Então não queres ter filhos, sua malvada?

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Nem sempre é fácil compreender o quanto as sociedades ocidentais mudaram - um mudar bom, progressista - num curto tempo histórico. Como não é esse o propósito deste texto, restrinjo a referência à delimitação geográfica do nosso país. Portugal viveu décadas de um regime opressivo, que manteve o povo pobre, reprimido e ignorante. Nas famílias camponesas, de que descendo, ter filhos não era uma opção - não só devido à desinformação sobre contraceção, mas porque surgia como parte do curso natural da vida. A obrigação da maternidade exercia um avultado peso sobre as mulheres, feitas cuidadoras primárias - e, não raras vezes, únicas cuidadoras das suas crianças. Rio ao ouvir que "antigamente" a responsabilidade do lar recaía sobre as mulheres porque estas não trabalhavam ao lembrar que, na minha família e remontando pelo menos até à minha trisavó, não existia isso de mulheres domésticas, mas sim mulheres que trabalhavam fora de casa e tinham ainda a responsabilidade unilateral de cuidar dos filhos e do lar. É comum, ao falar do "antigamente", pensar nos padrões da nobreza e burguesia, mas esta era a realidade do Portugal do povo, de camponeses e operários. Saltando para o presente é fácil sermos acometidas de um enorme alívio, e com boa razão: somos a geração com mais estudos, temos quantidades infindáveis de informação à nossa disposição (não subestimem o potencial da Internet nas pequenas revoluções sociais) e isto ajudou a derrubar conceções acerca do papel tradicional da mulher. Sabemos hoje que a palavra de um homem - seja marido, pai ou irmão - não vale mais que a nossa, sabemos que numa casa em que moram duas pessoas adultas ambas têm a mesma responsabilidade de cuidar e sabemos que parir e ser mãe é uma escolha e não uma obrigação. Infelizmente, e como a sociedade não processa estas mudanças com a rapidez desejável, tal não é óbvio para a toda a gente. 


Isto, no entanto, deveria ser evidente: a parentalidade é uma responsabilidade demasiado grande para ser outra coisa que não uma escolha. Ninguém diz a uma mulher em idade fértil, que esteja numa relação estável e que tenha os meios necessários, para ponderar bem antes de decidir ser mãe. Não lhe é exigida justificação para o seu intuito de ter filhos e não é avisada de que, a partir do momento em que os tem, será tarde demais para mudar de ideias. Já o contrário acontece regularmente às mulheres que admitem não ansiar pela maternidade. A máquina social empurra as mulheres na direção da maternidade - e empurra-as a todas de igual forma, sem consideração pelas suas vontades enquanto indivíduos. É tacitamente assumido que em toda a mulher habita o desejo de ser mãe. Os pais acham que os filhos têm o dever de lhes dar netos e até pessoas que pouco mais são que conhecidos de trato cordial se acham no direito de perguntar ao jovem casal quando chegam os meninos. Se não há casal, perguntam quando aparece um namorado. Se já há uma criança, perguntam quando vem a segunda. Colocamos esta pressão sobre as mulheres e mais tarde, quando alguma tem a coragem de admitir que se arrepende de ter tido filhos, é considerada uma pessoa monstruosa. Pois eu ouvi, de uma mãe de dois filhos adultos que, em podendo voltar atrás, não os teria tido. Não me pareceu monstruosa, pareceu-me uma mulher a quem a época não agraciou com poder de escolha. 


Como em tantas outras dimensões em que participam noções de feminilidade e papéis respetivos, esta é em primeira instância uma questão de mulheres. Afinal, até há algumas décadas, ser pai não alterava muito a vida de um homem - é certo que as despesas aumentavam e era reconhecida a presença de uma filha ou um filho com quem brincar e a quem disciplinar, mas, regra geral, não participavam ativamente nos cuidados do bebé e na educação da criança. Mesmo hoje, é raro ouvirmos que a paternidade é o cargo mais importante da vida de um homem e não os vemos questionados sobre as dinâmicas de coordenação da vida doméstica e o papel de pai com a profissão. Para as mulheres, especialmente as que alcançam algum sucesso ao nível profissional, esta pergunta é mil vezes repetida. É ensinado às mulheres que só um homem as completa (essa é parte da razão pela qual os machistas de plantão gostam de atirar às lésbicas a acusação paternalista de que lhes falta conhecer o homem certo, quando o inverso nunca é dito aos gays) e, mais tarde, que não são mulheres de verdade até terem um filho - dois, de preferência.


Não cabe a ninguém exigir explicações de quem não pretende ter filhos - pessoalmente, é o mesmo que pedirem-me que justifique porque é que não quero ser canalizadora ou cardiologista. Ainda assim, é-me possível responder a essas questões, assim como a esta: não quero ser canalizadora porque não aprecio trabalhos predominantemente físicos  e não quero ter filhos porque não tenho o desejo de ser mãe. De facto, não consigo imaginar nenhum cenário em que tal se me afigure verdadeiramente satisfatório - consigo apenas enumerar um conjunto de condições sob as quais não seria tão mau: se pudesse garantir um parto por cesariana, se o pai fosse tão participativo quanto eu nos cuidados da cria, se ficasse à partida estabelecido que não incluiríamos produtos de proveniência animal na alimentação da criança, se tivesse a certeza de que não seria confrontada com uma separação que me tornasse a principal cuidadora, com um pai presente dois fins de semana por mês, e se tivéssemos ambos um sistema de suporte que nos permitisse tirar folgas do rebento. Estão a ver a batelada de "ses?". É o mesmo que dizer que só quero ser cardiologista se nunca tiver que dar más notícias a um paciente, se tiver um horário das 9h às 17h desde início de carreira e se todos os enfermeiros giraços forem obrigados a chamar-me Khaleesi. Longe de ser realista, é próprio de uma pessoa que não tem real paixão pela profissão. Passa-se o mesmo com a maternidade: não é -nunca foi- uma profissão para todas, com a feliz diferença de que hoje podemos decidir se a queremos seguir. 


Não termino sem lembrar uma das respostas mais comuns de quem acha que procriar deveria ser o mais alto objetivo de vida de toda e qualquer mulher - "vais mudar de ideias". O problema não está em alterar ou manter a minha posição, está neste aviso, que passa por declaração sábia mas soa quase a ameaça velada ("vamos lá ver se não acabas por ter filhos!", seguido de um riso maléfico) e que traz implícita a insinuação de que mudar de ideias é, neste caso, uma coisa boa. Não é, porque decidir ter filhos não é inerentemente melhor que decidir não ter. Se mudar de ideias, significa tão-só que a escolha de ter filhos passou a ser melhor para mim.

70 comentários

  1. Palmas - again! Eu quero ter filhos, portanto a minha opinião não é parcial neste assunto. Quero, porque quero, um dia. Não já, mas quero. Posto isto, não acho que todas sintam o mesmo desejo que eu - caramba, se nós somos diferentes em tudo, porque não haveríamos de o ser nisto?! Quantos miúdos andam por aí "às três pancadas" porque são filhos de mães frustradas e que não sabem o que fazer com eles - e pais, também. Quantos miúdos nascem em condições deploráveis "porque faz parte"? E quantas mulheres são miseráveis - mesmo na nossa geração - porque têm os filhos unicamente a seu cuidado, porque educar os miúdos é trabalho das mães? Não nos enganemos: é normal que o estereótipo feminino, de sermos mais cuidadosas e cuidadoras de que os homens, e o nosso próprio instinto, nos leve a assumir um pouco mais de responsabilidade. Responsabilidade, não necessariamente trabalho. Mas somos humanos, não somos macacos (e até esses dividem as tarefas!).

    Acima de tudo, irrita-me que se queria obrigar qualquer mulher a querer ser Mãe. Se a vontade e instinto não estão lá, para quê forçar? Para haver mais uma mulher e uma criança infelizes no mundo? Até pode correr muito bem, mas também pode correr muito mal...

