A roupa, a escravatura moderna e o fair trade

Quase todos temos as nossas palas, algumas potenciadas pela educação num determinado contexto sociocultural, outras mais autoimpostas, operando como uma proteção voluntária contra informação que, uma vez confrontada com honestidade, nos levaria a ter que alterar hábitos que queremos manter. Assim, os carnistas recusam reconhecer que os pressupostos que nos levam a amar alguns animais e a comer outros mais não são que construções culturais, porque não lhes convém aceitar que um porco e um cão são idênticos no essencial. Os machistas recusam-se a reconhecer a humanidade intrínseca no lugar de uma feminilidade objetificada, porque não querem perder privilégios consolidados em milénios de patriarcado. Muitos homens falsamente feministas recusam-se a pensar criticamente sobre os graves problemas da indústria pornográfica, porque o feminismo é muito bonito até interferir nos seus momentos de prazer solitário, obtido sem importar à custa de quê ou de quem. 


Por esta altura, já estarão habituadas a ver-me sair em defesa dos fracos e oprimidos, nomeadamente, os animais e as mulheres. Sou vegan porque é o mínimo que posso fazer pelos animais que não precisam de morrer para nós e sou feminista porque as minhas experiências levaram-me a confrontar o sexismo e a misoginia tecidos nos fios da nossa teia cultural. Mas, como quase todos, tenho as minhas palas, e pela exata razão que referi atrás. É que confrontar os nossos privilégios leva-nos, invariavelmente, a uma de duas situações: ou alteramos a nossa conduta de forma a interromper a nossa conivência com as injustiças ou mantêmo-la e convivemos com o peso de fazermos parte de um sistema de opressão. No meu caso, este sistema é aquele do qual depende grande parte da indústria da moda. Gosto de roupa, expresso-me através dela e, à semelhança de todas as pessoas que conheço, sou cliente da Zara e restantes lojas da cadeia Inditex, da Mango e, ocasionalmente, outras - basicamente, compro onde tenho vontade de comprar, desde que dentro da minha faixa de preço. E, apesar de já não ser novidade para ninguém que estas empresas produzem a maioria das suas roupas, calçado e acessórios em fábricas que operam um género de escravatura moderna (incluíndo trabalho infantil) às quais chamamos sweatshops, sempre afastei essa informação de uma reflexão ponderada. 


Isso, agora, acabou. Fechar propositadamente os olhos à informação é, para mim, a maior das desonestidades intelectuais: prefiro conhecer toda a realidade, mesmo que a tal não se siga imediatamente a alteração da minha conduta. Permitir que o peso da informação permeie a nossa mente, sem nos defendermos dela por forma a mantermos uma boa imagem de nós próprios e para nós próprios, será sempre o primeiro passo, e talvez o mais relevante. Este passo, para mim, foi dado sob a forma da visualização do documentário The True Cost. A realidade não é bonita: pessoas a trabalhar 14h por dia a um ritmo alucinante, intimidadas verbalmente e fisicamente agredidas por supervisores, salários que mal garantem a sobrevivência, crianças de treze e catorze anos submetidas a estas condições de trabalho miseráveis. Sim, o mundo é injusto, mas temos, cada um de nós, a escolha de contribuir para as injustiças - neste caso, uma injustiça criada pela ganância de empresas multimilionárias que querem produzir a maior quantidade de roupa possível no mais curto espaço de tempo, e a nossa ganância, enquanto consumidores, com a nossa vontade de comprar cada vez mais roupa a um preço cada vez mais baixo. À semelhança do narrador de The True Cost, acredito que podemos fazer melhor que isto.


Estou, de momento, a investigar marcas com o selo de fair trade (comércio justo). A minha primeira impressão é a de que não falta oferta, mas os preços são mais altos que aqueles praticados pelas "lojas do costume" (como seria suposto, uma vez que a mão de obra não é sujeita às mesmas condições de trabalho degradantes). Farei uma lista mais detalhada em breve, mas deixo-vos, por ora, com três sugestões muito interessantes:  


ASOS Africa -  Uma coleção produzida no Quénia seguindo as regras do comércio justo. 

ASOS Reclaimed Vintage -  Peças e tecidos achados em armazéns e mercados, que ganham uma nova vida em fábricas no Reino Unido. 

American Apparel - Marca americana, produzida nos EUA e que é, por princípio, sweatshop free.

