Q&A respostas: parte 1

Vocês não brincam com coisas sérias! Quando publiquei o post a pedir perguntas para o Q&A estava à espera de quatro ou cinco comentários, não um monte de perguntas interessantes, incluindo algumas para as quais não tenho resposta. Tantas que achei melhor dividir em duas partes, uma para hoje, a outra a sair na próxima semana. Aqui está a primeira:


O QUE QUERIAS SER QUANDO ERAS CRIANÇA?

- Em primeiro lugar, tenho que dizer que não gosto da questão "O que é quer queres ser quando fores grande?", porque reduz a pessoa ao emprego que tem e nós somos muito mais que trabalhadores. Quanto a mim, nunca tive grandes objetivos profissionais até começar a estudar Antropologia. Até ao 9º ano dizia querer ser biológa marinha, mas não era um grande sonho, era só o que gostava de dizer (em parte por sentir que tinha de ter uma resposta).


O QUE É QUE AMBICIONAS PARA O TEU FUTURO PROFISSIONAL?

- O meu principal objetivo a nível profissional é ter um emprego que não me faça pensar que estou desperdiçar tempo. Quando estudava, todas as horas dedicadas a ler um livro ou a fazer um trabalho eram horas ganhas, e sei que não consigo ter esse tipo de dedicação a um trabalho a que seja indiferente. A maioria diz que é a vida e apelida de calões aqueles que se queixam do mundo do trabalho tal como o conhecemos. Eu acho que não é a vida, é o sistema que nos controla e do qual custa tanto sair. A vida não tem que ser assim, e pagar para sobreviver é uma vergonha que nos foi imposta (mas não me perguntem como é que havemos de mudar isto, que também não sei).


ONDE ESCOLHIAS VIVER?

- Quando imagino o sítio ideal para viver, penso sempre em dois ambientes: uma grande cidade ou uma ilha tropical habitada, como uma das ilhas do Hawaii. Gosto tanto do ambiente de cidade - a confusão, a azáfama, a disponibilidade e variedade  de tudo, as pessoas com diferentes estilos, o multiculturalismo, etc. -  que esta será sempre a minha primeira resposta. Não suporto cidades pequenas, vilas ou aldeias (e posso dizê-lo porque vivo numa). Não gosto de campo, das montanhas nem de comunidades em que toda a gente se conhece, gosto do ambiente cosmopolita. Mas também me consigo imaginar como uma pessoa descontraída que vive nos trópicos, só usa chinelos e vestidos esvoaçantes, trabalha numa mercearia orgânica e passa o tempo livre na praia a comer bananas. É isso ou a cidade. 


QUAL O TEU GUILTY PLEASURE?

- Posso responder honestamente que não tenho. Já fui uma pseudo-intelectual que só fazia, via e lia coisas apropriadas, agora faço, vejo e leio o que quero sem me sentir culpada. Se quiser ler pela sexta vez o Harry Potter e a Ordem da Fénix, apesar de ter ali um livro da Virginia Woolf à espera, leio sem remorsos e sem receio de admitir.


O QUE FAZES QUANDO NÃO TENS NADA PARA FAZER? 

- Já foi mais comum não ter nada para fazer. Agora, entre a procura de emprego, o blog, o exercício físico, etc., é mais raro não conseguir manter-me ocupada. Mas quando não tenho mesmo nada - nem um episódio de uma série - é comum dar por mim a pesquisar no Google coisas absolutamente aleatórias, como "Did Johnny Cash die of heartbreak?" ou "Where did Hogwarts students bathe?". 


O QUE FAZES PARA TE MOTIVARES? 

- Aprendi que, no meu caso, estar à espera da motivação tem o efeito contrário: a tensão acumula-se, o momento passa e as coisas ficam por fazer, ou são feitas fora de tempo. A solução é começar, com ou sem motivação, e depois a inspiração aparece. 


QUAIS OS TEUS ESCRITORES FAVORITOS? 

- Vladimir Nabokov por ser um génio literário, do ponto de vista estilístico. Jane Austen por escrever livros felizes, Dostoievski por ser um excelente analista da natureza e condição humanas e os Irmãos Grimm por terem recolhido e consagrado em papel os contos populares europeus. 