    PS: Adorei a referência ao "antigamente". Sinto exactamente o mesmo! Antigamente, qualquer família de classe média/baixa era cuidada pela mulher - todos, sem excepção - mas o homem é que "mandava". Não me venham com coisas, os homens trabalhavam muito, mas as mulheres trabalhavam mais.

    Jiji

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    1. Aliás, a própria noção da maternidade tal como a conhecemos - a glorificação do "instinto maternal", da mãe como partilhando de uma ligação especial com o bebé - não esteve sempre presente, começou a construir-se em meados do séc. XVIII. A dado ponto, as crianças eram consideradas como adultos em miniatura, não como como seres em desenvolvimento a quem é preciso tratar de forma especial. Pela minha parte, tenho zero personalidade de cuidadora, e seria imensamente infeliz numa relação tradicional que me encarregasse do lar e do cuidado de crianças. Com um parceiro feminista, a coisa seria mais fácil, mas lá está - seria só melhorar uma situação desagradável.

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  2. As pessoas ficam confusas comigo quando digo-lhes que uma mulher tanto tem direito de ser mãe como tem direito de não ser mãe, precisamente por continuarem embriagadas nessa visão tradicional de que a mulher tem de ser obrigatoriamente mãe ou não é totalmente mulher. Isso é tão ridículo -.- Porque há-de uma mulher permanecer incompleta só porque não quer passar pela maternidade? Faz-me lembrar o que nos ensinavam na pré-adolescência, de que só seríamos mulheres quando nos crescesse o peito/nos surgisse a menarca - e nunca aceitei isso por ser idiotamente redutor.

    Assim como sou contra a pressão que fazem para a mulher ser mãe quando esta não quer também sou contra o oposto, e digo isto porque já reparei que há mulheres que colocam as mães de parte só por serem childfree. As mães, infelizmente, são muito discriminadas. Se está solteira é uma pobre coitada que quis carregar a cruz sozinha, se decidiu ficar em casa para cuidar do filho é uma preguiçosa oportunista, se decidiu trabalhar não quer saber do filho, como tem um filho já não merece mais ter uma vida social, se amamenta é uma porca exibicionista, se prefere biberão é uma nova-rica armada em fútil, {lista que nunca mais termina}. Acaba por ser irónico a sociedade chatear tanto a mulher para ser mãe e, quando esta é mãe, ser igualmente bombardeada e criticada.

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    1. E ainda há outra coisa que não quis misturar neste texto mas que decerto percebes: o que é isso de ser mulher? Tenho órgãos reprodutivos femininos, sim, mas não acho que a feminilidade seja algo inerente, constrói-se. Muito pouco do que sou depende do sexo biológico com que nasci ou do peso do género que adquiri em sociedade.

      Percebo e concordo com o que dizes no segundo parágrafo. Aliás, a sociedade diz às mulheres que têm que ser mães, mas até para isso há regras: é preferível que estejam numa relação heterossexual; se estiverem solteiras ou numa relação lésbica ninguém se interessa muito. E depois, claro, há a estranheza e a pena quando uma mulher decide ser mãe solteira, mesmo quando para a própria pessoa é a concretização do seu maior desejo.

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  3. Bato palmos e identifico totalmente nos assuntos que abordas neste texto.Tenho tentado explicar que nem todos temos de seguir os ditos padrões de sociedade mas infelizmente sinto-me num canto porque não sou compreendida!
    Não e não quero ter filhos! Não é para mim. Nunca o foi e pensei que com o avançar da idade poderia sentir o tal "apelo" mas ele não vem. Não vou ter filhos porque os outros o querem, isso não. Sou pressionada constantemente e vivo numa sociedade que parece que não me aceita.
    Gostei tanto de ler este post! Obrigada
    http://cocojeans.blogspot.pt

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  4. Eu no meu ver....sinto que as pessoas deviam ser livres para fazer as suas próprias escolhas, sejam elas quais forem!!!!

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  5. Concordo plenamente com o que dizes. Acho ridículo a pressão que é feita sobre as mulheres (e homens, também) que não querem ter filhos. Se não querem, se acham que não têm o que é preciso para serem pais, porque é que hão-de ir por esse caminho? É quase equivalente à pressão que fazem sobre as pessoas solteiras. A partir de certa idade, se não tiveres um relacionamento, vais ser olhada como a pobrezinha que não consegue arranjar ninguém. Nunca lhes ocorre que talvez estás assim porque queres. Não somos um bando de ovelhinhas, que têm que seguir todas o mesmo caminho. *

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  6. Adorei o teu texto (como sempre).
    Este assunto é bastante pertinente e tocas ali em pontos que sinto na pele quase diariamente.
    Assumo sem qualquer problema que ter filhos não é coisa que me assista.
    Atenção, eu sou professora e as crianças são o meu dia a dia, mas nunca senti o apelo da maternidade.
    Como alguém já comentou acima, sinto-me posta de parte, no meu circulo de "amigas" precisamente por não seguir a "carneiragem" que é a sociedade.
    Não vou estar com alguém só porque já não caminho para nova e entreanto fico sozinha no mundo, não vou ter filhos só porque as outras também têm.
    Isso não é para mim! Isso não me faz feliz!
    Gostava era que a sociedade aceitasse que isto de querer ou não ter filhos, é uma opção como outra qualquer!

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  7. Cada um sabe o que fazer à sua vida! Acho que a nossa geração tem mais consciência no que toca a filhos. Por exemplo, eu quero ter filhos, não já, porque só agora comecei uma vida a dois, mas se calhar se tivesse iniciado esta vida há dois anos, se calhar aos 25 anos (que irei fazer este ano), já estaria a pensar ter um filho. Porque acho que aos 25 anos já temos maturidade e se tivermos estabilidade e vontade porque não? Se calhar lá para os 27 anos, pense mais no assunto, mas é ao nosso tempo, não ao tempo dos outros.
    Claro que às vezes me faz confusão, pessoas mais novas que eu que casam, e em 2 meses engravidam (eu conheço um caso assim, e a mulher tem 20 anos), mas é o seu projecto de vida, só temos de respeitar!
    Beijinho

    www.bloguerosa.com

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    1. A mim não me faz sequer confusão que alguém seja mãe aos dezoito anos - todas temos interesses, percursos e objetivos de vida diferentes. Agora impor a maternidade como a mais alta realização da vida de qualquer mulher, tenham lá paciência.

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  8. hoje em dia as pessoas que não têm filhos são vista como egoístas e anormais ahahah

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  9. Engraçado que acabamos as duas a falar mais ou menos do mesmo no mesmo dia xD para mim ser mãe é sem dúvida uma opção. Até bem pouco nem eu própria sabia se queria realmente ser mãe; tenho amigas que estão prestes a ser e outras a pensar em ter filhos no próximo ano; e tenho uma que simplesmente não quer ser mãe. Quanto a mim eu sei que quero eventualmente vir a ter filhos e consequentemente a ser mãe, mas por enquanto não sinto que me falte rigorosamente nada na minha vida a dois e é isso que me incomoda: que de uma forma indirecta mas directa as pessoas em geral insinuem que um casal sem filhos é um casal menos completo do que outro que já tenha filhos.
    Tu não queres ser mãe: é uma opção tua e que tem de ser respeitada. Ponto.

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  10. Os homens também têm alguma pressão, menos que as mulheres bem sei, e alguns olhares de pena/desprezo quando dizem abertamente que não querem filhos. Já levei com todas as questões que referes no texto e, mesmo passados anos de dizer a mesma coisa, não me levam muito a sério.

    Há gente estupidamente irresponsável a ter filhos, acham que é quase uma brincadeira, parece um capricho e acho que não têm a noção do que implica criar e educar uma pessoa.

