Amores reféns e o princípio da misoginia // Capazes

Quando falei aqui sobre a publicação de um texto de minha autoria na plataforma Maria Capaz (agora renomeada Capazes), disse também que não seria o único. Como a produção diária de conteúdos para o blog me ocupa bastante tempo, não voltei a pensar no assunto até uma das fundadoras da plataforma, a Rita Ferro Rodrigues, me ter convidado a escrever crónicas regulares - que aceitei prontamente. Não irei publicar no blog os textos que se seguirem, mas tenho a maior vontade de partilhar este (mesmo antes de estar disponível na Capazes) por ser tão pessoal. Expor situações destas será sempre uma das melhores armas contra a violência machista. Unite, girls (and boys)!!


O cerco começou subtilmente, com comportamentos então novos para mim mas que hoje, com a clareza do distanciamento e as ferramentas do feminismo, percebo pelo que foram: as primeiras sementes da violência no namoro. Uma violência psicológica que me tornaria refém do meu agressor e que começou por minar os meus laços com todas as pessoas que não fossem ele. Aquela prima era má influência, aquelas colegas de faculdade fingiam ser minha amigas para que lhes emprestasse os apontamentos; até a minha avó fora, segundo ele, surpreendida a falar de de mim. Estava completa a primeira fase - isolar a vítima e criar ou reforçar inseguranças.


É importante compreendermos que a violência no namoro, tal como a violência doméstica, não se manifesta obrigatoriamente por intermédio de agressão física. Se a vítima se sente reduzida, coagida, manietada, está numa situação de violência. Ao isolamento seguiu-se a perseguição: não querendo aceitar o fim do namoro, o meu agressor montou o mais cerrado dos cercos, descobrindo sempre onde eu estava ou para onde ia. Onde quer que fosse, sabia que o encontraria no caminho ou no destino. Dirigi os meus pedidos de ajuda a quem me rodeava. Mas eu nasci mulher - estava, certamente, a exagerar. O meu agressor nasceu homem - pobre rapaz, estava apaixonado, já se sabe que as mulheres conseguem enlouquecer os homens.


Anos volvidos, não é o meu agressor que recordo com maior mágoa: é o machismo - diria mesmo a misoginia - com que fui confrontada sob a forma de cada uma das pessoas de quem esperei auxílio. Do segurança de uma estação de comboios ao qual recorri em desespero quando o agressor me confiscou o telemóvel para que eu não pedisse ajuda (e cuja atitude foi um desempenho perfeito da máxima idiota segundo a qual entre marido e mulher não se mete a colher), até aos familiares mais próximos que, de forma mais ou menos explícita, sugeriram que eu estava em falta para com o meu agressor, tão-só porque exerci o meu livre arbítrio para decidir terminar o namoro. Foi assim que, no final da adolescência, fui involuntária e grosseiramente confrontada com um dos pilares da violência machista, uma crença profundamente enraizada, ainda que na metade ocidental do globo já poucos se atrevam a verbalizá-la. O princípio da misoginia é esta crença de que nós, as mulheres, existimos para os homens. Para seu prazer, para o seu bem-estar, para a contemplação e avaliação dos nossos corpos como se de objetos sem sujeito se tratassem. Afinal - não são todas as manifestações do machismo, em maior ou menor grau, derivadas deste princípio?



41 comentários

  1. É assustador. Infelizmente, décadas passadas de movimentos importantes na libertação da mulher, somos ainda hoje, nós mulheres, amarradas e subtraídas a convenções sociais patriarcais. É o mais assustador de tudo, é que essas mesmas amarras são impostas muitas vezes por outras mulheres.

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    1. Percebo o que dizes, embora não ache que existam mulheres machistas. Muitas reproduzem o machismo, sim, mas continuam a ser vítimas de um sistema que só as diminui. Bourdieu teve muita razão ao dizer que o sistema opressor ideal é aquele em que o grupo oprimido contribui para a sua própria opressão.

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    2. Sem dúvida, nunca quis dizer que o fazemos por consciência ou opção, mas sim como pressão social muitas vezes difusa é imperceptível.