QUE LIVRO MAIS GOSTASTE DE LER? 

- O Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago, Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez e Anna Karenina de Tolstoi. Perguntar pelos livros que mais gostei de ler é diferente de perguntar pelos meus livros favoritos: os primeiros são uma leitura prazeirosa, os últimos não necessariamente.  Estes são os três livros que mais gostei de ler pela imersão na história que proporcionam. Se tivesse que escolher um, seria Cem Anos de Solidão, por ser uma experiência quase mágica. 


ACREDITAS QUE OS OPOSTOS SE ATRAEM?  

- Não. Acredito que muitas pessoas entram em relações sem procurar conhecer o outro, e depois quando descobrem as diferenças criam histórias sobre o amor que vence tudo, que funcionam até a relação inevitavelmente falhar. Falo, aqui, sobre valores fundamentais. Em questões mundanas, talvez as pequenas diferenças sejam até interessantes, como o balanço entre uma pessoa extrovertida e uma introvertida. Ainda assim, não acho que seja a diferença a despertar a atração. 


A FORMA COMO VÊS UMA VIDA A DOIS É DO GÉNERO "A MINHA CONTA? A MINHA CASA? O MEU CARRO? A MINHA VIDA?". OU "A NOSSA CONTA, O NOSSO CARRO, A NOSSA VIDA?" 

- O amor romântico é o sentimento mais intenso que consigo sentir. Será diferente para outras pessoas, mas para mim é aí que reside a verdadeira felicidade. Mesmo sem ter partilhado a vida com alguém, é bastante óbvio para mim que, por exemplo, nunca aceitaria uma oportunidade de trabalho que implicasse distância da pessoa que amasse. Para mim seria um não-assunto, nem me sentiria dividida entre duas escolhas porque abdicar da proximidade com a pessoa mais importante da minha vida seria uma fonte de infelicidade que me impediria de desfrutar do resto. No entanto, sei também que o amor romântico é o mais volátil. A base do amor é egoísta: aquela pessoa quer estar comigo porque gosta de mim e vê em estar comigo o meio da sua satisfação pessoal. Da mesma forma, o fim de uma relação também é egoísta: em circunstâncias normais, acaba porque uma pessoa deixa de gostar da outra, e não somos nós que decidimos quando é que começamos a ser tudo para uma pessoa e quando é que passamos a ser nada. Por esta razão, acho importante que cada pessoa se esforce por manter pelo menos uma dimensão de si que é só sua, algum tipo de individualidade que esteja lá se a relação terminar. Portanto, "a nossa vida" mas sem esquecer que a única pessoa com quem sei que posso contar incondicionalmente sou eu própria.  



37 comentários

  1. Gostei muito de te ler, Nádia. Equilibradinha e com os pés na terra, mas permites-te sonhar - e isso é tão bom!

    A questão do trabalho realmente é importante...há dias melhores e dias piores, mas realmente não consigo imaginar o que é fazer algo de que não se gosta mesmo, parece tortura!

    E concordo com a tua visão sobre a última pergunta. Formar um duo, mas manter a individualidade, acho que o segredo está aí - fundir duas personalidades nunca dá bom resultado!

    Jiji

    ResponderEliminar
  2. Adoro a forma como abordas as questões! Dá para notar que tens uma personalidade muito própria!
    beijinhos
    https://cocojeans.blogspot.pt

    ResponderEliminar
  3. Como se diz em americano, é refreshing ler as tuas respostas, vê-se que ainda andas entre o mundo das nuvens e o mundo real. Ainda não te desiludiste a sério e isso é maravilhoso. Eu queria ser veterinária e cabeleireira e secretária e professora em criança. hehehehehe. Tal como tu, adorava a cidade e agora se pudesse ir pro meio do mato viver ia, na boa. Achas que uma pessoa tímida e outra extrovertida é uma pequena diferença? Acredita em mim, não é. Até alguma diferença de idades é uma grande diferença, na maneira de pensar, de ver a vida e de a viver. Mas numa coisa concordo completamente contigo: devemos sempre manter a nossa individualidade, porque no fim a única pessoa que temos connosco, somos nós próprios. Beijinho ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada :) Oh, já me desiludi a sério. Sei é lidar com isso de maneira que não me retire, mas acrescente.