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  11. A minha mãe conta-me como a sogra fazia um choradinho a perguntar se eles não lhe iam dar netos ou se não queriam ter filhos. Isto porque os meus pais sempre moraram e estudaram em cidades diferentes e ao acabarem os cursos só queriam casar e passar finalmente a partilhar o dia-a-dia um com o outro, só os dois. 3 anos depois lá cheguei eu, mas foi porque o quiseram e não pela pressão.
    Com 22 anos não me sinto minimamente preparada ou com vontade de ser mãe. Tenho a certeza que quero ir viver com o meu namorado quando acabar o curso e a única coisa de que quero mesmo cuidar é de um cãozinho ou cadelinha! Mas uns anos depois também não digo que não a ter uns bebés porque quero passar os nossos valores a alguém e acho que é um tipo de amor especial.
    Mas se só pudesse escolher ter animais ou filhos, acho que ganhariam os patudos :p

    E claro, acho uma injustiça trazer alguém ao mundo sem que ninguém o queira e ame verdadeiramente. Educar é um trabalho e uma responsabilidade do caraças e é preciso trabalhar por gosto, como referiste, senão tem tudo para não correr bem.

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  12. Não podia estar mais de acordo! Pessoalmente, e como também já escrevi no blog, ser mãe sempre fez parte dos meus planos de vida. Não digo que o queria agora mesmo, já-já, mas desejo-o para um futuro relativamente próximo. Contudo, esta questão é puramente pessoal. Sempre quis ter filhos, sempre achei que a minha vida será mais completa se assumir esse papel e é assim que me imagino no futuro. Mas percebo que é uma decisão minha, unicamente. Ninguém tem que me impor nada (apesar de, obviamente, o tentarem fazer). Nem a mim, nem a ninguém. A vida é de cada um e cabe a cada um escolher o que melhor faz sentido para si. Felizmente, longe vão os tempos em que as mulheres eram simplesmente parideiras e que tinham que aceitar que era esse o seu destino (porque tinha que ser, porque não o sabiam controlar, porque eram obrigadas, etc). Felizmente, a maternidade/paternidade é uma escolha nos dias que correm!

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  13. Cada uma tem direito às suas escolhas sem ser questionada por isso. Eu respeito tanto as que querem ter filhos como as que nem sequer pensam na maternidade. E acho que assim deve ser :)

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  14. Eu gosto muito dos meus filhos, apesar de ter sido mae demasiado cedo, acho que acrescentam mais à minha vida que até então apercebi-me de que não tinha. Por exemplo, ter alguém que olhe para mim com imenso amor, que me ouça mesmo quando é pra repreender, basicamente os meus filhos tornaram-se numa presença na minha vida no meio de tanta ausência mesmo tendo 2 pais, mas é como se nunca os tivesse tido.
    Mas fora isso tudo, esse amor incondicional, se fosse hoje não os tinha tido, teria adiado ou simplesmente não os tinha tido. E isto não é ser ingrata com a vida por ter a sorte de ser fértil ou ser monstruosa porque coitadinhos dos meninos são tão fofinhos. Pois, por trás de tanta fofice existe uma mulher que se anulou durante 5 anos, o tempo de vida do mais velho, pra cuidar dele e da casa, abdiquei dos meus sonhos, daquilo que eu era só para ser o melhor pra ele. Eu pensava que 2 a fazer equivale a 2 a cuidar e a educar, mas enganei-me e quando me enganei já era tarde demais, já tinha percebido que iria ter que cuidar não de 1 mas sim de 2 crianças. A coisa correu mal até ter tentado partilhar a felicidade com outra pessoa, veio outro bebe, o mais novo, e de repente levo uma bofetada do tamanho de um camião ao descobrir que afinal a pessoa que eu achava que existia não era real, além de sociopata era um bêbado e um drogado e eu nunca tinha dado por isso! Resumindo, mandei-o à merda e fiquei eu com o filho dos nossos sonhos na mão pra eu criar e educar.
    Portanto, ser mãe é uma escolha, deverá ser sempre mas da mulher. Não sou feminista mas penso que no toca a filhos é a mulher que tem a ultima palavra porque o corpo é seu e, infelizmente, nesta merda de mundo continua a ser a mulher a responsável pelo sucesso das crias, acredito que 90% dos pais são só plateia e acredita, pela minha experiência não estou muito longe da verdade.
    Eu digo muitas vezes a amigas minhas "pensa bem no que te vais meter, olha que depois já não há volta" e elas ficam a pensar se tou a falar a sério ou se sou parva, espero sinceramente que elas não se arrependam depois e me dêem razão.
    Por isso, concordo contigo. Os filhos são giros mas é vistos no colo e na casa dos outros, na nossa não é bem assim.

    Beijinho
    www.blogasbolinhasamarelas.blogspot.pt

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    1. Gostei muito de ler o teu testemunho.
      A experiência que relatas com as tuas relações é, infelizmente, bastante comum. Eu acho que o amor romântico origina o tipo mais frágil de relacionamento interpessoal. Uma relação aparentemente forte pode deixar de existir numa questão de dias, por isso não acho sensato basear a decisão de ter filhos exclusivamente no projeto a dois. Penso que antes de partir para a parentalidade, cada pessoa deveria perguntar a si própria se teria o mesmo desejo caso estivesse sozinha. Não podemos fazer depender esta decisão da relação que temos com uma pessoa que, daqui a um ano, pode não estar lá.

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    2. Gostei imenso da sua visão e experiência, mas admito que torci um pouco o nariz com o último parágrafo.
      "Não sou feminista mas penso que no toca a filhos é a mulher que tem a ultima palavra porque o corpo é seu" - não percebo a associação entre o ser feminista, que visa a igualdade entre géneros, com o resto da frase.

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  15. Gostei muito de ler Nádia! No meu caso é o facto de toda a gente á minha volta já ter tido e eu ainda não...e há aquela pressão em cada pergunta e comentário.
    Beijinho
    elisaumarapariganormal.blogspot.pt

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  16. Adoro as tuas palavras! brilhante
    bejinho, Sofia

    http://live-to-sparkle.blogspot.com

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  17. Epá, gosto tanto deste blog. Dá-me mesmo prazer vir aqui e ler estas coisas, é bom saber que ainda há quem use a cabeça e a razão.
    Eu não sei se um dia quero ter filhos, não faço a mínima ideia. Agora certamente não os quero ter, mas não consigo sequer imaginar como será a minha vida aos 30. As ideias e as pessoas mudam, portanto, eu não consigo responder a essa questão.
    Depois claro, há aqueles que me olham de lado quando digo que não sei se quero ter filhos, como se fosse algum crime. Acho que já estava na altura de todos estes estigmas sociais desaparecerem, para dar lugar à liberdade de escolha da mulher, quer neste assunto quer em tantos outros!


    É só mais um blog

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    1. Aww, Soraia, que elogio tão bonito.
      Olha, eu tenho alguma fé nas pessoas e acho que muitas apenas reproduzem o que aprenderam, sem terem sequer pensado no assunto. Da próxima vez que alguém te julgar por não saberes se queres ter filhos, tentar explicar-lhes que, lá porque és mulher, não significa que tenhas necessariamente que ser mãe. Algumas pessoas passam a perceber :)

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  18. Cada um sabe de si e Deus sabe de todos.

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  19. Mais uma vez, não podia estar mais de acordo. Não com o não querer ser mãe, porque quero, mas com a afirmação convicta que todas as mulheres têm o poder e decisão de dizer não.
    Conheço muitas mães, de muitos tipos e não há nada mais triste do que ser mãe apenas por imposição, porque era esperado que o fosse.
    Eu quero ser mãe porque acho que a coisa mais fascinante na vida é alcançar um tipo de amor que só (acredito) um filho consegue retirar de nós. Quero educar pequenos humanos para serem grandes pessoas, quero vê-los crescer.
    Mas há mulheres que simplesmente não querem, porque se conhecem e ninguém melhor que elas saberá o que é melhor.