31 comentários

  1. Confesso, eu coloco essas palas em mim mesma. À grande. Não tenho hipótese de comprar roupas em grande parte das marcas que não praticam esse tipo de produção - e preciso mesmo de comprar tanta roupa assim? Para dizer a verdade, provavelmente também não, sendo honesta. É uma questão em que tenho pensado e que, estupidamente, opto por varrer da minha cabeça, é verdade. Por outro lado, tenho optado cada vez mais por tentar apanhar peças de fábricas portuguesas - daquelas sem grande nome, que não sobem assim tanto os preços, que se apanham nas feiras por este Portugal fora - e ir mais para lojas em segunda-mão. Sempre sinto que reduzo um pouco o impacto das minhas compras. Resolve? Nope. É mais uma questão de viver bem comigo mesma, porque de vez em quando lá vou eu às marcas que não têm o mínimo cuidado com isso. No fundo isto é tudo um ciclo de egoísmo...

    Jiji

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade, o que torna a questão ainda mais problemática é ser muito difícil não compactuar com este sistema. Num centro comercial português, todas (penso eu) as lojas de fast-fashion produzem em países conhecidos pela mão de obra explorada. Algumas peças até podem vir de fábricas com uma política decente, mas não temos maneira de saber, não é? Quando o assunto é lucro, é mais prudente esperar o pior até prova em contrário.

      Eu acho mesmo que a principal ganância é das lojas. Penso que a maioria dos consumidores não se importaria de pagar mais uns euros por cada peça de roupa se isso garantisse melhores condições para quem a produz... mas o problema nem é esse, as grandes companhias não exploram a mão de obra para que os preços sejam mais baixos para os consumidores, exploram para obter cada vez mais lucro. Basta ver que muitas marcas de gama alta, que combram centenas de euros por umas calças, produzem as suas roupas nas mesmas fábricas.

      Eu por acaso acho que as lojas em segunda mão são uma boa opção. Disse-te uma vez (não me lembro se aqui ou no teu blog) que a ideia me faz um bocadinho de confusão, mas acho que vou perder as esquisitices =)

      Eliminar
  2. Sílvia, apaguei por acidente o teu comentário (isto de aceitar e responder a comentários no telemóvel...). Ora, não sou nada, estou só a tentar ser coerente. Mas obrigada <3

    ResponderEliminar
  3. adorei o texto nádia e consigo perceber perfeitamente aquilo que queres dizer com o querermos desviar a nossa atenção dos problemas que são realmente importantes para mantermos uma boa imagem de nós próprios. Mas se há uma pessoa à qula nunca devemos mentir é a nós próprios porque não há razão para tal.
    otimo tema, fico à espera de mais sobre o assunto
    beijinhos

    http://umacolherdearroz.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  4. Nádia parabéns pela iniciativa e pela tua paixão pelo que é correcto, és muito corajosa e fico contente por, de alguma forma, me cruzar contigo ainda que virtualmente. É bom sermos inspirados por pessoas boas.
    Obrigada
    http://her-concept.blogspot.com

    ResponderEliminar
  5. Já tinha lido sobre o assunto no blog da Marta, LA VEINE, e fiquei em choque. Ainda não comprei nada, desde então.
    E tal como aconteceu, quando li o post dela, estou sem palavras. Quis só, mais uma vez, deixar a nota de que li e que a questão é grave e útil, mesmo que continue a fazer as mesmas burrices. (Porque as condições económicas do comprador também influenciam e comprar mais caro, às vezes, não é possível. Por isso, acho que vou afastar-me de comprar durante algum tempo. Que mundinho, este!)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Oh, é isso! A tua experiência como que confirma aquilo que penso acerca do poder da informação: até podemos não mudar integralmente o nosso comportamento, mas o conhecimento que adquirimos já não nos deixa voltar à despreocupação de antes. E isso é bom =)

      Eliminar
    2. Não conheço o documentário mas conheço a realidade da Escravatura Infantil. Como diz a K, o principal problema de consumirmos esse tipo de artigos é o poder de compra não permitir. No entanto, como também li por aqui, acho que devemos, cada vez mais, consumir com responsabilidade. Quantas vezes compramos coisas e nem precisamos delas? Acho que passa um pouco por aí. Eu adoro os produtos Made in Portugal, se pudesse só consumia coisas nossas, mas também sabemos que os preços são elevados, no entanto, temos uma qualidade Top!

      Eliminar
  6. Gosto da parte séria que abordas por aqui. Por isso gosto tanto de te seguir e de ler o que escreves. beijinho
    elisaumarapariganormal.blogspot.pt

    ResponderEliminar
  7. Vi também esse documentário faz um ano. E nessa altura tomei a decisão de passar 4 meses sem comprar roupa - setembro a dezembro - e se acham que passei o outro periodo de tempo a comprar roupa, desenganem-se, tornei-me mais, muito mais ponderada. Agora vou voltar a fazer o mesmo (anuncio-o no último post do meu blog), porque mais que gastar dinheiro, é acumular roupa que não uso, é fazer lixeira em casa, mais tudo o que referiste e muito bem. Agora compro, vou continuar com a pala, mas com a certeza que faço compras inteligentes e usáveis, para o meu bem e para o bem de todos.

