Não queremos a vossa validação

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A discussão foi introduzida em 2013, na sequência do debate aberto pelo Bloco de Esquerda. Como antropóloga, aprendi que a imersão num contexto cultural tende a toldar-nos a perceção crítica dos fenómenos que preenchem o nosso quotidiano. Por isso acredito que, para muitos homens e mulheres, 2013 tenha sido o ano em que foram forçados e forçadas a encarar o assédio verbal como um assunto sobre o qual é necessário pensar e formar uma opinião. Que vivemos num país de forte tradição patriarcal e marcado pela persistência de quadros de referência machistas foi espelhado nas toscas tentativas de condenar o assunto ao ridículo. 


O debate foi bem-sucedido no essencial: introduziu um muito necessário elemento de estranheza em práticas quotidianas que nunca mais serão vistas à luz fosca que as alumiava antes. Quando um problema é revelado, nada o poderá voltar a esconder. Saiu da ordem do dia na opinião pública, mas para mim persiste sempre que me desloco a pé na capital. Deixemo-nos de camuflar a real natureza do assunto: os nomes que chamamos às coisas importam, e o nome não é piropo, é assédio verbal. 


Não sou porta-voz de todas as mulheres; por isso digo, por mim e pela vasta maioria que sei partilhar da mesma opinião: não, não gostamos. O assédio verbal é uma forma de violência porque a mulher a quem é dirigido sabe que tem que ouvir e calar - aquele homem é um desconhecido, quem sabe qual seria a sua reação a um merecido "vai à merda"? Porque é isso que pensamos, enquanto olhamos em frente e apressamos o passo. 


No assédio verbal, o conteúdo não é o mais relevante. É relevante o ato de violência machista que é ser-nos imposta uma opinião que não requisitámos. Não precisamos da validação de desconhecidos. Estamos na rua, a passear, a caminho do trabalho, da escola, ou a tratar da nossa vida, e não queremos saber que somos giras e que o vosso coração não aguenta. Esta última ouvi de um bombeiro, seguida de um longo suspiro. Sim, um bombeiro. Digam-me lá se isto não é de perder a fé na humanidade. 


O problema aqui, parece-me, é que o homem que defende e/ou pratica o assédio verbal é um macho em primeiro lugar, e só depois uma pessoa. O homem cujos interesses se dividem entre "jolas" e gajas não concebe que aquela mulher com quem se cruzou na rua é, em primeiríssimo lugar, uma pessoa. A imposição da validação por parte do homem-macho é como um lembrete diário de que, aos olhos da sociedade, somos primeiro fêmeas.



36 comentários

  1. Gostei de ler o teu texto
    Parabéns


    Beijo
    Bom fim de semana

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Tão verdade...
    E são coisas tão idiotas que só apetece pregar um estalo nos que o dizem. Desde o que referes, a suspiros, assobios, piropos, coisas mais ordinárias... Não há direito.
    E engana-se quem pensa que só ouve quem anda meio despida na rua, porque eu não uso decotes nem roupas muito acima do joelho...
    Isto a mim deixa-me para lá de irritada e com vontade de lhes responder. Mas não se pode :(

    um beijinho*
    Dreams and Lemonade

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    1. Ficou por referir isso, mas tens toda a razão. Também não uso decotes e o assédio não deixa de acontecer nos dias em que uso jeans. Ainda assim, não devia interessar o que usamos. Temos o direito de andar de decote e mini-saia sem sermos incomodadas. Se uso uma mini-saia é porque gosto, não é um convite à avaliação por parte do homem-macho.

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  3. Concordo plenamente. O problema é estrutural na sociedade, porque, infelizmente e por muito que tentem camuflar o facto, vivemos numa sociedade patriarcal na qual, mulheres ainda são vistas como um ser de segundo patamar. E depois há o fator psicológico onde somos levadas a aceitar este tipo de violência para o bem geral.
    Eu lembro-me de ser miúda com 11/12 anos e ser assediada por homens adultos e achar que algo que muito errado se passava, mas hoje ainda continua a acontecer. E a maioria acha normal.
    Enquanto todos, homens e mulheres, não lutarem juntos pela igualdade nada vai mudar.

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    1. Exato. O fator psicológico passa muito por inculcar o medo. Quantas vezes deixei de vestir o que tinha vontade porque ia voltar para casa já de noite e queria passar despercebida. Que tenhamos este medo, e que este medo nos leve a alterar as nossas ações, é evidência suficiente de que vivemos sob o controlo machista da sociedade patriarcal.

