33 contra todas



Com um feed de Facebook do qual faz parte uma mão-cheia de páginas feministas brasileiras, a notícia da violação coletiva numa favela do Rio de Janeiro passou-me pelos olhos muito cedo. Fui exposta às fotografias do crime, acompanhadas por tweets de agressores e simpatizantes da agressão, em que se liam coisas como "amassaram a 'mina" ou "fazendo um túnel para mais de 30". Mais tarde, começaram a chegar os ataques à vítima, uma das armas da cultura do estupro, ou rape culture. Que disto não restem dúvidas: os trinta e três homens não eram doentes mentais, fracos incapazes de conter os seus impulsos. Os trinta e três não são só eles, são milhares - são qualquer homem ou mulher que, aberta ou subtilmente, recorrendo aos artifícios de uma cultura misógina, justifique o abuso sexual e culpe a vítima. Culpam-a porque não está tão arrasada como acham que deveria estar, porque teria (alegadamente) participado em orgias, porque (alegadamente) teria, anteriormente, trocado sexo por drogas. Um áudio partilhado por um dos agressores foi o suficiente para que, em massa, aqueles a quem falta empatia por um ser humano -se esse ser humano tiver o azar de ser mulher-, comecem a desacreditar a vítima. Isto, mesmo depois da admissão do crime nas redes sociais, com imagens que mostravam a jovem desacordada e a sangrar. Uma rapariga de dezasseis anos foi violada por trinta e três homens, e a dignidade de todas nós é violada na tentativa de culpabilização da vítima. O próprio representante da delegacia em que o caso foi denunciado acabou por ser afastado após intimidar a vítima, perguntando-lhe se tinha por hábito fazer sexo com vários homens - como se a sexualidade consentida tivesse algum aporte numa ocorrência de abuso sexual. 


Inibo-me, regra geral, de recorrer ao termo "misoginia", optando por fazer uso dos menos comprometedores "cultura patriarcal", "sexismo" e "machismo". Porém, no caso em apreço, é este o termo adequado, com todo o peso que comporta: o ódio às mulheres e, num maior nível de abstração, ao feminino tal como é culturalmente construído e transmitido. Defendi aqui que o principal motor da violação não é o desejo sexual, mas antes a misoginia, e mantenho-o: é a vontade de subjugar o outro (reparem nas ocorrências de abuso sexual de prisão, de um homem sobre outro, um instrumento de humilhação construído sobre a comparação da pessoa violada à passividade feminina), um outro que o agressor falha em encarar como seu semelhante, vendo-o antes como a personificação das características demonizadoras que a misoginia atribui ao feminino desde que, na mitologia cristã, Eva provocou a Queda do Homem. Só através desta demonização, desta ausência de empatia pela humanidade de um humano, se pode explicar que trinta e três (TRINTA E TRÊS) homens, entre os quais se incluía o então namorado da vítima, tenham dopado, violado e humilhado publicamente uma adolescente de dezasseis anos. Só o quadro mental da misoginia explica que tanta gente venha dizer que não estamos perante um caso de violação se a vítima tem historial de trocar sexo por drogas ilícitas, se dias depois é vista a usar mini-saia e insistindo que nada lhe teria acontecido se estivesse em casa a lavar louça, como se uma enorme fatia de vítimas de abuso sexual não fosse violentada na própria casa, pelo companheiro ou por um familiar. 


As estatísticas apontam que uma mulher é violada no Brasil a cada onze minutos. Nenhuma mereceu, nenhuma provocou e nunca, em toda a história da humanidade, uma mulher teve culpa da violência que lhe foi inflingida. A violência de género tem dois culpados: o perpetrador e a estrutura cultural, simbólica e social que o permite. Porque o abuso sexual não  é resultado de distúrbios mentais do perpetrador, mas antes resulta da objetificação e suspensão de empatia face a um grupo social, eu preciso do feminismo. Podemos condenar o atentado ao corpo e à dignidade de uma adolescente de dezasseis anos, mas sem atacarmos o sistema que permite que o mesmo se repita todos os dias, a raiz do problema (um problema que não se esgota no abuso sexual) não será abalada. Eu preciso do feminismo porque podia ter sido eu e porque, fosse esse o caso, sentir-me-ia duplamente violada, pelos agressores e pelos porta-vozes da misoginia, que iriam escrutinar o meu comportamento e os meus hábitos até encontrarem justificação para a barbárie cometida. Preciso do feminismo porque, no final de contas, eu seria sempre culpada de um crime - o de ter nascido mulher numa sociedade que permite que ainda se demonize o sexo com que nasci e o género sobre o qual foi construído o meu processo de socialização.