    RITISSIMA BLOG

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que bom, Rita! Eu sempre passei vários meses sem comprar roupa. Normalmente compro duas vezes por ano, nos saldos de verão e de inverno, com algumas compras (muito poucas) pelo meio. Mas nunca foi uma decisão consciente - primeiro era estudante, depois estava sem trabalho, por isso as minhas compras sempre foram bastante racionadas. Foi importante para mim ver este documentário agora porque começo a trabalhar daqui a umas semanas e não quero dar uma de shopaholic e desatar a comprar só porque agora posso. E acho que resultou :)

      Eliminar
  8. Essa defesa pessoal que consiste em ignorar que não analisamos devidamente as nossas ações à lupa das nossas convicções é a suprema pala, a pala que nos impede de ver as subpalas (quando a metáfora for demasiado longe alguém que avise). Vê-se frequentemente a confusão das palas com a razão: por vezes em discussões (falo das argumentativas e não das que consistem em ofender verbalmente o oponente :P) as pessoas tentam fazer passar preconceitos como argumentos que depois, claro, não conseguem expressar, chegando a um convicto 'mas é assim porque é e sempre foi'. Acho louvável que tenhas a coragem de procurar manter a tua convicção una e congruente com o teu estilo de vida, não é para qualquer um :)
    Não sou das pessoas que mais roupa compra, mas há sempre a necessidade de o fazer e assim sendo gostei das sugestões. Espero as próximas :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A mim parece-me até coerente que as pessoas que descreves digam coisas que "mas é assim porque é e sempre assim foi", porque é esse o seu único "argumento". Não fazem o que fazem por convicção, fazem porque é conveniente e porque cresceram normalizando essas realidades, quaisquer que sejam. Eu também compro roupa na Zara porque é conveniente, mas a mania de querer parecer bem a todo o custo e com argumentos ridículos ultrapassa-me.

      Eliminar
  9. Vi esse documentário há uns meses atrás e também fiquei desperta para o problema.

    Hoje em dia tenho uma abordagem minimalista no que toca ao consumo. Compro menos mas com consciência.
    Já praticamente não compro roupa, na verdade, mas ainda o faço pontualmente na Zara, Massimo Dutti, etc e fico muito feliz quando encontro um "Made in Portugal". Espero que isso signifique alguma coisa.

    Concordo com praticamente tudo o que escreveu a Rita Machado.
    Também quero acrescentar que esta ideia que nos tem vindo a ser impingida pelos mais diversos meios (séries, filmes, blogues, etc): a de ter um walk-in closet, é um tanto perigosa (para não dizer um tremendo disparate). Desde logo, (e muito importante) clara está a grande facada nesta questão ética. Por outro lado (embora menos importante), suponho que grande parte destas divisões não passem de meros expositores de monos (para quem dê valor a tendências...). É a minha opinião. :)

    Fico feliz por abordares esta questão tão importante. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também não compreendo o fascínio pelos walk-in closets. Quer dizer, percebo que se ache que é mais prático mas, curiosamente, nunca é isso que ouço como o principal fator de atração - é quase sempre o fascínio pelo consumo, o ter muita roupa. E gostar de roupa (que gosto) é bem diferente dessa ânsia de acumular.

      Beijinhos =)

      Eliminar
  10. A pior parte, é que artigos mais caros nem sempre garantem melhores condições de trabalho. Então na indústria das tecnologias é que isso é evidente. Basta ver os documentários que existem sobre as condições de trabalho dos que produzem artigos para a Apple ou Samsung. Andei a fazer algumas pesquisas de lojas que são Slave Labor Free e é praticamente impossível encontrar essas lojas em Portugal. Temos de evitar ao máximo o consumismo excessivo!
    Por onde anda a Sofia?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade, referi isso noutro comentário. Mas, por outro lado, há marcas acessíveis que produzem na Europa, percebi isso nas pesquisas (ainda pouco extensivas) que comecei a fazer. Em relação às tecnologias é mesmo mais complicado. Vou mudar de telemóvel em breve e estou a tentar perceber que marcas têm melhores práticas de produção, mas não está a ser fácil.