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  4. Ora disseste tudo!!! É tão mas tão horrível! Às vezes sinto como se fosse um mero objeto!

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  5. Também não sou fã de assédios verbais até porque é algo que vai contra a integridade de qualquer pessoa. Piropos engraçados, que sejam feitos com elegância e na altura certa e que não sejam sexistas caem em em tom de elogio. Agora as barbaridades que comummente se ouvem, não obrigada! Da minha parte há muita gente que depois ouve uma resposta que não gosta mas quem diz o que não deve ouve o que não quer! Gostei imenso do teu texto, muito bem escrito, parabéns!

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    1. Não acho que existam piropos não-sexistas... O ato de assaltar verbalmente uma mulher com opiniões não requisitadas acerca do seu corpo é intrinsecamente sexista.
      Fico contente que tenhas gostado :)

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  6. Subscrevo cada vírgula. Eu, que já fui vítima de assédio físico sexual em pleno local público e que assédio verbal é todos os dias. Parece que nós, mulheres, quando nascemos mulheres ninguém nos explicou que o nosso corpo não é nosso, é do domínio público. Mete-me nojo e muitas vezes sinto até medo porque há homens que nos intimidam mais do que com as suas palavras nojentas. Eu não tenho culpa de ter nascido mulher, não pedi sequer para ter mamas ou rabo bons, aconteceu e eu sei que muitas mulheres se culpam por isto, pela sua anatomia porque o desespero de sair de casa com a certeza de que vai ouvir muitas e «boas» assim as obriga. Culpabilizam-se, como eu me culpabilizei por muitos anos, mas isso tem de acabar, a culpa não é nossa!!! O nosso corpo é nosso, não é do domínio público e não temos de «comer e calar». Dá medo, muito, responder a um desconhecido... As notícias estão cheias de psicopatas que decidem matar e violar mulheres sob as «desculpas e justificações» mas estúpidas e sem sentido de sempre. Responder é como assinar uma sentença sem sabermos ao certo qual será. Mas é preciso gritar, dizer basta! Não devemos ensinar às meninas pequeninas que devem ter medo de andar na rua à noite (ou em qualquer hora do dia), devemos sim ensinar aos meninos pequeninos que não se deve fazer mal a ninguém (seja homem ou mulher), nunca, e que se deve respeitar sempre os seres humanos!

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    1. Isso <33
      Não referi o assédio físico precisamente porque julgo que é preciso percebermos que todo o tipo de assédio é problemático. Ainda que, para uma mulher, seja indubitavelmente mais grave ser assediada fisicamente, o significado de ambas formas de abuso é o mesmo.

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  7. Não suporto e sou uma grande defensora de que em caso de nos sentirmos verbalmente assediadas podemos e devemos recorrer às autoridades. Desde muito jovem nunca compreendi como é uma coisa tão pouco debatida pela sociedade. Uma mulher (e um homem, como defensora de ideias feministas sinto que é uma questão de ambos os sexos) deve sentir liberdade e à vontade de andar na rua sem se sentir exposta e assediada. Como costumo dizer, uma coisa é andares na rua e ouvires um elogio que te vai fazer sorrir como "estás muito bonita", outra coisa é o piropo e o "estás toda boa". E ouvindo esse piropo, quando te tentas defender, ainda levas com o "esta gaja é maluca, estava só a elogiá-la". Não, isso não é um elogio, isso é assédio. Se querem elogiar aprendam-no o fazer sem nos fazerem sentir um pedaço de carne ambulante.

    http://venus-fleurs.blogspot.pt/

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  8. Não tenho maneira de confirmar se essa é a posição de todas as mulheres. Conheço mulheres que aceitam o piropo educado como um elogio e não levam a mal que as vejam como fêmeas. Porque, retóricas à parte, antes de tudo nós somos machos e fêmeas. Nascemos machos ou fêmeas e só depois é que começamos a ser estas "coisas" que andamos por aí, a mostrar a fatiota que, infelizmente, em certos círculos sociais vale muito mais do que o conteúdo. Quem sabe se não seríamos mais felizes se fossemos como os outros animais, machos e fêmeas, alegres e felizes a cheirar o cu uns aos outros.
    Assim, enjaulados em preconceitos, estamos mais perto de sermos animais de criação. Não fazemos amor: acasalamos!