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  2. Totalmente. Parabéns por escreveres para a Maria Capaz e por teres a coragem de dar a cara e contares a tua história. Obrigada :) Uma das minhas resoluções para este ano também é dar mais a cara pela depressão e distúrbios alimentares (binge eating, no meu caso)

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  3. Revoltante. Obrigada por dares a cara! Este é um flagelo que custa a muitos admitir - não é preciso bater para ser violento. E temos ainda tanto por fazer!

    Jiji

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  4. É preciso ter força e coragem para falar de um assunto tão pessoal. Gostei imenso, admiro-te!

    http://perdidanomar.blogspot.pt/

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  5. Tenho de te dar os parabéns: primeiro, pelas publicações regulares no Maria Capaz, plataforma que acompanho há muito e adoro; depois, por partilhares a tua história. Admito que nunca me aconteceu tal coisa, sempre tive relações bastante equilibradas nesse aspecto, mas vivi de perto situações semelhantes - com uma melhor amiga e uma prima. Ambas raparigas de personalidade forte que se anularam totalmente por uma relação (que entretanto já terminaram, felizmente - porque podiam ter acabado mal, muito mal). E, como disseste, essa nossa estúpida mania de que "entre marido e mulher não se mete a colher" conduz-nos a não nos metermos no assunto, mesmo quando sabemos que não está certo. Eu não me metia, raramente opinava, sentindo que estava deste modo a respeitar a vontade delas (de permanecerem na relação). Por outro lado, tinha receio de as afastar se opinasse. Enfim, novamente te congratulo pelo excelente texto. Nós mulheres temos um grande percurso pela frente na afirmação da nossa igualdade. É inaceitável o facto de continuarem a morrer mulheres nas mãos dos companheiros. É inaceitável que continuemos a não ter igualdade laboral (e isto sim, sinto na pele, pois por mais que demonstremos as nossas capacidades há uma preferência natural pelos homens, por uma qualquer razão que não entendo). É ainda mais inaceitável que continuem a existir pessoas (mulheres e homens) que pensam que devemos sujeitar-nos a tudo isto porque "é a nossa condição", ser mulher.

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  6. Não consigo imaginar o que é estar numa situação do género e acredito que tenha sido preciso muita força para te teres libertado do que mais te prendia, ainda por cima tendo-te afastado de tudo o resto. Sem dúvida que passaste por experiências terríveis, já para não falar da máxima "entre marido e mulher não se mete a colher" que não pode ser utilizada neste tipo de casos, obviamente.
    Quando uma pessoa precisa de ajuda aquilo que devemos fazer é ajudá-la no máximo que pudermos e àquele segurança bastava-lhe ter-te emprestado o telemóvel e ficar contigo até ter a certeza de que estavas em segurança (é irónico o uso da palavra segurança para a sua profissão e neste caso ter sido totalmente o oposto do que ele fez).
    Parabéns pelas crónicas regulares no blog Capazes.
    Quanto ao teu comentário no meu blog, penso que as femistas sejam maioritariamente jovens da minha faixa etária (adolescência) que não perceberam bem quais os ideias que se defendem no feminismo, enveredando por outro caminho. Muitas acabam por ter argumentos tais como "os homens são todos uns otários, as mulheres são muito melhores", "os homens deviam morrer", "devia haver mais mulheres com cargos importantes" e por aí fora (há algumas com mais lógica, mas sinceramente não me estava a lembrar do que fui ouvindo e lendo por aí). Com esta última consigo concordar, mas ao mesmo tempo discordar porque deve ter esse cargo o melhor candidato, independentemente do seu género. O grande problema é combater os aspetos da gravidez, das diferenças salariais e qualquer outro aspeto que pareça ser, erradamente, um impedimento para os contratadores, mas a questão aí passa por mudar mentalidades de quem gere os recursos humanos ou de qualquer outra pessoa que esteja à frente de um cargo semelhante, mas passando sempre a ideia de igualdade e nunca de superioridade, invertida ou não. Penso que as femistas tendem a vitimizar muito mais a mulher e a fazer dela uma coitadinha. Pessoalmente, é uma visão que não me agrada, porque eu acho exatamente o contrário. As mulheres sempre tiveram imensa força e prova disso é tudo aquilo que já conquistaram e que continuarão a conquistar. Acima de tudo, sempre me assumi como feminista porque aquilo que pretendo atingir não é um novo desequilíbrio, com os pratos da balança trocados, mas pretendo que seja atingido o equilíbrio entre esses dois pratos.

