), mas julgo poder afirmar com confiança que todas as mulheres sentiram, pelo menos num momento das suas vidas, o peso do machismo. Do mesmo modo, não diria que todas  as mulheres são, a toda a hora, más umas para as outras - e ainda assim, penso que todas temos alguma experiência a partilhar sobre o assunto.


Tenho sentido essa mesquinhez de mulher para mulher algumas vezes, desde o início da adolescência, vinda de colegas e amigas. Chega, geralmente, em forma de indiretas proferidas com o objetivo de me fazer saber que não acham que seja tão gira/inteligente/inserir aqui outro adjetivo valorativo como elas julgam que eu penso que sou. E, sim, isto é, na maioria das vezes, uma atitude motivada por algum tipo inveja, que, como bem sabemos, é uma profícua geradora de despeito. Porque gostavam de ser mais confiantes de si próprias numa sociedade cujos padrões de beleza impedem que a maioria das mulheres o seja (e as pessoas mais confiantes não são necessariamente as mais bonitas), porque também gostavam de usar aquele vestido mas não se sentem à vontade por culpa das conceções irrealistas sobre como um corpo feminino deve parecer. Certamente que eu própria não serei imune a reproduzir esse comportamento. Quando vejo uma atriz de uma beleza arrebatadora, o meu primeiro (e segundo, e terceiro, instinto) é detestá-la - e é assim que tenho uma raiva mortal à Margot Robbie. Mas devíamos tentar o nosso melhor para não trazermos essa mesquinhez para a vida real, onde um comentário mal intencionado (sim, porque a intenção desses comentários é sempre desvalorizar a pessoa a quem são dirigidos, permitindo àquela que o emite uma satisfação retorcida) pode realmente afetar alguém. 


Onde é que quero chegar com isto? Se acho que as mulheres conseguem ser mesquinhas umas para as outras? Sim. Se acho que este é um comportamento que resulta de uma estrutura machista que define um conjunto de características desejáveis ao feminino, fazendo com que as mulheres compitam entre si sobre quem é a mais bonita, a mais desejada, etc? Certamente - afinal, já Bourdieu dizia que a dominação masculina (termo do sociólogo) não poderia, no Ocidente, sobreviver sem a conivência do grupo dominado. Se eu acho que a ocasional mesquinhez entre mulheres é o mais grave problema derivado do machismo? De forma alguma. O machismo produz formas de violência - violência doméstica, violência no namoro, violência sexual - que matam mulheres todos os dias. E, no entanto, não acho que esta seja uma questão irrelevante. Que uma colega de escola tenha usado a nossa autoestima como cordeiro sacrificial para aumentar a sua, não nos dá carta branca para fazer o mesmo a outra. E, assim como o "piropo" é produto de uma cultura machista mas cabe a cada homem perceber que não tem o direito de andar na rua a assediar verbalmente as mulheres com quem se cruza, também nós temos o dever de ser melhores umas para as outras. Se acham a vossa amiga bonita, celebrem a beleza dela. Se a vossa colega é a melhor aluna da turma, não menosprezem a sua inteligência insinuando que só o consegue por ser marrona. Se ela consegue comer este mundo e o outro sem engordar, não a chamem de escanzelada. No fundo, é muito fácil: basta que se lembrem que as virtudes e conquistas das outras mulheres não vos desvirtuam. Verão que não precisam de depreciar outrém para serem, também vocês, incríveis.

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