Episódios da vida de uma aspirante a académica

Vejo as entrevistas de emprego como um momento em que se encarna uma personagem. Não fingindo ser uma pessoa totalmente diferente, mas invocando certos aspetos da nossa personalidade que achamos que encaixam no perfil pretendido. Porque, na verdade, quanto nos perguntam "porque é que deseja ocupar esta vaga?", aquilo que queremos responder é "porque preciso de trabalhar, fosse eu rica e não me apanhavam aqui, estava na minha ilha deserta a construir uma cabana de palha e a apanhar mangas com um sósia do Jaime Lannister". Mas divirjo. O assunto que me traz aqui é um tipo específico de entrevista: uma entrevista em contexto académico. Há, logo à partida, uma vantagem: neste meio, e pelo menos na área das ciênciais sociais, não é apreciada a roupa formal. Fatos, saias lápis, camisas brancas - tudo coisas que populam o meu imaginário do adulto secante que espero nunca ser - não fazem parte deste universo (na verdade, julgo que até um visual 100% hippie seria visto com melhores olhos). Em lugar do formal, há um tipo de visual comum - o académico. Compostinho, mas com aquele ar inigualável de "não compro roupa há dez anos porque não me preocupo com o exterior e sou demasiado intelectual para entrar numa Zara". Basicamente, é o estilo das pessoas para quem a roupa tem apenas a finalidade de cobrir o corpo. E pode ser impressão minha, mas parece-me que esta malta olha com uma pontinha de condescendência quem tem um espírito assim mais fashionista. Pois que, à procura do outfit ideal, fiz uma vistoria ao meu guarda-roupa. Vamos a umas estatísticas (inventadas, obviamente, que isso é para os sociólogos):


- 80% dos meus tops, t-shirts e blusas de verão são off-shoulders, ou cropped, ou são feitos para usar sem soutien, ou têm aberturas em sítios inapropriados para a ocasião em questão. O resto são tops de algodão estampados, descontraídos (ponderei seriamente levar o meu top do David Bowie na esperança que a entrevistadora seja fã, ou um com padrão tribal para mostrar que levo muito a sério isto de ser antropóloga); 


- Isto aplica-se também a 99% dos meus vestidos, e aqui acrescento ainda os atributos "sem costas" e "decotes profundos";


- 100% das minhas saias e calções são muito acima do joelho; 


- As minhas calças de ganga favoritas têm rasgões e/ou são de corte boyfriend ou mom


- 100% das minhas calças são de jeans



Ouço-vos agora a perguntar: e então, Nádia, conseguiste reprimir a fashionista que habita em ti e encarnar a académica que queres ser? 


Bem...Vou de culottes e sandálias douradas. 

34 comentários

  1. Boa sorte, já agora. (Não precisas!!!)

    Eu emprestava-te. Não uso nada desse tipo de blusas. (Porque não me favorecem.)

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  2. Well. 'Tás na moda, cuidado com isso! :p

    Jiji

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  3. Às entrevistas a que já fui, levei calças de ganga muito justas, com uma camisola tipo "flowy" e sabrinas.
    Com os acessórios certos, fica um conjunto adequado :)
    Não sou adepta de fatos heheh
    Boa sorte!

    um beijinho*
    Dreams and Lemonade

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    1. Também acho que skinny jeans resultam muito bem :)

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  4. Como tirei Comunicação Social, assino por baixo esta publicação. Lembro-me tão bem de um dos meus professores de Jornalismo nos dizer para não irmos vestidos à "mete nojo" para uma redacção ou seríamos comidos vivos. Umas calças de ganga normais e uma bela t-shirt larga eram a escolha mais acertada.

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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    1. Olha, os jornalistas é que têm sorte! E os artistas, e o pessoal de design.

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  5. Muito interessante esta tua observação :) Apesar de estar ligada Às ciências sociais, o típico "psicólogo" apresenta normalmente uma imagem relativamente formal. Mais flexível do que descreveste logo no início, mas cai sempre bem uma blusa mais pomposa e um blazer, só naquela de mostrar que também somos doutores e pessoas sérias. Lol!