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    1. Em primeiro lugar, obrigada pelo teu comentário e por clarificares o teu ponto de vista :)

      O que eu quis dizer é que não acho que exista "femismo" - não é uma doutrina, não é um sistema, não é um movimento. Existem, tão-só, pessoas desinformadas (ou idiotas, vá). Num mundo em que o machismo mata, fere e diminui todos os dias parece-me demagogia falar em "femismo" e dizer que não somos isso, como se tivermos que pedir desculpas e ter cuidadinho com o feminismo.

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  7. Gostei de ler. Parabéns!

    Excelente semana, beijinhos

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  8. Parabéns pelas crónicas regulares no Maria Capaz!
    Admiro a tua coragem para conseguires expor esta situação delicada! Infelizmente, ainda existem muitas situações semelhantes...

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  9. Uau. Estamos habituados a ouvir histórias destas, mas achamos sempre que "só acontece aos outros". Não consigo sequer imaginar a tortura de que foste alvo e das mazelas psicológicas com que deduzo que tenhas ficado. Infelizmente o teu caso não é isolado, e cada vez mais existe em inverso, a mulher a perseguir/maltratar o homem - que é ainda mais menosprezado e considerado "ridículo" pela sociedade. Independentemente do sexo do agressor/vítima, é uma revolta enorme saber que existem pessoas capazes desse tipo de comportamentos por aí. Quando nos apaixonamos não estamos a contar que seja por um maluco, portanto o grau de paranóia para futuras relações deve ser terrível. Espero que apesar desta experiência, consigas recuperar-te e que não te feches para o amor. Como sei que é algo que desejas, tenho a certeza que ainda vais encontrar alguém que te trate como mereces e a cima de tudo, tens direito :)

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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    1. Raios pá, é impossível falar em violência machista sem vir alguém perguntar pelos homens! Brincadeira à parte, que sei bem que não estás a tentar desviar a atenção da violência contra as mulheres, é verdade que se um homem for maltratado é ridicularizado. E isso é, claro, uma consequência do machismo, que decide que todo o homem que não seja macho é fraco. Temos todos a ganhar com o combate ao machismo.

      Independentemente disso, estes casos são, sobretudo, de violência de homens sobre mulheres. Não é por um homem poder ser vítima de violência por parte de uma mulher que deixa de haver um problema de violência machista. E a discrepância física entre homens e mulheres permite que um homem se safe muito mais facilmente. Dificilmente um homem sentiria a sua segurança pessoal e o seu espaço ameaçado como eu senti, porque sabia perfeitamente que seria impossível conseguir defender-me.

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  10. Eu sei bem do que falas, não há muito tempo (1 ano precisamente) aceitei que estava numa relação deste tipo, onde existiu muita violência emocional, psicologicamente fiquei em frangalhos e isso valeu-me o desacreditar no amor, nos homens. Valeu-me passar o ano inteiro em psicoterapia a juntar o que sobrou de mim, e nunca se esquece, eu nunca esquecerei.
    São mágoas que dificilmente se apagam, talvez amenizem, mas continuarão sempre a doer. Mas de uma coisa eu tenho a certeza, de que é preciso uma imensa coragem (que por norma ninguém entende) para quebrar com relações deste tipo, e eu tive-a. Ainda bem que tu também a tiveste.

    Beijinho e obrigada pela tua partilha
    www.blogasbolinhasamarelas.blogspot.pt

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  11. Antes de mais, parabéns!! Precisamos de pessoas como tu, que escrevem assim, que conseguem passar a mensagem, que conseguem fazer-nos reflectir. (Sou tua fã, já sabes!!)
    Felizmente, nunca passei por uma situação dessas. Já fui vítima de machismos (quem nunca foi?) mas não numa relação. Mas tenho uma amiga que está numa situação muito idêntica à tua, muito mesmo. A diferença é que ela acha normal, não consegue ou não quer mesmo libertar-se. Eu já fiz o meu papel de amiga. E continuo atenta, muito atenta. É por isso que acho tão importante que se escreva sobre estes temas, que se passe a informação, que as pessoas dêem o seu testemunho. Obrigada Nádia, por seres mais uma voz activa!