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    1. Não posso concordar. Somos, primeiro, pessoas. Muita da divisão de género é feita a partir do berço, não é inata. Em relação ao piropo educado, repito aquilo que disse num comentário acima: o ato de assaltar verbalmente uma mulher com opiniões não requisitadas acerca do seu corpo é intrinsecamente sexista. E é precisamente por ser impossível conhecer a posição de todas as mulheres que os homens se deveriam abster dessa prática - afinal, estão a dirigir-se a PESSOAS cujas opiniões desconhecem.

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    2. Não, quando nascemos (portanto primeiro que tudo), somos machos e fêmeas, completamente despidos de roupa e de preconceitos. Depois é que nos metem essas tretas de sermos pessoas primeiro. Somos animais e os animais dividem-se em machos e fêmeas e procuram-se mutuamente e naturalmente.
      Não digo que os hábitos sociais sejam maus. Criámos sociedades ditas civilizadas, impusemo-nos regras e eu gosto de viver com regras. Mas conservamos os nossos instintos animalescos que só são deploráveis à luz das normas da sociedade. E é à luz das normas sociais que também discordo das atitudes de "alguns homens". Porque nem todos os homens andam pela rua a mandar piropos às roupas bonitas e caras cheias de maquilhagem a disfarçar os erros naturais da pele eheheh.
      - Hoje tens uma camada de banha que te faz a cara muito bonita. eheheh
      Olha, vou jantar. xD

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    3. Discordo categoricamente da ideia de que somos primeiro machos e fêmeas. Essa é, no entanto, uma discussão para outro tópico. Lembro-te, no entanto, que os seres humanos estão entre as poucas espécies animais que abusam sexualmente. Portanto talvez seja melhor reveres algumas ideias sobre instintos animalescos. O assédio, como o abuso sexual, não é movido em primeira instância pelo desejo sexual. É movido pelo desejo de controlo.

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    4. Não diria melhor!!! Palavras inspiradores... esse vai à merda dá mesmo vontade de dizer!!
      Um beijinho

      Blog Denise de Assis
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    5. Os abusos sexuais só existem entre os humanos, por sermos a única espécie que vive segundo padrões artificiais. Nós nascemos puros, é a sociedade que nos perverte, ao criar barreiras antinaturais.
      Só temos necessidade de violar fronteiras, porque nos cercaram de fronteiras. Na Natureza a finalidade do sexo é a preservação da espécie. Entre os humanos o sexo é tabu, é negócio, é prazer, é poder...

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    6. esperto que nem um alho, que amálgama para aí vai!

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  9. Gostei imenso deste post Nádia, e subscrevo o que escreveste. Seja ou não ofensivo, seja elegante ou engraçado ou grosseiro: guardem essas opiniões e esses comentários para si! Não temos de sentir essa invasão da nossa esfera pessoal. Felizmente este é um tema que está a ficar na ordem do dia; tanto quanto me tenho apercebido estão a gerar-se campanhas contra o assédio verbal e acho que já não era sem tempo! Não "tira pedaço" mas é um abuso!

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  10. Enquanto homem, sinto imensa vergonha dos restantes indivíduos de sexo masculino que praticam este tipo de atitudes. Assédio verbal é, de facto, uma forma de violência e quanto mais depressa entenderem isso, melhor. Sempre abominei os homens rebarbados que olham para as mulheres como se fossem um pedaço de carne, que nojo. Gostava de saber o que eles sentiam se fizessem o mesmo às suas mães, namoradas ou filhas. Duvido que achassem piada. Até comigo ao lado, a minha namorada chegou a ouvir frases feitas, assobios e etc, e a vontade é de os mandar para o car#l%o mas ainda me arrisco a levar um murro e colocá-la em perigo. Isto não é maneira de se viver. As mulheres merecem ser respeitadas e nunca subjugadas a tamanha imundice.

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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    1. Mais do que querer saber o que eles sentiam se fizessem o mesmo às suas mães, namoradas ou filhas, gostava de saber o que eles sentiam se outros homens lhes fizessem o mesmo... Não sei, curiosidade mórbida.

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  11. Ahahah, pois! Eu entendo-te. Não podemos gostar todos do mesmo, né?! :P

    Concordo com todas as linhas do teu texto! Aliás, subscrevo e assino por baixo.
    Acho horrível esse género de assédio. Acaba por ser algo incomodativo, algo muito baixo.

    NEW TIPS POST | HOW I STUDY?
    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  12. É esse género de assédio que me faz andar de fones nos ouvidos cada vez que saiu a rua. Porque ao ouvir comentários desses, até sem serem digiridos a mim, faz com que eu tenha que dar resposta à besta que os disse. Porque esse género de homens são repugnantes ao máximo e merecem uma valente de uma joelhada no "meio". Não há necessidade de rabaixar a mulher, pois sem ela eles não existiam. Mas a sua mente é tão capta que nem isso se apercebem! Enfim, é a sociedade de hoje...