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P.S. Visto que o blog mudou de domínio, é provável que não vos apareça no feed. Para continuarem a receber as atualizações deverão fazer unfollow e voltar a seguir. Obrigada =)

24 comentários

  1. Custa-me tanto falar sobre este caso. Honestamente. Fico fisicamente agoniada, se calhar nem tanto pelo acontecimento em si, mas pela análise que a opinião pública faz dele - porque se "apenas" tivéssemos 33 monstros no mundo, a coisa não era tão má assim. Mas quando tens milhares de pessoas capazes de culpabilizar a vítima de um crime tão brutal, vê-se que temos milhares de potenciais violadores e de certos misóginos ao nosso lado na rua. Que não têm qualquer vergonha nem pudor de o admitir, e que acham que estas coisas "são merecidas". E isso assusta-me imenso.

    Jiji

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    1. Sabes, o que me enoja mais é que essas pessoas não têm a lata para se assumir como os misóginos que são, e em vez disso usam um truque de retórica: dizem que são contra o estupro mas que ela não foi violada. E tendo em conta aquilo em que se baseiam - que ela consumia drogas, que já tinha participado em orgias, que aos 16 anos já é mãe, que foi até ao local onde o crime ocorreu pelo próprio pé - (ou seja, argumentos inválidos), podem, a cada novo caso, continuar a dizer que condenam o estupro num nível abstrato e a condenar cada vítima indivídual.

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    2. Precisamente. É uma perspectiva doentia que vê a mulher como um simples objecto sexual que, caso não queira "sofrer as consequências", tem que condicionar a sua liberdade em função dos "impulsos" de idiotas como eles que consideram que há casos em que um crime destes é desculpável. E "impulsos" entre aspas porque isto não são impulsos. O desejo sexual pode ser um impulso, mas passar do desejo aos actos é bem diferente.

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  2. Eu fiquei chocada quando li esta noticia... :-( :-(

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  3. É mesmo isso. E o terrível é perceber a quantidade de juízes, elementos da polícia, pessoas em que se deveria poder confiar, a julgar a vítima. Lembro-me de um caso de uma mulher violada (não me recordo o país) em que o Juiz lhe perguntou se tinha fechado bem as pernas. Mas o que é isto? Está tudo doido?

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  4. O pior é quando mulheres pensam e dizem o mesmo. Isso ainda me faz mais confusão!

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  5. Estas coisas são chocantes. Repugna-me como há pessoas capazes de dizer que a miuda foi culpada. É sempre a.mesma coisa.... o elo mais fraco

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  6. Eu fiquei doente quando vi e ouvi esta noticia, mas como se não bastasse a situação ser terrível e nojenta, ainda vieram os comentadores crucificar a miúda e, poior, mulheres a citicareme, quase que a aplaudirem esta barabridade...como é possível Meu Deus??? Percebo porque o mundo está doente e totalmente podre, quando se podem ler este tipo de comentários, está tudo dito.
    Beijinhos.

    misscokette.blogspot.pt

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  7. esse crime ainda me deixa chocada. não tenho nem o que dizer :(

    abraco afetuoso!

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  8. Soubeste que os familiares/amigos/conhecidos/o-raio-que-os-parta-a-todos do único detido manifestaram-se e insistiram que não existiu violação porque a menina é uma doente que só sabe participar em bacanais? Portanto, na cabeça oca dessas almas vazias, uma mulher que já tenha participado num relacionamento sexual em grupo automaticamente consente que isso lhe aconteça mesmo que esteja desacordada (isto para não referir que quase a mataram devido à hemorragia causada). Esta sociedade põe qualquer pessoa doente e insana.

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    1. Vi... Provavelmente também acham que uma prostituta não pode ser violada, já que é o trabalho dela, ou que não existem violações entre pessoas casadas porque a mulher tem esse dever.

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  9. ...Pois.... Gostei de ler!

    Beijo e um resto de tarde feliz.

