Carol // Flung out of space


Há vários indicadores de que o Apocalipse já esteve mais longe. Pessoas que se detonam na certeza de que serão senhores de um harém no paraíso e programas televisivos em que os mais ilustres intelectuais deste país contribuem para o enriquecimento do vocabulário coletivo com palavras tão bonitas quanto "xaroca" (já há uma música; não precisam agradecer) são dois belos exemplos da iminência do fim dos tempos, mas não superam isto: Mad Max: Fury Road está na corrida aos Óscares da Academia na categoria de melhor filme. Carol não. [Pausa para chorar pela humanidade]. 


Carol é, de longe, o meu filme favorito de 2015. Vi-o uma semana antes de Room e adiei escrever a minha opinião porque queria, primeiro, perceber se tinha sido só uma boa experiência cinematográfica ou um filme daqueles que ficam. Ficou. É um filme terno, intimista, que nos convida a reparar em e interpretar cada elemento. É um filme humano que, pela sensibilidade que esteve certamente presente em cada etapa da sua conceção, faz aquilo que o 3D tenta sem sucesso fazer: colocar-nos dentro da ação e, com isso, criar empatia com as personagens, desde a jovem que dá por si apaixonada pela protagonista até ao marido vingativo. Apesar de pertencer à categoria de filmes LGBT (a propósito - Carol foi tudo o que tinha esperado de La Vie d'Àdele, que não me conseguiu prender), o filme é em primeiro lugar uma história de amor. Não é fácil, numa sociedade tão marcada pelas divisões entre feminino e masculino, que uma forma de arte consiga suspender o género e mostrar-nos não um homem e uma mulher, dois homens ou duas mulheres mas duas pessoas. Alcançar essa proeza num filme cujo argumento depende em parte das potenciais consequências legais, à época, da orientação afetiva da protagonista, parece-me um trabalho de mestre, e o mestre chama-se Todd Haynes.


A somar a todas as virtudes, Carol é ainda bonito. Além de ter sido gravado em 16mm para conseguir uma imagem de aspeto granulado que encaixa na perfeição com o tom do filme, os figurinos e cenários replicam na perfeição os anos cinquenta. Rooney Mara está encantadora e irrepreensível e a Cate Blanchett é a Cate Blanchett (que, de alguma forma, consegue estar cada vez mais linda). A deixa que usei no título surge por duas vezes no filme e traduz bem o que este me significa: numa era que exige cada vez mais ação, mais extremo, mas adrenalina no cinema, são filmes como Carol que parecem vir de outro sítio.



25 comentários

  1. Este está na lista desde que saiu. Quero mesmo vê-lo, e agora ainda mais!

    (E adorei o primeiro parágrafo ahah)

    Jiji

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  2. Já não me lembro a ultima vez que fui ao cinema, bem precisava!

    Beijo, bom fim de semana.
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  3. Desde que saiu que espero ve-lo, ainda n tive oportunidade...

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  4. Já vai para a minha lista:3

    Beijo,
    www.wordsofsophie.com

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  5. Ainda não vi, mas fiquei curiosa!
    beijinho.
    http://belezacemlimites.blogspot.pt/

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  6. Compreendo o teu desagrado por "Carol" não se encontrar na corrida a "Melhor Filme", de facto, é injusto. No entanto, discordo completamente com a tua afirmação sobre "Mad Max". Percebo que não seja, de todo, o teu tipo de filme, mas só porque não é do teu agrado não significa que seja automaticamente mau. Enfim, gostos pessoais são sempre subjectivos.

    É importante perceber que "Fury Road" vai além do típico filme de acção (nem sequer é o meu género de eleição, prefiro dramas). Numa indústria que continua a reduzir as mulheres a meras personagens secundárias ou totais clichés, colocando sempre o homem como figura central, ter uma mulher como personagem principal de um blockbuster é extremamente importante. Aliado ao realismo (devido ao uso mínimo de efeitos especiais) e uma fotografia e banda sonora fantástica, o Apocalipse aconteceria se "Mad Max" não fosse nomeado para o Óscar de "Melhor Filme".

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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    1. Já tínhamos falado sobre isto num post teu e a minha opinião é a mesma de então. Sou a última pessoa a achar que o que não é do meu agrado é automaticamente mau, faço sempre a separação entre o meu gosto pessoal e a qualidade do filme. Neste caso, acho sem reservas que estamos perante um mau filme. Em relação ao papel das mulheres, estou perfeitamente consciente do papel secundário a que são relegadas (já agora, se tiveres interesse numa interpretação ausência de Carol entre os nomeados, sugiro-te o ponto 4 deste artigo http://www.hitfix.com/news/5-myths-that-prevented-carol-from-getting-a-best-picture-nomination). Mas da mesma forma que não me senti na obrigação de votar Maria de Belém ou Marisa Matias para a Presidência da República por serem mulheres, também não tenho que apoiar um filme por quebrar barreiras de género, quando o considero um filme mau.

      O Óscar de melhor filme é atribuído pela sua qualidade geral. Não tenho nenhum problema com a nomeação de Fury Road em certas categorias mais técnicas, mas acho ridícula a nomeação para a categoria mais elevada. Muito poderia ser dito, mas fico-me pelos diálogos e cenas absolutamente "dumbed down" (lembro-me de uma cena especialmente medonha no início em que as mulheres escreveram na parede "We are not objects"... senti vergonha alheia por quem quer que tenha pensado que para passar uma ideia é preciso ser tão óbvio).

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  7. Este será o meu filme deste fim-de-semana! Já ouvi críticas muito boas sobre ele, estou ansiosa por ver e comprovar.

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  8. Este filme está espectacular!
    Beijinhos
    http://diaryofalittlebee.blogspot.pt/

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  9. Ainda não vi, mas já há algum tempo que ando curiosa =P

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  10. Este filme é absolutamente fabuloso e junto-me ao teu choque por não estar nomeado para melhor filme!

    Lena's Petals xx

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  11. Olha, gostei bastante da tua crítica :) Este está na minha lista de filmes a ver este ano, assim que conseguir vou dedicar-me a ele

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  12. Confesso que, mesmo tendo uma ideia da história por trás deste filme, não tinha grande curiosidade em vê-lo... até ler a tua crítica! Está excelente e deixou-me com a pulga atrás da orelha! Acho que ainda vou dar uma oportunidade a Carol!
    Beijinho*

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  13. estou tão indecisa entre ir ver este amanhã ou o quarto!!!! Agora fiquei ainda mais c vontade d ver este p saber como foi filmado. damn!

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  14. Fiquei cheia de vontade de ver o filme (:

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  15. Ainda não vi e queria tanto!!! Adorei ler a tua opinião.
    Beijinhos
    elisaumarapariganormal.blogspot.pt

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  16. Gostei muito de ler a tua opinião. Já estava bastante curiosa com este filme!
    xx, Ana

    The Insomniac Owl Blog

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