    Mas, curiosamente, todos os psicólogos que eu conheço, que estão ligados à docência e à investigação e que são também das pessoas mais inteligentes e conceituadas na área, são as pessoas que pior se vestem! Acho que é mesmo como dizes: até olham um bocado de lado quando alguém aparece muito bem vestido. O professor mais "especial" da faculdade onde eu andei e que tem clínicas espalhadas pelo país, publicações quase que semanais em revistas da especialidade, que vai a congressos pelo mundo fora e, inclusivamente, vai para a faculdade de ferrari, tem o pior aspeto de sempre. Parece um lunático. Cabelo despenteado, roupa pouco cuidada... Parece que quanto mais inteligentes e bem sucedidos, menos tempo e paciência têm para cuidar do aspeto exterior.

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    1. Eu estava a falar de cientistas sociais académicos, acho que são uma espécie diferente dos licenciados na área. Mas acho o mesmo que tu - quando mais acima na escada académica, mais se parecem com o estereótipo do cientista louco :P

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  6. Quando saí da faculdade, lembro-me que tive de começar a mudar um pouco o tipo de roupa que usava. No meu caso, formal qb é o mais indicado. Nada de fatiotas elaboradas, mas uma camisa e umas calças de ganga simples, por exemplo. Decotes, calças rasgadas, coisas muito curtas... Isso pode passar uma imagem de pouco profissionalismo para o outro lado. A verdade é que, nos primeiros tempos, preocupava-me mais com a forma como ia vestida. Depois, como eu acabei por adoptar aquele estilo no dia a dia, ir a uma entrevista era só mais um dia normal.
    Good luck! ;)

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    1. Eu percebo essa necessidade de adaptarmos o nosso estilo (acho disparatado que tenhamos que o fazer, mas não podemos ser revolucionários em tudo), mas não me sinto bem com roupa formal. Para mim, até uma camisa é formal e não gosto, não me sinto eu e não me favorece, porque sou "petite". Acho também que depende muito dos locais de trabalho e na maioria dos casos podemos contornar a coisa, mas se um dia tiver que trabalhar num ambiente que exija blazer e saia travada vou ser muito infeliz :P

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  7. desde que te sintas bem e confiante :)

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  8. Também nunca fui adepta desss conjunto pre-definidos. É de rir como algumas pessoas vão apra entrevistas de emprego ou provas orais, quase tão bem arranjadas como se fossem para a noite. Por cá, sou adepta dos vestidos com blazers e por ser o meu estilo é provavel que fosse o tipo de roupa que levaria a uma entrevista de emprego
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    1. Olha, vestido e blazer é mesmo roupa de entrevista profissional!

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  9. Eu acho que cada devia poder enfiar o que lhe apetece, formal ou não, e pronto. Mas, a verdade, é que a imagem conta muito numa entrevista de emprego =P

    Já agora, boa sorte!

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    1. Eu penso o mesmo, não acho piada nenhuma a estes códigos. O pior mesmo é a "farda" obrigatória em áreas como a gestão, socorro!

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  10. Por acaso, e shame on me, pensava que nas entrevistas académicas tinha de se utilizar sempre roupa formal. Fiquei surpreendida com isso! Adorei a tua escolha! Vais linda de cullotes, de certeza :p

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  11. Por acaso, apesar de não ser o meu estilo, estava a pensar que as momjeans com uma blusa e o calçado certo também ficariam dignos de entrevista. Por acaso penso bastante nisso pois nunca sei como associar o meu estilo (Boho) as essas ocasiões sem parecer que vou a um casamento.
    Já agora para que serve essa entrevista? Não percebi.
    Beijinhos

    A Boémia Catita Blog

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    1. Uma entrevista para uma bolsa de investigação científica :)

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  12. E vais ótima! :D

    Encontrei agora o teu blog e está qualquer coisa de extraordinário. Great job! :)