    Coisas de Uma Vida 172

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  10. Bem, isto foi poderoso, gostei de ler! E tens toda a razão, concordo com cada palavra. Podia (e pode) acontecer a qualquer mulher que tenha a triste sorte de se cruzar com um imbecil desses, podia acontecer-me a mim, a ti, a quem quer que fosse em qualquer parte do mundo. E não há razão nenhuma, por mais que tentem inventá-las, que desculpe uma coisa destas

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  11. Eu fiquei sem palavras quando soube deste caso! É absolutamente horrível! Não importa se ela usava mini-saia, trocava sexo por drogas, se etc etc! Esses violadores acham que estão sempre no direito de fazer o que querem e bem entendem com as mulheres! Trataram-na como um objeto, e o namorado estava incluído? Porco, nojento, é chamar pouco a ele e aos restantes 32 homens. Podia acontecer comigo, com a vizinha e com outra qualquer mulher. Não interessa se está em casa ou não e como dizes, mesmo em casa são violadas.
    Isto é triste e revoltante.

    P.S. eu não precisei fazer unfollow, o teu blog continua a aparecer no meu feed ehehe.

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    1. Ah, obrigada pelo aviso! Algumas pessoas disseram-me que tiveram que voltar a seguir, mas pelos vistos está a funcionar para alguns.

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  12. «Eu preciso do feminismo porque podia ter sido eu e porque, fosse esse o caso, sentir-me-ia duplamente violada, pelos agressores e pelos porta-vozes da misoginia, que iriam escrutinar o meu comportamento e os meus hábitos até encontrarem justificação para a barbárie cometida. Preciso do feminismo porque, no final de contas, eu seria sempre culpada de um crime - o de ter nascido mulher numa sociedade que permite que ainda se demonize o sexo com que nasci e o género sobre o qual foi construído o meu processo de socialização.» - ASSINO POR BAIXO!

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  13. Isto é tão repugnante que ainda não consegui encontrar palavras para comentar desde que vi esta notícia. De cada vez que tento fazê-lo fico profundamente nauseada e a pensar 'até quando? até quando isto vai continuar a acontecer?' A sério, estou tão transtornada que não consigo dizer mais nada, só me apetece mesmo é vomitar as entranhas.

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  14. Sou homem e não consigo compreender como é que isto é possível.
    Até em termos de puro desejo carnal.
    É nojento, nauseante.
    Porcos imundos!!

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  15. Eu fiquei chocada quando li a noticia e ainda mais chocada quando li as noticias que tentaram descredibilizar a vítima por causa das orgias, etc.. e mais chocada ainda fiquei quando soube que a rapatiga teve de mudar de cidade e estado porque lhe estavam a ameaçar de morte (tanto os seres que lhe violaram como os seres defensores destes atos). A mim quer me parecer que o caso está a ser um bocado encoberto/desacreditado porque o Brasil está quase a receber os olímpicos e não quer levar com estas polémicas..
    deve ser um produto interessante de usar antes de encaracolar o cabelo
    Blog

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  16. Quando soube inicialmente desta notícia senti-me tão revoltada, tão indignada, tão enjoada, tão sabe-se lá o quê... Até hoje não tenho palavras. Tentei escrever uma reflexão, não consegui. Não consigo. Não me passa pela cabeça que o ser humano seja capaz de uma coisa destas.
    Se não fosse a situação por si só má o suficiente, é preciso ter em conta que ela tem 16 anos. 16 anos! Carambas! Pouco importa se ela alguma vez participou em orgias, se consumia drogas ou se já tinha um filho. É uma miúda de 16 anos (e adulta que fosse, a gravidade mantem-se), que foi aquele determinado sítio a pedido do namorado e que foi drogada, violada, fotografada, filmada e a seguir tudo isso foi publicado na internet. Se alguém acha isto normal, devia procurar um psiquiatra imediatamente!
    Não consigo. Falta-me o ar, faltam-me as palavras... A revolta é tanta Nádia, tanta... :(
    xx, Ana

    The Insomniac Owl Blog

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  17. Este caso foi verdadeiramente repugnante! Veio ao de cima e ainda bem!!!

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  18. O caso em si é chocante, mas toda a opinião retorcida que surgiu em resposta a ele eleva-o a um nível mais incrível. Mas é nestes casos que se consegue ver a ideia real que muita gente tem sobre o assunto...

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  19. Otimo post! Nem procurei saber muito mais do que apareceu nas noticias, o que vi e ouvi, bastou. Fiquei bastante chocada com este caso.

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