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  20. Subscrevo cada palavra deste teu texto. Durante alguns anos sempre disse que não me imaginava a ser mãe. Para dizer a verdade, ainda não me imagino, pelo simples facto de me considerar, ainda, demasiado egoísta, incapaz de cuidar de mim sempre bem, quanto mais de um ser pequenino e totalmente dependente de mim. Acho que a questão é mesmo essa, no meu caso, o facto de me fazer confusão a dependência de alguém em relação a mim. No entanto, posso vir a mudar de ideias, é uma questão em aberto. Mas é uma decisão que considero minha. E é aqui que entra a PMA. Pode não ter nada a ver, mas tem tudo a ver. Sou defensora de que todas as mulheres deveriam ter acesso à PMA. E nada tem que ver com as mulheres homossexuais, tem que ver com todas as mulheres que não querem ter um companheiro/a mas que querem ser mães. Porquê privá-las desse desejo se já é possível fazê-lo com recurso à medicina? Pronto, agora podem vir todos os moralistas e defensores das famílias 'tradicionais' em cima de mim que eu não me importo!

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    1. A lei da PMA já foi aprovada no mês passado, Catarina! Já qualquer mulher - solteira, casada, numa relação hetero ou homossexual - pode recorrer à procriação medicamente assistida. Yey!
      http://expresso.sapo.pt/politica/2016-04-21-Nova-lei-da-PMA-aprovada-pela-esquerda

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  21. Gostei muito da maneira como colocaste o assunto!

    A reprodução é um acto biológico e tão enraizado nas várias sociedades que as pessoas ainda têm dificuldade em conceber a mulher como um ser individual e com vontades próprias que vão além da maternidade e que podem ser incompatíveis com a mesma.

    Também não gosto das pressões externas quanto ao "Já tens namorado? Quando casas? Então e um bebé?", acho que deve ser uma escolha tanto individual quanto relacional e ninguém tem nada a ver com o que decidimos fazer com o nosso corpo e com a nossa vida. São quase contrastes, mas a minha opinião quanto a isto é exactamente a mesma que tenho acerca do aborto. Acho que cada um deve tomar as suas decisões consoante as circunstâncias da vida em que se encontra, os seus objectivos e as suas crenças e que as crenças, vontades e pressões alheias não devem intervir!

    É muito fácil dizer que se devia ter filhos quando não somos nós que os vamos criar, da mesma maneira que é muito fácil dizer que abortar é matar um ser, quando não é a nossa vida que a maternidade vai condicionar e os nossos objectivos que deixam de ser viáveis porque há uma criança a caminho.

    Mas não me admiro, não condeno os pais que se arrependem de ter filhos. Nunca é, nem nunca há-de ser bem aquilo que se esperava na altura em que se decidiu tê-los, propositadamente ou não, com ou sem pressões. Da mesma maneira que acho que um pai ou uma mãe não amam menos os seus filhos apenas porque se pudessem voltar atrás não os teriam tido. É tudo muito complexo e cada caso é um caso.

    Pessoalmente eu gostava de um dia ser mãe.
    Não agora, nem sei se algum dia vou querer ao ponto de ser a minha primeira prioridade, mas gostava de ter filhos. Mas antes disso ainda quero fazer muita coisa que não posso fazer se tiver uma criança para educar!

    Beijinhos!

    Carolina
    ENJOY by C. | Facebook | Instagram

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    1. A real questão está precisamente no que referes: a falha em ver a mulher como um indivíduo acabado, que não carece de um homem ou de filhos para se completar, e a tendência relacionada para considerar que uma mulher que não é mãe é infeliz e frustrada. Eu seria frustrada se tivesse filhos, porque ia sentir-me presa numa vida que não é a minha.

      Na verdade eu não me sinto pressionada em nenhum sentido, porque as pessoas que me rodeiam aprenderam cedo que não faço nada só por ser o socialmente expectável. Às vezes lá vem a pergunta sobre se tenho namorado, mas respondo com um "não tenho paciência" (que é verdade, quanto mais tempo passo solteira mais feliz me sinto sem os dramas, as inquietações e as cedências presentes em qualquer relação) e o caso fica arrumado.

      Em relação ao aborto, a minha opinião é a mesma - e felizmente que, em Portugal, qualquer mulher é livre para interromper uma gravidez indesejada. Não consigo sequer imaginar a angústia de alguém nessa situação que viva num país em que o aborto é ilegal. A criminalização do aborto é um ataque à dignidade das mulheres, a ausência de escolha entre manter ou interromper uma gravidez tem um caráter inerentemente punitivo da sexualidade feminina (por isso é que não é raro ouvir-se, por parte dos oponentes da livre escolha, coisas como "se não queria tivesse fechado as pernas, agora aguenta as consequências", e outros horrores machistas).

      Beijinhos =)

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  22. Eu gostava de ter filhos, mas não o considero essencial para poder ser feliz. Mas é engraçado ler isto, também sentia exactamente o que descreveste quando estava em Portugal. Mas, entretanto, mudei-me para França, onde as mulheres começam a parir aos 18 anos e com a minha idade não é nada raro já teres 2 ou 3 filhos. Quando digo a minha idade e que não tenho filhos, ficam todos escandalizados e tratam-me como se eu fosse uma infeliz e depois, claro, há a pergunta "mas porquê?". Para eles, ter filhos não é uma questão de escolhas, de prioridades. É simplesmente o que há de mais natural. Tão natural, que me sinto muito mais pressionada aqui a ter filhos do que me sentia em Portugal

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    1. Credo, Sofia, que medo! Será tão difícil perceber que mulher não é sinónimo de mãe?

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  23. Parabéns pelo texto (mais uma vez, excelente). Pessoalmente, um dia quero ser mãe, não porque considere que seja o mais alto cargo que a mulher pode obter, mas simplesmente porque quero - independentemente de todos os se's. Ou seja, mesmo que não encontre um parceiro para a coisa. Tenho um namorado e estou numa relação estável mas sou filha de pais separados e, apesar de nada traumatizada com a situação, nunca acreditei no amor eterno - e sempre aceitei bem este facto, sem dramas. Se um dia mais tarde quiser ser mãe e não tiver alguém do meu lado digno de ser pai do rebento, espero poder fazê-lo sozinha (isto para chegar à conclusão de que quero meesmo ser mãe, no matter what). Mas tal como acredito que tenho todo o direito de ser mãe tendo ou não alguém para partilhar a responsabilidade, tal como acredito que tenho o direito de ser mãe solteira se assim o decidir (e felizmente a lei já o permite, esperemos que assim continue), acredito que qualquer mulher tem a opção de escolher ser ou não ser mãe. Não vejo o acto de ter um filho como algo que determine a felicidade de uma mulher - determina a minha, não por ser mulher, mas porque sou eu. E apesar disto sinto a pressão que é colocada às mulheres, pois mesmo quando menciono que quero ser mãe "mas só pelos 30 e depois de atingir uma série de objectivos", não raras vezes me atiram com algum comentário do tipo "se eu tivesse todos esses objectivos antes de ter filhos, nunca tinha tido os meus". Como se fosse obrigação minha tê-los e tê-los "a tempo", em determinada altura, anulando-me e às minhas ambições em prole desse acto sagrado que é parir. Nós mulheres temos a maravilhosa capacidade de gerar vida mas essa capacidade não nos resume. E por isso há uma série de objectivos que quero atingir antes de ser mãe, quero sentir-me vagamente realizada antes de me dedicar aos filhos, porque creio que só assim poderei ser uma óptima mãe. Acima de tudo devíamos efectivamente querer tê-los, no momento em que sentimos que devemos - caso contrário vamos ser péssimas mães e para isso já chegam as muitas que andam por aí à solta.

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    1. Obrigada :)
      Acho que tens a posição mais saudável possível. Eu não sei se acredito no amor eterno, mas sei que, estatisticamente, temos mais probabilidades de enfrentar uma separação. Por isso acho que faz todo o sentido assentar a decisão da parentalidade sobre a vontade individual de cada um dos membros do casal e só depois no desejo de conceber/educar uma criança em conjunto. Assim sabes que, caso a relação falhe, não te vais arrepender da maternidade, porque era em primeiro lugar um objetivo teu.