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    1. E obrigada a ti por seres sempre tão querida!

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  12. Parabéns pela coragem e por teres passado este mensagem que me fez reflectir.
    Conheço quem ache normal estas situações e é por isso que acho tão importante que haja quem escreva sobre isto, quem lute e tenha uma voz activa.

    r: Vem sempre a tempo :) um excelente 2016!

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  13. Primeiro parabéns pelas crónicas que vais passar a escrever, seguidamente, tenho de dizer que adorei o teu texto, muito bem escrito, sem rodeios, muti bem estruturado. Se as tuas crónicas forem sempre tão boas, vou-me tornar leitora assídua :).
    Muito bem Nádia e mais uma vez, parabéns.
    Beijinhos.

    misscokette.blogspot.pt

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    1. Ohh obrigada, fico muito feliz <3
      Não faço promessas quanto aos próximos =P

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  14. Nádia, se imaginasses o que senti a ler o teu texto... Passei exatamente pelo mesmo, aos 17 anos. Era tão nova, como podia perceber o que se estava a passar? Pior, vivi numa ilusão como se tudo o que ele me dissesse fosse para o meu próprio bem. Até dos meus pais e da minha irmã me afastei. Felizmente acho que abri os olhos a tempo e apercebi-me das pequenas coisas. Alguém assim tem de ser uma pessoa violenta e que no futuro só será pior! Hoje olho para trás e sei que se fosse agora, nunca deixaria as coisas tomarem as proporções que tomaram. Felizmente tive o apoio da família que se apercebeu desde cedo de quem ele realmente era e que me tentaram abrir os olhos. Hoje em dia do que mais tenho medo é mesmo que a minha irmã cometa o mesmo erro que eu!

    Relações abusivas são silenciosas, muito silenciosas e é preciso estar atento! São coisas que nos destroem sem sequer darmos por isso e um dia pode ser tarde demais...

    Excelente texto! E parabéns por passares a publicar regularmente por lá :)

    Beijinho enorme

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    1. Mesmo! Eu só pensava que tinha que me livrar daquela situação porque se era assim na altura só podia piorar. E tal como tu também não me apercebi logo do que estava a acontecer, quando não conhecemos mais nada achamos que a nossa situação é normal. De qualquer forma agora sabemos o suficiente para alertar outras pessoas para estas relações abusivas, e tenho a certeza de que vais estar sempre atenta à tua irmã. <33

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  15. Bolas Nádia... Só consigo dizer Parabéns! Pelas crónicas, pela mensagem que passaste e pela forma como escreves! Parabéns mesmo.

    Beijinhos,
    Joana*

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    1. Ohh, obrigada, mesmo! E um grande beijinho.

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  16. Belo texto Nádia, parabéns pelo convite que tiveste :)

    O meu primeiro namoro, foi recheado de momentos como esses... ainda bem que me livrei dele :)

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  17. Muitos parabéns pela capazes! Nunca sofri de nenhuma situação como a que descreveste, mas imagino como deve ter sido complicado na altura e agora a publicares. Beijinhos!

    saltosecomputadores.blogspot.pt

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  18. Bom texto! Eu nunca tive uma relação assim mas conheço quem tenha tido e até quem ainda tenha! E tenho pena que algumas dessas pessoas não tenham tido a mesma força que tu para sair dessa situação e que agora se encontrem isoladas e controladas e a viver uma ilusão. E é bem verdade que muitas pessoas, infelizmente, não percebem isto e ainda vivem com pensamentos machistas e limitados.

    Parabéns por passares a ser colaboradora regular. :)

    Beijinho,
    Lau
    http://www.lscrapbook.com/

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  19. Também passei por isso, aos 18 anos, a violência psicológica, o deixar de estar com amigos, não era eu, até abrir os olhos e dizer chega. É uma coisa que te faz crescer, aquilo não era amor.
    Beijinhos*

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  20. Infelizmente tenho uma amiga que passa por violência no namoro, tanto psicológica como física. Deixou-o, mas entretanto já voltou para os braços dele, mas por mais que custasse eu ignorei. Ignorei porque houve tantas noites que eu quase dei por mim a sair de casa para a ir buscar e acabava por não ir porque ela dizia já não ser preciso. Estive com ela nos choros, tudo mais. Eu não estou na pele da pessoa, mas vi o seu sofrimento, e é por ver o seu sofrimento que eu agora ignoro, porque é burra. Completamente.

