A ansiedade é uma merda

Fui, esta semana, à minha primeira entrevista de emprego em contexto académico. Isto, à partida, é bom - cada concurso para bolsa de investigação recebe dezenas de candidaturas e são apenas conduzidas entrevistas à meia dúzia de candidatos que mais se enquadrem no perfil pretendido. Fiquei muito satisfeita quando fui contactada e, no dia marcado, dediquei uma hora a preparar-me devidamente: num ambiente confortável (um Starbucks), escrevi as respostas às questões que me pareceram prováveis surgir. Qual o tema da minha tese de mestrado, qual o meu interesse num trabalho académico em particular e neste projeto em específico, etc. A minha ansiedade social começou aí a agitar-se: senti urgência de antecipar todas as perguntas e treinar as respetivas respostas, contra a minha própria crença de que uma entrevista não é uma provação imensa nem o entrevistador um bicho-papão. Uma entrevista de emprego é uma conversa, em que uma das partes está votada a provar o seu valor profissional, mas uma conversa. Eu sei isso, mas a ansiedade não é racional. A ansiedade social, tal como os outros transtornos de ansiedade, não resulta de uma racionalização da situação. Não achei que me fossem colocar questões para as quais não iria ter resposta nem que seria julgada pelo que pudesse ou não dizer - é um processo inconsciente. 


Na vida corrente, não sou uma pessoa ansiosa. Sou descontraída, paciente e nunca fui assaltada por uma crise de ansiedade generalizada. Como a ansiedade social é específica a determinadas situações, posso passar meses sem a sentir, até porque não se manifesta em todas as situações sociais. Também nunca aparece de surpresa - eu sei, à partida, que situações a irão despoletar. Por exemplo, uma entrevista de emprego em contexto empresarial não é um gatilho para a minha ansiedade social, porque não tenho qualquer paixão por esse meio. Uma entrevista de emprego em contexto académico, sabendo que os entrevistadores serão pessoas que admiro, à partida, pelo trabalho que têm, é. Da mesma forma, falar com um desconhecido, não, falar com um potencial interesse romântico, sim. Aprendi também que a melhor estratégia de combate à minha ansiedade social é expor-me às situações que mais receio - no final, penso sempre que foi muito mais fácil do que julgava. Trabalhar por dois meses numa equipa de rua da Amnistia Internacional (falando com dezenas de pessoas todos os dias) livrou-me da ansiedade durante os dois anos seguintes. Depois, aos poucos, a falta de um estímulo semelhante permitiu que voltasse a crescer, culminando durante o meu mestrado. Estive perigosamente perto de não conseguir comparecer à minha própria defesa de dissertação. E sei que, em várias circunstâncias, esta ansiedade (aliada à timidez), é confundida com antipatia, e que já fui considerada desinteressada e desinteressante.


Dez minutos antes da entrevista estava sentada numa poltrona no corredor, com nervos de torcer a barriga. Contrariei o instinto de ir embora e, quando fui convidada a entrar e me sentei frente às três entrevistadoras, o nervosismo tornou-se evidente. Todos temos diferentes manifestações de nervosismo e para mim, a principal é a voz: quando estou muito nervosa, a voz treme-me e, quando atinjo esse nível, começo a esquecer o que tinha planeado dizer. Também devia estar com cara de pânico, porque, cinco minutos depois, disseram-me que respirasse e bebesse água. A este ponto estava tão nervosa que, se tivesse tentado beber água, tê-la-ia entornado, mas a partir daí a coisa melhorou progressivamente. Decidi explicar que sofro de ansiedade social e, de certa forma, esse conhecimento partilhado ajudou-me a descontrair. Disse tudo o que queria dizer na entrevista e, no final, não parecia a mesma pessoa que tinha entrado trinta minutos antes. Mas - e é por isto que a ansiedade é uma merda - os primeiros cinco minutos custaram-me, provavelmente, a hipótese de ser encarada como uma possibilidade viável para aquela vaga. Em Antropologia, parte do trabalho envolve interagir com pessoas e fazer entrevistas e eu, estando no lugar daquelas pessoas, também não escolheria a candidata que tremeu durante parte de uma conversa e que não mostra o à-vontade necessário no contacto social... mesmo que eu ache que a investigação é a minha vocação e que faria um trabalho do caraças - como sempre fiz durante os meus anos académicos.

33 comentários

  1. Não percas a esperança! Quanto a ansiedade, sei bem o que é, infelizmente, e é uma coisa que vais controlando, não de uma vez mas vais conseguindo!
    Pensa positivo!

    Beijocas,
    ANDA DAÍ!