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  24. Nem mais! Identifico-me totalmente, não é de todo "profissão" para mim. Apenas não me vejo a ser mãe. Adorei ler Nádia!
    beijinhos, The Fancy Cats

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  25. ter ou não ter filhos deve ser uma decisão de cada pessoa e só dela!
    Ninguém tem nada que «meter o bedelho», passo a expressão e fique a ideia...

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  26. Como em tudo, parece que a sociedade dita as regras e mesmo não querendo, as mulheres acabam por ter filhos porque assim deve ser, o que é mau para elas e para os filhos. Ainda bem que cada vez mais as mulheres escolhem e não têm receio das represálias da sociedade.

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  27. É, de todos os que tenho lido sobre esta temática, o texto mais completo! Opinião pessoal, é certo mas, ainda assim, vai de encontro ao que também penso e não poderia ter sido exposto de outra forma.

    PS: Parabéns pela tua capacidade de escrita fenomenal! Adoro imenso.

    Cátia ∫ Meraki

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  28. A mulher tem de ser mãe e magra! É um estereótipo! Não pode ser gorda porque isso significa desleixo. Não é verdade? Natália

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  29. Concordo tanto com o que disseste (só discordo da parte da cesariana, mas isso é só um pormenorzito). Eu digo-te que, na minha prática diária, vejo como algumas mães sentem o arrependimento de ter filhos, embora não o verbalizem por medo, por vergonha, por receio de serem julgadas. Seja porque dao muito trabalho, porque estão sempre dontes, seja porque o pai não está presente na vida diária.
    Por exemplo, tenho 22 anos e não tenho namorado. Não é porque não queira, é porque não encontrei ninguem com quem me identifique e não vou arranajr um qualquer só porque a sociedade assim o exige e eu sinto essa pressão, esse julgamento da minha pessoa, não deixo é que isso me afecte. Alias, se é das coisas que mais vejo, são mulheres infelizes com o seu relacionamento, mas que o mantém porque agora têm filhos e fica feio se separar, porque fica mais bonito estar casada e ignoram por completo a sua felicidade ou porque dependem financeiramente do marido.
    Às vezes dá me a sensação que as pessoas têm medo de ir atrás da sua felicidade.. seja ela casar e ter filhos, como não ter filhos e não casar.

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    1. Em também discordo da parte da cesariana, acho que a primeira escolha deve ser o parto normal. Mas eu também não iria querer amamentar, mesmo sabendo o quão importante é para o bebé. É essa uma das (muitas) razões que me levam a saber que ter filhos não é para mim.

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  30. Respeito perfeitamente quem assume a decisão de não ter filhos.
    Não respeito minimamente quem tem filhos por obrigação social e depois não os cuida.
    Boa semana

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  31. Cada individuo possui a sua personalidade e pensamentos, tento que respeitar todas as decisões dos outros :)

    Cada um é que sabe se irá experimentar ou não fazer a mascara :) Eu cá vou experimentar, não perco nada :)

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  32. Parabéns pelo artigo Nádia!
    Entrei no seu blog por mero acaso e a curiosidade levou-me a lê-lo, assim como todos os comentários subsequentes, pois sou apaixonada por opiniões, percepções e pontos de vista.
    Estou a caminho dos 41 anos e sou mãe de 2 meninos de quase 8 e 10 anos, que (não por opção própria) crio e educo totalmente sozinha, sem qualquer estrutura familiar de suporte.
    Fui mãe porque quis e quando quis, só depois dos 30, após 6 anos de casamento, e sim, ao fim do 1.º ano do mesmo, as pressões foram muitas, mas nunca me vi impulsionada a ceder a nenhuma delas. Fui mãe porque era o maior sonho da minha vida desde menina, e aquele que reunia todas as minhas certezas.
    Estive casada perto de 10 anos e ao fim desse tempo, como o mesmo já não me fazia feliz, resolvi terminá-lo. A partir daí, desde há 7 anos, pago o preço pela minha "liberdade", assumindo uma responsabilidade que abraço, mas que não deveria ser só minha...
    Concordo plenamente que a cada Ser Humano caiba o poder de decisão perante aquilo que sente ser o seu desejo, e que da mesma forma que eu quis ser mãe, haja quem não o queira, sendo que deveria ser intrínseco o direito de não se ver julgado/criticado/pressionado por isso.
    Mas para isso teríamos de viver em sociedades estruturadas em valores de respeito, e não de tolerância. De entreajuda, e não de subsistência. De igualdade, e não de supremacia. De sinergia, e não de competição...
    Amo os meus filhos profundamente, e eles são a principal motivação de forças para o meu dia-a-dia, mas se me perguntar se hoje faria a escolha de os ter, diria-lhe que não...
    E não julgo que esteja a ser egoísta, ou a amá-los menos, muito pelo contrário. Egoísta talvez tenha sido precisamente o meu desejo em tê-los, sem cogitar todas as variáveis a que estariam sujeitos, e ao Mundo a que os estava a trazer. Amor seria talvez não os ter!
    Só que a maior escola foi tê-los tido, e os "exames" são os desafios diários que se atravessa, e com os quais também muito aprendo. :)
    Resumindo, as pressões sociais, os julgamentos, são um reflexo da mentalidade do Certo x Errado. Só que isso não existe, pois o meu Certo, pode ser o Errado do outro, e vice-versa. Como tal, o respeito pela individualidade parece-me sempre o melhor caminho.
    Talvez desse respeito pudessem "nascer" verdadeiras estruturas de apoio às mães "sem vocação", às que têm vocação mas também têm sonhos que passam por outros vôos, e para aquelas que não queriam fazer mais nada a não ser cuidar das crias. E assim, já na utopia total, :P estruturas onde os homens pudessem aceitar e acolher o seu lado feminino (Yin/Yang), e assim contribuir com todo o seu potencial para o desenvolvimento dos seus filhos. Porque nós, mães, também temos de o fazer em relação ao nosso masculino para colmatar essa ausência...

    Beijinhos e Namastê _( <3 )_

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    1. É tão bom ler opiniões destas, tão ponderadas, próprias de quem vive pelos seus próprios valores e não por aquilo que nos tentam impor :) Beijinhos e obrigada pela partilha <3

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  33. Parabéns pelo texto Nádia!
    Eu sinto-me estranhamente dividida no assunto. Se há uns anos tinha a certeza que queria, hoje penso mais depressa que não os quero (talvez se deva ao facto de me ter apercebido do quão difícil é arranjar um emprego e dinheiro :p). Se há coisas em mim que me fazem pensar 'credo, nunca na vida' , que é o caso de parto normal ou amamentação por exemplo, fico sempre babada quando vejo bébés fofos e bem educadinhos. Portanto, não consigo dizer que sim a isso agora, mas no futuro é mesmo um 'nunca se sabe'.
    No entanto, não entendo esta obsessão por obrigar os outros a ter filhos. Epah, tenham vocês! A maternidade (e paternidade, na minha visão) tem de ser uma vocação, uma vontade intrínseca e não uma obrigação social. Ter filhos é uma responsabilidade enorme!
    Tudo isto me lembrou de um colega do meu namorado que ficou chocadissímo ao saber que uma colega deles não queria ter filhos e que nem ia mudar de ideias sobre o assunto. Atirou-lhe à cara que ela ia obrigar um homem qualquer a ter um futuro sem filhos por causa dela e quando ela respondeu que obviamente só ficaria com alguém que tivesse a mesma visão das coisas, ele recusou-se a aceitar e acreditar que outras pessoas pensassem assim. É de notar que este rapaz tem os seus 22/23 anos. Não consigo conceber esta mentalidade em alguém tão próximo da minha idade, mas a verdade é que existe!
    Acho que é algo tão enraizado que será difícil a mudança total da mentalidade. Mas aos poucos lá se chegará, baby steps baby steps :)

    P.S.: Devo dizer que quando falaste da parte em que 'antigamente' as mulheres cuidavam de um lar e das crianças tocou-me especialmente. Venho de famílias em que as mulheres sempre trabalharam e cuidaram do lar completamente sozinhas! Isso é um mito para mim, não existe mulheres que só cuidam da casa e dos filhos. E essas mulheres para mim tem todo o respeito do mundo.
    xx, Ana

    The Insomniac Owl Blog

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    1. Sou como tu, quando penso em parto normal ou amamentar fico sempre "no way, não quero, nunca na vida, se algum dia mudar de ideias arranjo um já feito".

