Aos 21

Quando eu tinha vinte e um anos fiz-me membro do Bloco de Esquerda. Quando tinha vinte e um anos era vegetariana e achava que ser feminista era incompatível com assumir características tradicionalmente associadas às mulheres. É com alguma graça que recordo as noites em que me sentava nas aulas com o braço apoiado na cadeira vazia ao meu lado, porque lera que ocupar espaço traduz domínio e assertividade, características largamente negadas ao meu género. Aos vinte e um achava que ser culta era ter, exclusivamente, gostos refinados, ai de mim se me apanhassem a ver filmes que não dos da laia de Bergman e Fellini, mesmo que o Bergman fosse demasiado cáustico para as minhas sensibilidades. Aos vinte e um eu era mais um conceito que uma pessoa. 


Não pago as quotas do partido. Nas eleições de domingo passado, não votei Bloco. Não como carne, que é-me impossível afastar a sensação de que aquilo é um cadáver, mas o burger de filete de peixe do Macdonald's sabe-me pela vida. Assumo de boa vontade que sou uma girly girl, que o meu mundo é o das emoções e que não poderia ser de outra maneira. Vejo os filmes que quero, e mesmo que já tenha visto cada um dos Harry Potter's quinze vezes é um prazer revê-los pela décima sexta. 


Não digo isto do alto dos meus cinquenta anos - afinal, passaram apenas três desde os vinte e um. Ainda bem que posso dizê-lo tão cedo.



19 comentários

  1. Bom dia
    Bonito texto. Estamos sempre a tempo de mudar, lool

    Beijo e um dia feliz
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Revejo-me muito em ti. Especialmente no Harry Potter! ihihi

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  3. Fazemos as nossas escolhas, mas a vida não é um testamento imutável.
    Eu fui do MRPP ahahahah. Meus Deus, fazíamos reuniões num barracão abandonado numa quinta, à luz de um candeeiro a petróleo que a minha irmã usava quando faltava a luz.
    Estávamos no tempo do PREC e se os comunas do PCP nos apanhassem, éramos espancados. Por isso tinha de ser tudo muito secreto.
    Um dia a Comissão de Moradores convidou-nos para ajudar na construção duma ponte sobre uma pequena ribeira, que iria encurtar 2 Km de caminho para casa e dos "camaradas" do MRPP, apareci EU! ahahahah
    Raisparta os revolucionários de pacotilha...
    Nunca mais me apanharam (nem ao candeeiro a petróleo da minha irmã), nas reuniões "secretas". ahahahahahahah

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    1. Ah ah, isso é que é uma história! Mas de facto o comunismo tem uma certa aura de encanto..

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  4. Gostei tanto deste texto... realmente todos passamos por fases da nossa vida em que nos perdemos quando nos estamos a tentar encontrar, definir... acho que aos 24 já te encontraste (não que esta procura termine algum dia, mas aproxima-se de uma resposta a cada dia que passa).

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  5. Realmente passamos por fases engraçadas e ao mesmo tempo tão diferentes!

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  6. adorei o post!!! ficquei a conhecer te um pouco melhor ;)
    xoxo,
    Sandra Color-s

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  7. É por isto que cheguei e fiquei por aqui :)

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  8. A parte mais importante é que toda essa fase fez de ti mais e melhor, Acho que todos passamos por uma fase idílica onde apenas há espaço ao elitismo (ou pseudo-elitismo), por assim dizer. Depois crescemos e vemos que ser mais e melhor é aceitar que as coisas boas não têm formas, nem estatutos.
    Gostei muito =)

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    1. Só não acho que seja verdade que todos passamos por uma fase assim. Mas devíamos. É importante ganhar consciência social, informarmo-nos sobre o que está subjacente ao que conhecemos como única realidade. Depois podemos aproveitar o que queremos e descartar o que não nos faz sentido. É só quando pensámos nos assuntos para lá dos pré-conceitos e das construções sociais que podemos dizer que a maneira como nos comportamos é uma escolha :)

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  9. Acho incrível a velocidade a que as pessoas mudam. Não por instabilidade ou por não terem opinião própria mas sim porque evoluem.

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  10. Muito engraçado ler isto e pensar como as pessoas mudam e evoluem e são transformadas por essas fases que acham, no calor da idade, que serão definitivas :)

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  11. Tu fazes-me sentir uma nódoa! Temos a mesma idade e somos o oposto! Ainda estou no 2º ano do meu curso. Desisti e voltei tantas vezes, que já lhes perdi a conta. A minha vida tem sido caótica e, como já te disse que tinha, uma depressão não ajuda. Acho que ando nisto, desde os 19 anos.
    Nossa! Tens aqui uma fã e uma invejosa. As duas nº 1. Haha Já para não falar do nível de conhecimento e de necessidade de informação. Sou uma conformada, em relação a ti. Ainda ontem, quando comentaste sobre a possibilidade de se escolher o género dos filhostes, fiquei caladinha, caladinha, porque fico a sentir-me mesmo burrinha. Limitada, vá!
    Fazes-me mal, Nádia Carvalho Nunes! :'D
    E desculpa o stalk, mas as tuas reviews estão a dar-me imenso jeito. Temos o mesmo tipo de pele. (Mas eu tive um acne gravíssimo, logo não é bonitinha como a tua. - ATÉ NISTO!!! haha)

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    1. Ohh, isso é porque as coisas nunca são o que parecem vistas de fora. Nunca tive uma depressão, mas costumava ter ansiedade social tão forte que estive a uma unha negra de faltar à defesa da minha dissertação de mestrado. Mesmo! No dia anterior meti-me na cama e disse "não vou!", e só fui porque alguém se me lembrou de me dar ansiolíticos e lá fui eu toda drogada, ahah! E agora estou há um ano desempregada e com zero perspetivas de mudança. Estou tranquila e feliz sem saber como, porque tenho zero motivos para isso. E parece-me que manteres-te na universidade com uma depressão já é coisa de pessoa grande e forte, mas tu sabes isso :)

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    2. Mas é óptimo que assim estejas! Quando tiver de ser, será!
      Vou continuar a admirar-te, deste lado. :)

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