    Love, Marie Roget

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    1. Ah sim... os fones! É também o que faço, quando me começa a faltar a paciência (e porque adoro ouvir música enquanto ando, vá).

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  13. adorei o teu texto! sabes bem marcar a tua opinião :)

    estou a oferecer $50 para gastar numa lojinha que adoro, participa aqui: www.pinkie-love-forever.blogspot.com :)

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  14. e é por isso que ando sempre de fones com música a dar se andar pela rua... mas engraçado que aqui no UK isso não acontece

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    1. Pois, o facto de não acontecer em todo o lado mostra que é um fenómeno cultural, e que Portugal ainda é um país onde reina o chauvinismo.

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  15. Se há coisa que realmente incomoda é quando andamos descansadinhas no nosso canto, a ouvir uma musiquinha, a andar descontraidamente pela rua e de repente se saem com um piropo. Detesto quando isso acontece, o desconforto e a vontade de um "vai-te lixar" tomam conta de mim. Concordo plenamente com o que escreveste.

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  16. Eles pensam que são machos e que são grandes... masss são iludidos... As vezes encarar esses gajos abaixa a crista deles... Á pouco tempo eu ia para o meu curso e um grupo de homens começou a mandar boquinhas e a rirem-se... um então estava todo contente... isto quando estava a passar... eu simplesmente parei voltei-me olhei nos olhos dele... acho que uma cara de demónio... que ele calou-se e ficou meio petrificado, porque não estava a espera que eu me voltasse. Fiquei parada uns segundo... e segui caminho... com o gajo quieto... Este tipo de homens têm uma limitação...vá lá que ainda há homens que respeitam as mulheres! Concordo contigo e gostei do post. Muitos parabéns... é sempre um prazer vir aqui ao teu blog
    Beijinhos

    http://ananegraomakeup.blogspot.pt/

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    1. Eu não tenho coragem para dizer nada... Mas deitar um olhar fulminante acho que faço sempre! Fico contente que tenhas gostado, um beijinho :)

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  17. Portugal deve ser dos piores países da Europa neste aspeto, o que é mesmo muito triste... Eu odeio isso, não suporto! E logo eu, que definitivamente nunca peço opinião a ninguém (vá, à minha mãe e irmã talvez). Sou mesmo aquele tipo de pessoa que usa o que quer, veste o quer, gosta das combinações estranhas. Vá, não ligo minimamente a modas, estereótipos, wtv. Levar com isso tira-me do sério! Não sou obrigada a aturar uma besta que não se sabe comportar, certo?
    Não aguento... E já me aconteceu cada coisa. Uma vez fui assediada por dois polícias. Sim, polícias. Estavam à paisana, mas tiveram de mostrar os cartões ao revisor do comboio e quando me apercebi disso fiquei sem palavras... Portanto, eu estando a ser vítima de um assédio deveria recorrer às autoridades. E qual não é o meu espanto quando o assédio vem das próprias figuras de autoridade... Se fosse agora, provavelmente faria queixa oficial das pessoas em causa. Não merecem o lugar que ocupam...
    Muitos que se cruzaram no meu caminho já levaram respostas bem piores que um 'vai à merda'. Às vezes penso que não devia, mas a verdade é que eles é que eles é que nunca se deveriam meter comigo sem me conhecer de lado nenhum.
    xoxo, Ana

    The Insomniac Owl Blog

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    1. Dois polícias?! Percebo perfeitamente quando dizes que se fosse agora recorrerias às autoridades. Também penso o mesmo sobre um episódio que me aconteceu (embora não de assédio verbal). Em relação a dares resposta... acho que fazes muito bem! Faria o mesmo se não fosse uma damsel in distress :P

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  18. Concordo plenamente contigo! Excelente texto ;) eu acho que a próxima vez que um homenzinho se lembrar de mandar uma boquinha, vai levar um tabefe! Pode ser que assim comecem a aprender alguma coisa ;)

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  19. Excelente texto! Subscrevo totalmente!
    Vou seguir-te.

    Beijinhos ♥
    http://lovingmypinkbubble.blogspot.pt/

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  20. Não diria melhor. E é pena que em pleno século XXI ainda tenhamos de lidar com isto, porém, é bom ver que cada vez mais estão a dar importância ao problema.

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