      Fiquei chocada com esse relato! Mas as pessoas não pensam? Isso é tão, tão estranho, não consigo conceber como é que alguém pode achar que todas as pessoas sentem o apelo da parentalidade. E sabes, eu acho que os momentos de progresso (neste caso, o progresso é o poder de decisão, só isto) têm o contra-efeito de produzir reacionários, e por isso aparecem pessoas com essas posições tão exaltadas. Mas o caminho é em frente :)

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  34. Tu escreves tão bem Nádia!
    Apesar dos anos passarem e nos dizermos cada vez mais evoluídos e modernos, a verdade é que ainda vivemos numa sociedade de que julga o que é diferente, o que sai do que é tido como "normal". Mas tudo o que é uma escolha e, ainda para mais, tão inocente que não afecta mais ninguém, devia ser tido como normal e ser respeitada!
    nem mais nem menos | Facebook | Instagram

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    1. É verdade, a sociedade continua a manter certos bastiões de intolerância e ignorância, assuntos que despertam tantas paixões ao ponto de toldar o pensamento crítico. E é como dizes: é uma decisão que não afeta NINGUÉM.

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  35. GOstei muito do teu texto, como aliás gosto sempre...escreves muito bem e estruturas muito bem os teus textos e as tuas opiniões, tornando-se sempre de leitura fácil e agradável.
    Eu sou mãe há 4 anos mas entendo e respeito quem não quer ser. Para mim é uma decisão como outra qualquer mas, a verdade é que há sempre muita pressão social e se não tens filhos és logo rotulada de egoista.
    Acrescento ainda, que também eu não queria ser mãe mas, ainda bem que há 4 anos mudei de ideias, adoro o meu filho mas nem sempre é a coisa mais fácil, havendo até dias que acho que tenho saudades do tempo em que não tinha filho, mas depois relaxo e ainda bem que o meu baixinho está aqui porque é a melhor coisa que fiz até hoje :).
    Beijinhos grandes Nádia.

    misscokette.blogspot.pt

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    1. Obrigada :)
      Gosto de mães assim, que apesar de apreciarem a maternidade conseguem perceber que o que é o melhor do mundo para elas não é necessariamente para todas. Devia ser evidente, mas não.

      Beijinhos :)

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  36. ahhhhh sua malvada. Não queres ter filhos? Vou desistir de vir ao teu blog!!! :P hehe
    Finalmente fazes um post para eu escrever qualquer coisa... já estava a sentir falta disso. Preparada? Aqui vai:
    Ninguém tem que ser obrigada e ter filhos e muito menos moída todos os meses com perguntas "quando vais ter? é para quando? nunca mais?" ter filhos depende de cada pessoa ou então depende do casal. Aqui é necessário que os dois tenham o mesmo ponto de vista, caso contrário a probabilidade do relacionamento correr mal é grande. Namorar/casar com uma pessoa à espera que a outra mude...também é arriscado. Nunca faria isso.
    O Amor não está só no sentimento em si, mas também na partilha dos mesmos objectivos de vida, e para mim, ter filhos era obrigatório. Se gostasse de uma mulher e ela me dissesse que não queria ter filhos, a opção que iria tomar era mesmo acabar a relação.
    Respeito sempre as decisões das outras pessoa, e quem me conhece sabe perfeitamente que nunca pressiono as outras pessoas a fazer ou ser algo que não querem.
    Contudo acho que no mundo atual e está a minha opinião da qual irei ser crucificado :) a opção de muitas mulheres (não todas) de não ter filhos deve-se mais a um egoismo. E ser egoista neste aspecto não é um fator negativo, pois todos sabemos que ter filhos muda completamente a vida de uma pessoa, perde-se liberdade, perdem-se algumas viagens, perdem-se algumas amigos, perde-se tempo para cuidar de nós proprios e muitas não estão preparadas para essa nova fase. A juntar a isto tudo, o medo de terem uma pessoa ao seu lado que pode não vir ajudar, não dividir tarefas, o medo do divórcio e da separação, o problema de discussões na educação da criança potencia em muito o receio de uma mulher/homem em ter filhos.
    E olha, são as opiniões das pessoas que estão à minha volta, mas como sei que as opiniões dependem dos circulos em que estamos, já vais dizer que isso não é bem assim. Mas está descansada... eu respeito-te :P
    Beijinhos :)

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  37. A Nádia é uma mulher ainda muito jovem, e está a tirar conclusões precipitadas. Ela precisa de amadurecer - mais do que pregar ao mundo as suas ideias, sujeitas a mudanças - e depois reconhecerá o que é mais importante. Mulheres, por favor, pensem duas vezes antes de cometerem o maior erro: passar pela vida sem terem tido a experiência de serem mães!!

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    1. E o anónimo precisa de reler o texto, que é precisamente uma resposta a posturas tiranas como a que demonstra.

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    2. Ó Nádia, tu tens cá um mau feitio! Deixa lá o anónimo ser a favor da maternidade, é problema dele!
      Eu tenho uma filha e adoro-a, embora ela julgue que não porque estou sempre atenta ao que ela faz e dou-lhe conselhos que ela seguirá ou não!
      Mas acho que quem não quiser ter filhos, tudo bem! É uma escolha de cada um! Agora acho que também devemos aceitar quem quer ter filhos! Qual é o problema ?! Também não é preciso chamar tirano ao anónimo! Natália

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    3. Natália: não me chateia quem escolhe ter filhos (não entendeu isso pelo meu texto ou comentários?), chateia-me quem policia as escolhas dos outros, contribuindo para a pressão social que se abate sobre tantas mulheres. Pensei que isso tivesse ficado claro.

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  38. Excelente texto, Nádia. Como sempre, aliás. Mas este tema é especialmente sensível e fizeste uma análise brilhante. Como alguém comentou acima: o direito a uma mulher ter filhos é igual ao direito a não ter. É uma escolha e tem (deveria ser!) respeitada. É horrível a pressão social e familiar nesse sentido. Durante muito tempo achei que não queria ter filhos. E apesar de, neste momento não querer (nem a curto/médio prazo), admito que possa vir a mudar de opinião mais tarde. Ou então não, não sei. Seja como for, será sempre uma escolha pessoal.

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  39. Felizmente o paradigma está a mudar, mas é verdade que ainda se relaciona muito mais a mulher com a maternidade do que o homem com a paternidade. Em parte até que se justifica - a mulher é física e emocionalmente mais ligada às crianças por natureza. Mas isto tudo acaba por ser exacerbado num contexto social, ao ponto de se achar normal dizer, como se se constatasse o óbvio, que as mulheres é que têm de ter o papel predominante no que toca a criar os filhos.
    A questão de ser considerado monstruoso da parte de uma mulher com filhos dizer que se arrependeu de os ter já é um bocado diferente... Pessoalmente, acho que é uma coisa algo egoísta e bastante crua. Não necessariamente por o dizer, mas por chegar a esse ponto. Compreendo que, como dizes, haja pressões (falo das externas às pessoas, claro) que levam uma mulher a ter filhos mesmo que essa não seja necessariamente a sua vontade, mas é uma grande responsabilidade decidir tê-los sem medir consequências, e isto verifica-se com ou sem pressões. Será coragem dizer que se arrepende de ter filhos desafiando a sociedade ou cobardia em primeiro lugar tê-los por pressão desta? Põe as crianças numa situação muito chata, e isso tenderá até a refletir-se na própria educação (não será muito agradável ter uma mãe que se arrepende de ter engravidado), o que também não é justo... Isto, claro, não se aplica apenas à mãe, também ao pai. Por outro lado, confesso que me é estranha a hipótese de alguém dizer tal coisa, porque se de um ponto de vista racional é possível uma pessoa arrepender-se de 'desperdiçar' tanto tempo/oportunidades da sua vida ao ter filhos a parentalidade não assenta por norma em fundamentos propriamente racionais. Para alguém dizer tal coisa de uma criança que cria e tem como próxima deve ser preciso ter muita frustração acumulada, não sou capaz de imaginar...