    ResponderEliminar
  2. Sabes o que vales e deves ter mostrado isso durante a entrevista, certo? E foste sincera, nao tentaste esconder algo que estava a ser visivel para toda a gente. Da mesma maneira que tambem devem ter notado que te foste acalmando. Como tal, nada esta perdido. Pensamente positivo :)
    Ja eu sofro de ansiedade, tenho mesmo ataques de ansiedade e praticamente do nada. So preciso daquele pequeno trigger - grande parte das vezes, estupidamente irrelevante - e la comeco eu a sentir-me nervosa, com o coracao aos pulos, a suar, a ver tudo a andar a roda. O bom e' que ja' aprendi mais ou menos a lidar com isto e acabo por conseguir acalmar-me (por norma, tento desviar o pensamento para outras coisas ou, quando nao da, tento ver as coisas de outros prismas). O engracado e que em situacoes como entrevistas de emprego, apesar de andar o tempo todo ansiosa ate ao momento da entrevista, a partir do momento em que entro e comeco a falar com a pessoa, fico relativamente calma.

    ResponderEliminar
  3. Estou a torcer por ti. :) Tu és brilhante, acho que enquadras na perfeição (mesmo não sabendo muito sobre esse mundo)... Só um ceguinho não vê isso!
    O que te aconteceu é comum, só mostra o quanto queres conseguir a vaga. Pode até jogar a teu favor.
    Se quando somos expostos, constantemente, ao que nos assusta, a ansiedade começa a ser mais controlável, será isso que te vai acontecer, QUANDO começares. :)

    ResponderEliminar
  4. A ansiedade é mesmo uma merda! Dá cabo de nós! Mas estou aqui a torcer por ti!!

    ResponderEliminar
  5. E eu que sofro tanto dela.

    Beijo, bom fim de semana.

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  6. Antes ficava muito mais nervosa, agora já nem tanto. Felizmente, o meu nervosismo não costuma ser muito evidente.
    Pode ser que ainda assim consigas a vaga. Boa sorte ^^

    ResponderEliminar
  7. Percebo o que dizes querida, tendo o teu trabalho um contexto social tão forte pensas que o facto dos entrevistadores terem visto a tua ansiedade te vai prejudicar. Pessoalmente, acho que teres sido honesta em relação a sofreres ansiedade social pode também ter ajudado. Pelo menos, viram que consegues contornar essa situação.

    THE PINK ELEPHANT SHOE | FACEBOOK | INSTAGRAM |

    ResponderEliminar
  8. Compreendo tudo aquilo que escreveste , porque sofro do mesmo, acho que tem a ver com a personalidade da pessoa :/ E neste mundo cada vez mais louco e competitivo tb é normal... Força :)

    ResponderEliminar
  9. «A ansiedade não é racional», compreendo tão bem aquilo que escreveste!
    Por norma também não sou uma pessoa muito ansiosa mas quando surgem coisas do género é impossível escapar.
    Tudo de bom, sucesso. Beijo.
    http://maffaldacunha.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  10. Eu tenho a sorte de, quem não me conhece, não percebe o meu nervosismo. O peito fica vermelho, a cara fica vermelha e a voz não é igual. Vamos torcer para que corra bem, porque assumiste esse aspecto e contornaste bem a situação. Força!

    ResponderEliminar
  11. Andei uns anos no conservatório de música e nas provas de admissão estava tão nervosa que nem conseguia respirar em condições, nem na primeira vez que peguei no instrumento me saiu assim.
    Fiquei em primeiro ;)

    ResponderEliminar
  12. Eu percebo-te bem. Eu também detesto entrevistas. E diga-se de passagem, que ter três entrevistadoras é também intimidante e ainda piora mais a situação...

    Espero que apesar de tudo, tenha corrido bem e que tenhas sorte :)

    Um beijinho, Nádia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. De facto... eu ia preparada para uma e encontro três... TRÊS!

      Eliminar
  13. Percebo o que dizes. Acontece-me imenso nas orais, não é um nervosismo normal, muito pelo contrário. No ano passado não fiz uma cadeira (cuja avaliação é apenas por oral) devido à ansiedade, antes de entrar não conseguia parar de tremer e chorar (o tempo de espera também não ajudou) e quando entrei lá só piorou. Tenho essa mesma avaliação daqui a 3 semanas e já estou em pânico, espero que não me aconteça o mesmo. Força e boa sorte, beijinho :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não sei se já pensaste nisso, mas tomar um ansiolítico no dia da prova costuma ajudar. Quando defendi a minha tese de mestrado tomei um na noite anterior, antes de dormir, metade ao acordar e outra metade meia hora antes. Entrei na sala como se não fosse nada comigo!