      Eu disse uma pessoa introvertida e outra extrovertida, uma pessoa introvertida não é necessariamente tímida. Mas sim, pode ser uma grande diferença. Eu falei a partir do meu ponto de vista: para mim o fundamental são os valores partilhados, mas para outras pessoas outras diferenças podem ser as mais relevantes.

      Eliminar
    2. Esqueci-me de assinar:Natalia

      Eliminar
  4. Gosto mais d' "O Amor nos tempos da colera" do Garcia Marques. Por mais que me esforce nao
    consigo gostar do Saramago.
    Para mim,o ideal seria mesmo "a nossa vida",mas sei q isso nao e possivel.
    Concordo inteiramente contigo quando dizes q as pessoas criam historias q o amor vence tudo. Claro q nao e assim. O amor nao vence nada. As vezes so atrapalha! Se soubesse o q sei hoje,juro q tinha feito um casamento conveniente e acho q seria bem feliz. Conheço dois casos desses q me sao bem proximos e a vida corre-lhes muito bem!Mas nunca tive feitio para isso😍

    ResponderEliminar
  5. Gostei imenso das perguntas e das respostas! Querias ser bióloga, que engraçado. Mas aposto que o teu curso é muito, muito interessante! =)
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  6. Adorei! Dá para conhecer mais um pouquinho sobre ti :)
    Beijinho,
    http://bloguerosapt.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  7. Oh Nádia, adorei ler este post! Quase que estava à espera de um "o que é que dizem os teus olhos?" no final!
    Ler-te sobre o teu percurso académico e expectativas profissionais é tão inspirador. Porque é raro e dá que pensar. Eu sinto-me feliz com a minha vida mas de uma forma tão diferente da tua!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ahah, isso é que não! Abomino essas entrevistas lamechas :P

      Eliminar
  8. Gostei, sobretudo, da última frase.
    Acho que, pela vida fora, vamos percebendo isso, nem sempre da melhor maneira. Há um momento em que, por muito bem acompanhados que estejamos, percebemos que estamos sós. Por isso é bom estarmos preparados. :/

    ResponderEliminar
  9. Yay, as respostas! Querias ser bióloga marinha, que engraçado :) Quando era pequena também andei um tempo com a panca de que queria trabalhar com golfinhos, por causa de um daqueles passeios de barco que se fazem no Sado... Eu não consigo gostar do Lolita, faz-me imensa impressão a história :P E do Dostoievsky ainda não li nada, espero emendar isso para breve

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olha, o meu primeiro contacto com o Lolita foi através do filme (a versão do Adrian Lyne): tinha 16 anos, estava meio a dormir no sofá da sala e apanhei o filme a metade. Não percebi nada daquilo, e foi o primeiro filme que me dificultou o sono (o outro foi o Vertigo). Eu acho o livro um monumento por muitas razões diferentes, mas o que acho realmente interessante é a discrepância entre a Lolita literária -uma menina de doze anos vítima de abuso sexual- e a imagem da Lolita na cultura popular: uma adolescente sexualmente precoce, quase uma prostituta. A apropriação de Lolita na cultura popular é o exemplo acabado da rape culture.

      Eliminar
  10. Gostei das respostas! E também adorei ler o cem anos de solidão. E estou a ganahr coragem para ler o Anna Karenina, que já tenho em casa mais ainda não peguei para ler.

    ResponderEliminar
  11. Adoro este tipo de posts.
    Há um ano que ano a ler o Cem Anos de Solidão. Acreditas que me dá pesadelos???

    ResponderEliminar
  12. Descobri este blog, gostei, comecei a seguir e já tinha decidido que ia comentar. Mas quando li este artigo... fiquei parvo!
    Primeiro fiquei logo a sorrir porque referiste o Nabokov, uma boa surpresa. Depois o Dostoievski, que é o meu escritor favorito. Fiquei a pensar o que podia faltar. Ainda me brindaste com Cem Anos de Solidão e Anna Karenina. 4 dos meus autores favoritos, escritores dos meus livros favoritos.