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    1. Não desistas de a tentar ajudar. Eu em certo ponto desse processo também voltei para o meu agressor, e não sou burra e tão-pouco gosto de sofrer. No meu caso, percebi mais tarde que foi para ter alguma paz, porque o cerco e a perseguição eram terrivelmente extenuantes e eu não conseguia continuar a fugir todos os dias. São situações muito difíceis com que podemos não saber lidar - até porque ninguém devia de ter que lidar com uma coisa destas.

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  21. Será a misoginia apresentada por um incerto número de indivíduos representativa de uma sociedade misoginista?

    Qualquer pessoa de senso comum seria capaz de ver o errado nesta história. Não quererá isso dizer que estamos numa sociedade que foi misoginista?

    Deixava a sugestão para quem estiver na mesma situação de arranjar provas concretas. O outro lado da medalha também existe: Já perdi amigos para namoradas ultra controladoras.

    Só não achei bem o excerto condescendente sobre rapazes apaixonados. São categorizados de loucos, cegos, incapazes de razão e imaturos. O único preconceito positivo é a persistência ou determinação. Não passa de um elogio mascarado.

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    1. Becafi, qualquer pessoa de senso comum também percebe que não tento defender o argumento de que vivemos numa sociedade misógina com base numa experiência (até porque teria muitas mais...). Nem foi o meu objetivo defender que vivemos numa sociedade misógina, mas sim numa que permanece, até hoje, guiada pelo princípio da misoginia que identifiquei. São coisas diferentes. No entanto, defendo abertamente que vivemos numa sociedade machista. E sim, o outro lado da medalha existe sempre (como em tudo), mas a violência exercida sobre as mulheres é uma violência de género - é uma coisa que acontece às mulheres devido à sua condição feminina tal como culturalmente imaginada.

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  22. Quero desde já começar por felicitar-te pela participação regular na plataforma Capazes. Com certeza serás uma mais valia, nomeadamente para uma plataforma que tem assumido cada vez mais um papel preponderante na sociedade contemporânea.

    Em segunda instância, tendo por base o objetivo principal do post, lamento que tenhas passado por essa experiência traumática sozinha quando os teus pedidos de auxílio eram evidentes e percetíveis. Por outro lado, fico feliz por teres conseguido sair da situação e teres a coragem suficiente para dares o teu testemunho e alertares.

    Efetivamente, a sociedade ocidental apresenta ainda uma veia machista. O que não deixa de ser irónico quando somos os primeiros a lançar um olhar crítico de superioridade sobre as culturas que utilizam o extremismo e o fundamentalismo religioso, para subjugar a mulher aos interesses dos homens. Ou seja, vivemos numa sociedade que discute cada vez mais os limites entre tolerância de culturas e a ética e a moral, mas onde ainda estão presentes algumas raízes machistas.

    No meu ponto de vista temos de ter o discernimento para entender que a mulher e o homem são 2 seres humanos distintos, seja pelas características biológicas associadas, seja pelas características psicológicas associadas. Todavia, isso não invalida a igualdade de direitos entre os 2 géneros. Antes pelo contrário, por serem “diferentes” é que devem ter os mesmos direitos por forma a coexistirem na mesma sociedade.

    Na verdade, ao deparar-me com testemunhos como o teu envergonha-me e causa-me um sentimento de repulsa saber que pertenço a um género que possui indivíduos capazes de desempenhar atrocidades contra o género feminino. Não querendo descurar os casos em que acontece o inverso, mas sejamos sinceros acontecem em menor caso. E como bem disseste: ”Temos todos a ganhar com o combate ao machismo”.

    E já que estamos a falar sobre esta temática deixo-te aqui o título de um filme (provavelmente já viste) “La Source Des Femmes”. Embora não espelhe o papel da mulher na sociedade ocidental, pauta-se pela bravura, inteligência e excecionalidade do caráter feminino para se insurgir contra a sua subordinação no mundo, e também pela maneira como desnuda temáticas de índole sociocultural.