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    1. No caso que referi, a pessoa não escolheu ter filhos - na altura, contexto social, cultural e económico, escolher não era uma possibilidade - era o que se fazia. Mas há outros casos que também compreendo. Repara que nem toda a gente reflete, nem toda a gente é introspetiva, há quem nem sinta a pressão social mas ao mesmo tempo nunca pensou se ter filhos é realmente um desejo seu. Há pessoas que vão vivendo sem pensar muito nas consequências dos seus atos e estão tão bem enquadradas na sociedade em que cresceram que não questionam nada... até ao momento em que algo corre mal, como a descoberta de que não gostam da parentalidade. Por isso não consigo julgar quem se arrepende de ter tido filhos, nem sequer acho estranho.

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  40. Bem, só hoje descobri o blog (por onde é que eu andei!) e estou a adorar. Sobre este tema não podia não me pronunciar, ainda que já tenha sido escrito há alguns dias. No meu caso não posso, biologicamente ter filhos. Gostava de os ter, biológicos e adoptados, o plano seria por esta mesma ordem, mas não me é possível, por isso serei mãe adoptiva e de coração. A sociedade também não está preparada para isso, embora eu não me iniba de dizer que não os posso ter. Há sempre conselhos e dicas e histórias de quem conseguiu passado anos, quando "acalmaram" e não compreendem sequer quando digo que o meu problema de saúde o impede de momento.
    Lido ainda com grupos mulheres com dificuldades em engravidar e, felizmente, muitas delas conseguem. E quando conseguem não raras vezes leio palavras como "finalmente sei o que é ser mulher" ou "só agora a vida me faz sentido", "agora sou completa" entre outras. Acredito que um filho mude muito a vida de cada um, claro que sim. Mas não sou menos mulher por não os ter. Nem sou menos feliz por isso, ou incompleta, nem vivo drama algum porque não os posso gerar na minha barriga. E isso fez-me ter outra perspectiva sobre a coisa, sobretudo depois de fazer tratamentos que não resultaram e de ter imensa gente à minha volta a tentar opinar sobre mais tratamentos. Não quero. O corpo é meu, cansei-me de injectar hormonas e esperanças, quando na verdade, adoptar é gerar um filho no coração.

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    1. Olá Bárbara! Obrigada pelo teu comentário :)
      É verdade, as pessoas que gostam de mandar esses bitaites para quem escolhe não ter filhos não pensam que quem quer mas não pode ter filhos biológicos pode ficar magoado com afirmações como "finalmente sei o que é ser mulher". É incompreensível, até porque ter ou não filhos, biológicos ou adoptados, por escolha ou incapacidade, não afeta a vida diretamente a vida de ninguém para além de quem os tem ou não.
      Espero que concretizes o teu desejo de ser mãe, da forma que decidires e que for melhor para ti :)

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  41. Adorei este teu texto Nádia, parabéns! Além de muito bem construído e fundamentado, não podia concordar mais.

    Infelizmente, há coisas que ainda custam muito a ser "aceites" pela sociedade e não se tratam só de pessoas mais velhas, eu tenho amigas da minha idade que me dizem "não queres ter filhos? estás a falar a sério?" com ar escandalizado e outras que já são mães até.

    Tal como dizes, trata-se da vida, dos objetivos, projetos e prioridades de cada um. Para mim, ser mãe nunca foi um sonho pelo qual ansiasse. Neste momento, noiva (outra coisa que não imaginaria há poucos anos atrás!), não tenho planos nem pretendo ser mãe. Para ser muito franca, a única razão que me faz pensar em ser mãe (além do facto de mo impingirem com alguma frequência, e sei que ainda irá piorar) é imaginar como poderia o meu noivo ser (eventualmente) um pai fantástico, no sentido de se derreter com crianças, de ter uma vocação especial para lidar com as pessoas em geral. Embora isto não queira dizer que ele viesse a ser um bom pai e como é óbvio ele sabe perfeitamente que eu não quero ter filhos (é ponto assente na nossa vida nesta altura). Ou seja, só configuro a hipótese de ser mãe, não propriamente por mim mas quase por outra pessoa, o que não pode nunca ser um bom fundamento...digo eu.

    Isto tudo para dizer que nos meus sonhos não aparecem crianças (pelo menos para já) e não têm de aparecer. Porque não é isso que eu anseio. Quero um dia ter uma casa a que possa chamar minha, quero ter um trabalho que me realize e uma vida feliz, ao lado do meu homem. Para já são estes os meus grandes planos, na verdade nunca imaginei nem quis outros, pelo menos que me lembre.

    Que mal tem isto? E, se tem mal, porque é que não tem, ao invés, mal ter como grande objetivo de vida ser mãe? Lá está, voltamos ao mesmo: as pessoas acham que têm o direito de dar palpites sobre a vida dos outros, de se intrometerem e fazerem juízos de valor. O que falta é que cada um se meta na sua vida e respeite as decisões dos outros, sem comentários ou pensamentos maldosos atirados ao vento.

    Obrigada por este texto, está fantástico.
    Beijinhos

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  42. Concordo com o que dizes. Para mim, são tão válidas as opções de ter ou não ter, desde que sejam ambas tomadas com consciência.

    Trabalho num local onde quase todos os meus colegas são mais velhos (nos 30's até aos 50's) e todos têm filhos. E a grande maioria parece sentir-se miserável com a sua vida e culpam os filhos disso. Estão-se sempre a queixar... do trabalho, do trânsito, dos miudos, da falta de dinheiro... e estamos a falar de pessoas de classe média/alta, todas com casa própria, com carro para ambos os membros do casal, filhos em colégios privados, etc. Acho que são pessoas que fizeram determinadas escolhas na vida sem pensar, só porque era o que se esperava deles e o que toda a gente fazia, tipo ir para um curso superior "importante" (Direito, neste caso), casar, ter filhos, ter a casa, o carro, o status e, afinal, não são felizes.

    Eu tenho 28 anos, vivo com o meu namorado há 6 e pretendemos engravidar este ano. Nunca tive o sonho de ter filhos, na verdade, nunca tive nenhum sonho ou plano já pré-determinado, sempre fui fazendo as minhas escolhas à medida que elas foram surgindo e tomando as minhas opções. E, desde há 2 anos para cá, que começámos ambos a sentir vontade de ter um filho, a pensar nisso com frequência, a falar disso um com o outro, a observar os casais que conhecemos que têm filhos, eu a seguir blogs de mães e a ler sobre o assunto, etc. Naturalmente, sem ideias pré-concebidas, foi crescendo em nós essa vontade e vamos agora dar esse passo. Por isso, para nós, no contexto daquilo que somos e da vida que temos, faz sentido esta opção. Mas vejo como perfeitamente normal e legítima uma opção contrária.