      Eliminar
  11. Concordo com tudo o que disseste e acho que o expuseste de uma maneira muito boa. Confesso que também ponho em mim próprias essas palas, mas cada vez penso mais nisto. Sou vegetariana a caminho de me tornar vegan e estes problemas levantam-se imenso na minha cabeça. O que tenho andado a tentar fazer é não comprar tantas coisas, mesmo que isso não seja ainda o ideal. Vou ver o documentário de que falaste e tentar tornar-me um bocado mais consciente acerca deste assunto, porque é um tema muito importante e que deveria ser mais falado :)

    Há giveaway a decorrer no blog, participa!
    Beijinhos, xx
    mylittlecorner7.blogspot.pt

    ResponderEliminar
  12. Olá, Nádia!
    Me identifiquei muito com esse texto porque, muitas vezes, também fecho o pensamento para uma reflexão mais profunda sobre diversas situações da vida. Eu já li muito sobre a moda consciente e tenho tentado, talvez não com tanto afinco como deveria, priorizar um comércio mais justo e até mesmo familiar. Tenho feito prazerosas descobertas no caminho.

    Muito bom seu post!
    Beijos.

    BLOG COISA E TAL

    ResponderEliminar
  13. Esta reflexão é bastante interessante. No que me diz respeito, apesar de saber que a roupa da Zara e de outras cadeias de lojas é feita à custa de exploração laboral e não só, a verdade é que continuo a comprar lá a minha roupa. Tenho de admitir que também já fui mais consumista, hoje sou mais ponderada nas compras e tento comprar produtos portugueses, principalmente calçado (prefiro comprar menos mas ter calçado com alguma qualidade e durabilidade). Como bem disseste, acho que é uma questão de hábito e de gestão. (Estou sempre a aprender contigo miúda!!)

    ResponderEliminar
  14. Vi apenas o trailler e que grande murro no estômago. A verdade é que se olhar para trás vivi anos e anos de consumismo desenfreado que tenho tentado mudar nos últimos anos, mas há ainda tanto a fazer.

    ResponderEliminar
  15. Excelente post! Quanto mais falarmos deste assunto, melhor!

    LA VEINE

    ResponderEliminar
  16. Começando pelo fim do teu post... Eu por acaso pensava que a American Apparel também se encontrava no mesmo saco que a Zara e afins, embora praticasse preços mais elevados. E se nalguns casos até funciona dizer que as empresas que praticam preços mais elevados oferecem melhores condições de emprego, se calhar a maioria dos casos é mesmo o oposto. Embora não tenha certezas nenhumas, penso que marcas de luxo como a Chanel e a Prada não estão imunes a estas práticas. E um bom exemplo disto é a Apple (só me pergunto se a fama de Mr. Robot abriu os olhos de algumas pessoas).

    Não conheço o documentário mas imagino que seja devastador. E se é difícil perdermos o apego que temos a alguns bens materiais, ao menos que estes documentários sirvam para abrir a pestana a muita gente. Viver no meio da ignorância é muito mais fácil, mas muito menos humano.

    ResponderEliminar
  17. Eu já conhecia esta realidade mas todos os produtos de fair-trade (roupa, cosméticos entre outros) são sempre tão caros e é isso que me impede de avançar.

    Cátia ∫ Meraki

    ResponderEliminar
  18. Não sei se você conhece o site The Good Trade, é BEM interessante: http://www.thegoodtrade.com/ Esse seu post me fez lembrar esse aqui deles: http://www.thegoodtrade.com/features/fair-trade-clothing

    Um beijo!

    ResponderEliminar
  19. Em primeiro lugar tenho que te dar os parabéns, Nádia, porque adorei a forma como tu abordaste o tema, escreves muito bem! :) Eu concordo contigo! Vou ver esse documentário para me informar mais sobre este tema :)
    Beijinhos
    http://universodamarta.blogspot.pt

    ResponderEliminar
  20. Escravatura moderna que nesta região se vê em muitos locais.
    Que combinam o paraíso e o inferno.
    Tailândia, Indonésia, Vietname....
    Boa semana

    ResponderEliminar
  21. Ainda não vi esse documentário, mas já vi outro (cujo nome me escapa) sobre o mesmo assunto. Vou ver as marcas da lista e fico a aguardar mais sugestões. Para já, a única coisa que fiz desde que vi o outro documentário foi reduzir ao máximo a compra de roupa, mas confesso que o meu interesse por roupa e zaras e afins tem vindo a reduzir muito ao longo do tempo.

    ResponderEliminar
  22. Não sabia que muitas dessas lojas apelavam à escravatura! Bem, estou sem palavras!

    ResponderEliminar
  23. Eu estou totalmente de acordo contigo. Há sempre alguém a pagar os custos (ou falta deles) daquilo que compramos... é por isso que é importante apoiar small businesses, fair trade e por aí fora. Também vi esse documentário e gostei bastante. Mas o que me chocou mais não foi de moda, foi o The Dark Side of Chocolate. Até escrevi sobre isso aqui: https://theggmovement.blogspot.pt/2016/07/theres-bitter-side-to-chocolate-and-you.html

    beijinhos,
    Francisca

    ResponderEliminar

© Kill Your Barbies. Design by Fearne.