      Eliminar
  14. Estou a torcer por ti, acho que nada como seres honesta com as pessoas para elas criarem uma certa ligação contigo.
    É o que acontece por aqui e pode ser que as entrevistadoras sintam o mesmo :)

    ResponderEliminar
  15. Parabéns por teres tido a coragem (pelo menos, se fosse comigo eu precisaria de muita coragem!) para abordares directamente o problema da tua ansiedade, e por teres então conseguido superá-lo. Se fosse eu na posição das tuas entrevistadoras contratava-te, mais ainda pela honestidade!

    (P.s., a amnistia internacional é awesome, e o teu novo título também :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Yeyy, também gosto muito da Amnistia e do novo título :P

      Eliminar
  16. Eu sofro de ansiedade em muitas situações. É realmente lixado, mas é algo que só se consegue ir controlando ao longo do tempo. Nunca prevemos quando acontece nem em que situações e, infelizmente, por vezes, vem mesmo nas situações mais importantes. Neste caso, pode ser que o final da entrevista tenha tido mais impacto do que o início.

    ResponderEliminar
  17. Senti cada palavra. Sofro de ansiedade há tanto tempo que os episódios multiplicam-se. Sou sempre dada como arrogante e desinteressada porque a ansiedade vai ao pico quando tenho de conhecer pessoas novas. A ansiedade de iniciar uma conversa com alguém que nunca vi e na qual não quero que automaticamente me rotule de arrogante é tão grande que é exactamente isso que acontece.
    Espero mesmo que aquelas entrevistadoras consigam olhar além!

    ResponderEliminar
  18. Compreendo muito bem essa ansiedade. Aliás, compreendo muito bem o que é ser ansiosa. Sim, porque apesar de estar controlada, continuo a considerar-me uma pessoa ansiedade. Fico super ansiosa nesse tipo de situações em que sinto que estou a ser avaliada e muito mais se tiver de falar para um grande público. Se tiver de falar com um desconhecido de cada vez, sou capaz de ser a pessoa mais tagarela e descontraída, mas se estiver perante um grupo simplesmente bloqueio. É assim desde sempre. Apresentar trabalhos escolares e académicos sempre foi uma tortura para mim. E sofro também de um outro tipo de ansiedade que tem que ver com o não conseguir controlar tudo e com o medo. Cheguei ao ponto de ficar em pânico de cada vez que o telefone tocava pois pensava logo que me iam dar más notícias, era horrível. Daí aos ataques de pânico foi um saltinho. Felizmente, agora estou melhor, mais controlada. Mas sei que a ansiedade fará sempre parte da minha vida.

    ResponderEliminar
  19. Acho que (quase) todos passámos por isso ou por algo semelhante.
    Confirmo, é uma boa m&&&@!

    ResponderEliminar
  20. Também sofro de ansiedade. Já tive vários ataques de pânico sem fazer a mínima ideia do porquê...
    Pode ser que aqueles cinco minutos iniciais sejam esquecidos pela restante meia hora na qual deste o teu melhor :)

    Estou a seguir o teu blog. Gostei muito!

    ResponderEliminar
  21. É realmente chato, assim como é chato que seja difícil mostrar realmente como somos e as potencialidades que temos numa simples e curta entrevista...
    Mas pode ser que tenhas compensado os primeiros minutos com a prestação nos restantes. Espero que sim! :)

    ResponderEliminar
  22. Eu sofro de ansiedade, mas não é só social, é geral. Os ataques de pânico surgem do nada, a qualquer hora do dia ou da noite - sim, já acordei muitas vezes a suar, com ardor na pele, dificuldade em respirar e a gritar que ia morrer, sem sequer estar a sonhar com nada. A mente mente-nos, é um trocadilho engraçado mas tem a sua verdade, a mente diz-nos que estamos em perigo, despoleta uma carrada de reações e estímulos biológicos para nos confirmar isso mesmo e sair daí é um tormento. Felizmente os meus ataques de pânico duram entre 10 a 20 min, há quem dure bem mais, mas mesmo esse tempo é um suplício e, acredita, a ansiedade pode muito bem tornar-se incapacitante, especialmente nas situações mais importantes da nossa vida.

    beijinho
    www.blogasbolinhasamarelas.blogspot.pt

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caramba... acredito que seja muito complicado, e espero que consigas encontrar a melhor maneira de controlar esse problema. Beijinhos :)

      Eliminar
  23. Nunca se sabe! Eu sei que nos primeiros minutos é normal alguém estar mais nervoso e que com o tempo e, principalmente, com a prática as coisas mudam :)
    Estou a torcer por ti!
    porondeandaasofia.blogspot.com

    ResponderEliminar
  24. Eus ou uma pessoa muito ansiosa e nervosa, tenho muitas dificuldades em controlar isso. Acabo sempre por vomitar ou chorar, mas não consigo evitar.
    Beijinhos,

    http://eyarablog.blogspot.pt/

    ResponderEliminar

© Kill Your Barbies. Design by Fearne.