    Esses meus colegas, quando me veem feliz sobre qualquer coisa, ou quando viajo (viajamos com bastante frequência, sempre que temos férias), quando vou passar o fim-de-semana a algum lado, quando conto algo que fiz, terminam sempre o comentário com um amargurado "quero ver-te a fazer isso quando tiveres filhos!". Mas eu não tenho a mínima dúvida de que vou continuar a ser eu e a fazer coisas de que gosto quando tiver filhos. A questão é que quem diz isto e culpa os filhos por não ter a vida que quer, já eram pessoas com vidas assim antes de ter filhos. Olho para as vidas deles e penso como gastam dinheiro em tantos bens materiais desnecessários e que só lhes causam mais encargos e problemas, como ganham bom dinheiro mas é todo gasto em créditos e responsabilidades que assumiram, como estão em relações em que os homens não fazem nada em casa e pouco fazem relativamente às crianças, etc... como são totalmente diferentes de mim e da dinâmica que eu tenho em casal. Por isso, porque é que os filhos seriam o denominador comum da desgraça? Deviam olhar para eles primeiro e pensar que a fonte de amargura em que vivem foi causada primeiramente por eles, não pelos filhos. E conheço "N" exemplos de pessoas felizes e realizadas com filhos, por isso, esta não é uma opção "chapa 5" que vá resultar da mesma forma com todas as pessoas.

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    1. Eu também considero válidas ambas opções. Aliás, apesar de haver aspetos na maternidade que me aterrorizam (acho que nunca me sentirei preparada para gerar um bebé, passar por um parto e amamentar), consigo imaginar uma vida feliz um filho ou dois. Mas lá está, são condições ideais, e na realidade essas condições raramente se proporcionam ou correm o risco de se alterar. Sei, por exemplo, que me arrependeria de ter tido um bebé se o relacionamento em que estivesse chegasse ao fim, porque só consigo imaginar ter um filho no contexto de uma relação feliz em que todos os cuidados com a criança são partilhados. Da mesma forma, mesmo se tivesse realmente o desejo de ter filhos, não os quereria ter nas condições comuns do nosso país, com licenças de parentalidade mínimas (para mim é inconcebível deixar um bebé tão pequenino num infantário), com horários de trabalho que se extendem além das oito horas diárias e sem qualquer segurança ao nível de emprego. E eu acho que, como bem dizes, é aqui que a maioria das pessoas falham: tu e eu pensámos mais no que implica ter filhos do que muita gente que os tem. Tem-se porque é o expectável, porque é natural, mas esquecemo-nos que nada das nossas vidas é natural e que as condicionantes são demasiadas para se partir para uma aventura dessas sem ponderar as razões e traçar um plano. Porque é, ao final de contas, um projeto de vida.

      E concordo absolutamente contigo no sentido em que vida não tem que acabar quando se tem filhos. Há pais que mal os bebés fazem um ano começam a viajar com eles, mantendo o estilo de vida de sempre. Acho fantástico. Quem é descontraído, provavelmente continuará assim com filhos, fazendo obviamente as devidas cedências. Quem é complicadinho, tem tendência a ficar ainda mais complicado. Crianças não são uma prisão e adaptam-se bem ao estilo de vida dos pais.

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    2. Vou comentar outra vez sobre a parte em que referes as licenças de parentalidade, os horários de trabalho, etc. Nós só começámos a pensar em ter filhos quando saímos de empregos que eram assim (a recibos verdes, a trabalhar mais de 12h por dia, sem grande tolerância quanto ao gozo de férias/licenças, embora a ganhar bem e a poder progredir na carreira) e começámos a trabalhar ambos em empregos estáveis (contrato sem termo desde o início, horário de 7h30 por dia, incentivo a que se gozem as férias/licenças, ainda que com uma remuneração mais baixa e menos possibilidades de progressão). Não faria qualquer sentido para nós termos filhos e passarmos os dias a trabalhar para pagar a alguém para tomar conta deles.

      Aliás, quando tivermos um filho, o nosso plano será gozar 1 ano de licença de parentalidade partilhada: 5 meses eu + 1 mês ele (a ganhar 83% do salário) + 3 meses ele + 3 meses eu (a ganhar 25% do salário). Isto é possível em Portugal e está tudo explicado no site da SS. E depois o objectivo será eu passar a tempo parcial (trabalhando só de manhã, ganhando metade do ordenado). E, passados uns anos, tirarmos uma licença sem vencimento de 1 ano e andarmos os 3 a viajar pelo mundo.

      Podemos fazer isto porque, como referi, ganhamos relativamente bem (não ganhamos nenhum valor astronómico, mas é obviamente superior ao salário mínimo e à média portuguesa), mas também porque gastamos muito pouco em coisas não essenciais (vivemos em casa arrendada já mobilada e equipada, não temos carro, não temos empregada doméstica, não temos smartphones, temos tv só com 4 canais, levamos marmita todos os dias para o trabalho, só compramos roupa e coisas em saldos e promoções, quando tivermos filhos eles irão para a escola pública, etc), precisamente porque não valorizamos ter coisas (bens materiais), mas sim usar o dinheiro para viver experiências (viajar) e obter uma boa qualidade de vida para nós (podendo tirar 1 ano de licença de parentalidade, ou um de nós passar a trabalhar a meio tempo, ou passar 1 ano a viajar em licença sem vencimento, por exemplo). Vivemos bastante abaixo das nossas possibilidades precisamente para, nesses momentos importantes (como será o nascimento de um filho), podermos ter liberdade para o aproveitar ao máximo.

      Desses meus colegas que se queixam constantemente, quase todos ganham o dobro de mim. Mas como têm uma vida cheia de responsabilidades, fruto das opções que tomaram (créditos da casa, de 2 carros, da tv plasma, do iphone, da conta da operadora de comunicações, dos restaurantes onde vão diariamente, as mensalidades dos colégios dos filhos, etc), acham que não podem fazer essas escolhas e que a vida é assim e só pode ser assim. Então acusam quem as faz de "ser rico", ou de "não ter filhos", ou de "ter sorte", quando não é isso, é vivermos a vida que queremos viver, sabendo distinguir o essencial do acessório e sabendo que qualquer opção implica escolhas e temos de as tomar de consciência e estando confortável com as mesmas. Eu não olho para quem tem um carro como "que sorte" ou "deve ser rico". Eu fiz conscientemente a escolha de não ter um, porque haveria de me amargurar com isso? Tenho outras coisas, essas sim que eu valorizo. Tal como um dia que tenha filhos, duvido que me amargure com essa escolha. Porque me conheço, conheço o meu companheiro, sei qual é o nosso plano de vida, sei o que valorizamos e sei o que esperamos do futuro.

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    3. ... continuando :)

      Eu tenho colegas que me dizem "para mim estar no trabalho é tipo férias, em casa é um inferno com os miudos" e que podiam sair mais cedo, mas ficam porque não querem ir para casa. Isso para mim é inconcebível! Para mim, os momentos mais felizes da minha vida são junto dos meus pais e do meu namorado. E tenho a certeza que, tendo um filho, será junto dele também. O trabalho é um meio para atingir um fim. Serve para ganhar dinheiro para poder ter a vida em que me revejo, mais nada.

      Acho que as pessoas estão constantemente a inventar desculpas para se manterem infelizes. E que quem tem problemas a sério, é quem menos se queixa e quem mais optimista é. E isso que dizes no final é verdade, estas pessoas não ficaram assim por ter filhos. Já eram assim complicadas e pessimistas antes e o ter filhos só o agravou.

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  43. Por termos mulheres emancipadas, donas da sua vontade e com objectivos prioritários que não passam pela maternidade, ser mãe é hoje uma opção e não uma obrigação. Muito embora ainda exista uma enorme pressão por parte da sociedade, as mulheres que não vêem na maternidade um meio para a realização pessoal estão hoje mais confortáveis ao dizerem "não" do que estariam há 10 ou 20 anos atrás. Há ainda um longo caminho por fazer, mas estou em crer que não há passos regressivos a dar nesta matéria. É cada vez mais usual vermos esta tomada de posição e ainda bem. Não sendo mulher, partilho da tua convicção e, pasma-te, não quero ser pai. Parabéns pela tua coragem em assumires esta posição, com todas as implicações que ela tem, e parabéns pelas outras opções de vida que fizeste e que merecem a minha vénia. A da não-ingestão de produtos de origem animal à cabeça ;) Beijinhos

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