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    1. Muito honestamente, não acho que faça sentido dizermos que homens e mulheres são seres humanos distintos. Há o homem-tipo e a mulher-tipo (ou pelo menos a imagem cultural de ambos os tipos) mas entre esses dois pólos está um contínuo povoado por pessoas que partilham de algumas características tradicionalmente associadas quer ao género masculino, quer ao feminino. É assim que me concebo e o mesmo é verdade para a maioria das pessoas. Todos temos a ganhar se passarmos a falar mais em "pessoas" e menos em "homens" e "mulheres".

      Obrigada pela recomendação do filme, que não conhecia.

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  23. Também já vivi um namoro violento, onde além do psicológico também afetou o físico. Sei do que falas e sinto a merda da misoginia todos os dias ao sair de casa! Nascer mulher não é fácil, ninguém nos avisou, ainda no ventre materno, que vínhamos para um mundo onde somos maioritariamente tratadas e vistas como puras escravas, onde não passamos de objectos sexuais para tudo o que seja homem. No outro dia a minha cunhada falava de querer ter filhos. Quando lhe perguntei se preferia menino ou menina ela disse-me menina. Logo a seguir perguntou-me ela o mesmo, respondi «menino» ao que ela disse «oh, mas menina é tão mais giro, tantas roupinhas lindas para comprar...» ao que eu automaticamente lhe respondi: mas o mundo não está preparado para as mulheres e que mãe seria eu ao trazer ao mundo uma filha que eu saberia à partida que seria perseguida, inferiorizada e mal-tratada durante toda a sua vida?

    Ela nada disse, limitou-se a fazer a observação de «que engraçado, estás a pensar no futuro... Enquanto que eu apenas estava a pensar naquilo que seria mais fácil para mim» com uma expressão de pura admiração.

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    1. Bom, eu considero-me feminista e não tenho preferência de género. Se tiver, é uma ligeeeeira inclinação para menina (que não devia ter, porque defendo que o género é, sobretudo construção social). Tens muita razão - nascer mulher é nascer, de certa forma, numa situação de risco. Mas eu ainda assim não preferia ter nascido homem, porque apesar de ser -como todas- vítima do machismo, sou muito mais que isso.

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  24. Bem, uma história destas e contada na primeira pessoa tem outro impacto...
    Fiquei arrepiada.
    E o pior é que leio o que te aconteceu e consigo imaginar perfeitamente a indiferença das pessoas o que torna tudo mais assustador!

    Quero deixar-te também os meus parabéns pelo espaço que vais ter na plataforma Capazes. É merecidíssimo porque escreves lindamente (é mesmo um prazer ler-te) e tens conteúdo!
    Boa sorte!

    nem mais nem menos

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  25. Gostei mesmo muito daquilo que li! Acho que esta é uma batalha muito importante que temos de continuar a travar! Muitos parabéns pela maneira como escreves, por conseguires passar a mensagem, pela oportunidade que te foi dada e também por teres a coragem para expor o teu caso!
    Acho que nunca é demais falar deste assunto e, como tal, sou uma fã da plataforma "Capazes". É preciso mudar as mentalidades (e comportamentos), e acho que é passando estas informações que o conseguimos.

    Bom trabalho! Beijinhos

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    1. Muito obrigada pelo teu comentário tão querido!
      Também sou fã da Capazes desde o comecinho, fazia falta algo assim.

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  26. Ainda dizes tu (num post acima) que não concordas com o "estarmos bem sozinhas" ou "ninguém precisa de outra pessoa". Dá-lhe tempo. Para já, por este texto, percebi que sabes gostar de ti. E já percebes muita coisa. Tendo passado por parecido (e estando tão bem comigo mesma mas cada qual a seu tempo) devo dizer que, olhando para trás, aquele ser é indiferente mas aquelas pessoas que sabiam de algo e se calaram, aquelas que te maltrataram sem justificação e se isolaram de ti por intrigas por ele espalhadas - essa constatação é a que traz uma amargura triste.
    Parabéns!

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    1. Sim, talvez me tenha expressado mal. Eu estou bem sozinha, vivo uma existência agradável, vá. Sou até feliz. Mas a felicidade de que falo é outra, e não tem nada a ver :)

      Quanto ao resto do teu comentário, lamento que também tenhas passado por isso. Sentimos exatamente a mesma coisa: indiferença face ao agressor e algum rancor por quem nos devia ter ajudado.

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