    Beijinho,
    Rui
    www.ruideviagem.com

    ResponderEliminar
  13. Gostei imenso de conhecer, pois acabei de conhecer o teu blog :)

    Bejinhos,
    www.wordsofsophie.com

    ResponderEliminar
  14. Engraçado que li o Cem Anos de Solidão quando devia ter uns 12 ou 13 anos e na altura não compreendi o quão importante era esta obra literária, ao ponto de eu nunca ter associado as duas coisas. Uma vez estavam a falar do livro e de determinadas cenas, e a falar da grandeza que era o escritor, e eu de repente percebi que tinha já tinha lido o livro. Já li muitos livros em toda a minha vida, muitos já esqueci. E e engraçado como até hoje, 10 anos depois, eu me consigo lembrar de várias passagens. E sim, se tivesse de escolher, provavelmente diria que foi o melhor livro que li até hoje.

    porondeandaasofia.blogpost.com

    ResponderEliminar
  15. Adorei as tuas respostas e gostei imenso do Cem anos de Solidão :)
    THE PINK ELEPHANT SHOE | FACEBOOK | INSTAGRAM |

    ResponderEliminar
  16. Gostei de ler (=

    Concordo contigo a 500% quando falas das "oportunidades" de trabalho que há em Portugal e das respectivas condições... ninguém se devia sujeitar a isso. Tenho um ódio profundo a estágios profissionais e recibos verdes, assim como a horas extra que ficam por pagar e férias que nunca são gozadas, tudo em troca duma miséria à qual nem se pode chamar salário, que às vezes nem chega para pagar as contas. E o pior é que não se vê saída para isso

    ResponderEliminar
  17. Cada vez acredito mais que não é o nome a única coisa que nos aproxima.
    Gostei muito de ler a forma equilibrada e fora da caixa como vês a vida, revejo-me muito.
    O Fiódor e o Vladimir são amor! Noites Brancas comove-me a cada leitura.
    Fico à espera pela segunda parte ;)

    ResponderEliminar
  18. Acho-te uma pessoa tão interessante - e esta publicação só me veio confirmar, mais uma vez, que estou correta!
    Beijinho*

    ResponderEliminar
  19. adorei todas as tuas respostas nádia, especialmente a ultima. Realmente puseste me a pensar, apesar de o amor ser aquele sentimento que me faz agir sem pensar nas consequências é tão imprevisível e por muito triste que fique ao dizer isto, não podemos depositar todo o controlo da nossa vida numa outra pessoa
    otimo post :)
    beijinhos

    http://umacolherdearroz.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  20. Li o 'Cem anos de solidão' há uns anos, na altura acho que não o 'saboreei' como deveria, por isso, quero mesmo voltar a lê-lo, agora com outro olhar e outra maturidade. Fico à espera da segunda parte, onde estarão as minhas questões :) E, tal como já suspeitava, és uma pessoa super interessante, acho que seríamos boas amigas eheh :)

    ResponderEliminar
  21. Adorei conhecer o teu blog, é sempre bom conhecer novos espaços e saber mais sobre quem o escreve!

    Bjxxx

    Espero ver-te em
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

    ResponderEliminar
  22. Ando há anos para ler o "Cem anos de solidão". Como sei que tenho o livro em casa, não o quis comprar, mas nunca o descobri... Adoro qualquer coisa do Gabriel Garcia Márquez, por isso esse acho que não há-de ser excepção, e sempre me disseram que era o melhor. Se bem que, em relação ao "Amor em tempos de cólera"... não sei :P

    ResponderEliminar
  23. Gostei muito das respostas, sensatas, interessantes e demonstrativas de uma personalidade bem definida :)

    ResponderEliminar
  24. O Evangelho Segundo Jesus Cristo é um dos meus livros favoritos (e está no meu top 3 de Saramago). Acho-o belíssimo.

    Gosto tanto de ler as tuas respostas!

    ResponderEliminar
  25. Sou tão igual no que toca ao local onde escolheria viver!!
    By the way, adorei a tua resposta à última pergunta

    ResponderEliminar

© Kill Your Barbies. Design by Fearne.