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  13. Eu acho uma parvoíce de todo o tamanho exigirem-nos um outfit para uma entrevista, como se isso determinasse o nosso grau de competência... Digam o que disserem, continuarei a achar uma parvoíce! Então no caso da minha área ainda mais, uma vez que o nosso outfit diário se resumo a uma farda branca e chata, ora qual é a lógica de não ser de 'bom tom' apresentar-me com os meus vestidos retro-hippie na entrevista? Coisas que nunca hei-de entender. Divagações à parte, espero é que a entrevista tenha corrido bem! Cross fingers por ti Nadita :)

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    1. Estou contigo, acho um disparate pegado. Não tem nada a ver (ou talvez tenha), mas faz-me lembrar a tendência para toda a gente ter carros dentro do mesmo esquema de cores (preto, branco, metalizado e pouco mais). O mundo era tão mais bonito - e colorido! - se o espaço para a criatividade e expressão individual fosse maior. Olha, retro-hippie é muito bom!

      (Quanto à entrevista, não sei se correu bem, mas já passou).

      Beijinhos :)

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  14. Gosto tanto da forma como escreves e abordas os assuntos!
    Culottes? ADORO!! Chique chique chique!!
    Beijinhos
    elisaumarapariganormal.blogspot.pt

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  15. Depende qual o possível empregador...
    Na hotelaria não é aconselhável.

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  16. Acho post um resumo da realidade das entrevistas, assume-se mesmo uma personagem e em relação à roupa conheço, quem tenha comprado roupa para isso, tenha sido contratada e depois despedida porque quando usou a roupa "normal" não se enquadrava no espírito da empresa, a pessoa em causa usava camisolas com msg...

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    1. A sério...? Despedir uma pessoa por causa da roupa? Admito que sou tendenciosa neste assunto, mas parece-me sempre que as exigiências de formalidade mascaram uma certa falta de preocupação real com a qualidade do trabalho - que deveria ser o mais importante.

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  17. Adorei a conclusão. Sendo eu de RH digo-te já que ainda te surripava uma pecinha ou outra das que descreveste :P

    https://oblogcat.blogspot.pt/

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  18. Adorei ler este post, acaba por ser mesmo interessante a forma como às vezes o nosso guarda-roupa, por mais incrivel que seja, às vezes não é o mais adequado para causar uma boa impressão quando se trata de uma entrevista de emprego onde todo o santo detalhe conta!!!
    BOA SORTEEE!
    Grande beijinho,
    Madalena

    www.maadalenaaa.blogspot.com

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  19. Acho que tocaste na ferida. No ambiente das ciências sociais há realmente uma predisposição para o visual mais descontraído, um descuido cuidado. As pessoas mais notáveis que conheci no meio académico foram sem dúvida pessoas que não seguiam grandes regras de vestimenta. Abençoados =)

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  20. Haha, é engraçado, a roupa que gostamos de ver em nós e nos outros é uma amostra muito boa do que somos ou pensamos. Acho especial piada ao estilo de que falas, 'sou demasiado intelectual para me preocupar com a roupa', normalmente é quem o tem que mais se preocupa com a aparência :P
    De qualquer forma espero que a entrevista tenha corrido muito bem :D

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  21. Apesar de nunca ter estado neste contexto de entrevistas, acabo por formular a minha opinião com base no que os professores usam, não só em contexto de aulas como em contextos de conferências. E honestamente sinto que as camisas e fatinhos e afins é mesmo ali para os "doutores" de direito: é que aquilo vai tudo aprimorado até mesmo para passarem 24h a estoirar os neurónios a estudar num canto da biblioteca. Nada contra... mas não imagino a pressão que isto não cause em quem não esteja propriamente para aí virado. Eu honestamente vejo o restante mundo académico como um ambiente muito mais relaxado, aquele casual-formal, que nem é bem carne nem peixe, que não é totalmente formal nem aquele casual que mais parece que vamos para a Costa da Caparica. Por isso, para mim a tua escolha esteve "on point". E já agora, espero que a entrevista tenha corrido bem ou que corra bem (dependendo de se já aconteceu ou não) :)

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