Strangelove #2: Quem ama não trai?

Tal como referi no texto anterior, resolvi começar esta rubrica por sentir vontade de partilhar o meu espanto face a alguma falta discernimento das pessoas em matéria de relações amorosas. Anos a acompanhar o Shiuuuu permitiram-me reparar -inicialmente com surpresa, depois com incompreensão- na generalização de determinadas posturas. Ler confissões como "nunca senti culpa por ser infiel" ou "comecei a trair a minha esposa poucos meses após nos termos casado" apoiadas por diversas respostas cujo sentido costuma ser algo como "não faz mal, toda a gente faz o mesmo" é coisa para encher qualquer um de medo. Depois há comentadores deveras originais, como os que preveem o fim da civilização caso os traidores resolvam ser honestos acerca das suas incursões extraconjugais e aqueles que inventam as próprias regras, como "se uma mulher teve mais que um namorado ao longo da vida não tem direito a exigir fidelidade de ninguém". Não estou a exagerar; antes estivesse.


Ora eu não consigo, racionalmente, alegar que quem ama não trai. A infidelidade acontece por várias razões, em diversos contextos e com diferentes motivações, e como tal seria irreal pensar que todas as pessoas que já traíram um ou mais parceiros não sentiam qualquer amor por eles. Falta-lhes, certamente, respeito e empatia, mas nós não habitamos a cabeça das outras pessoas para podermos julgar os seus sentimentos. Já as ações, são definitivamente condenáveis. Trair a confiança de alguém é um ato vil (e, para mim indesculpável), principalmente por ser facilmente evitável. Na verdade, acho que as traições ocorrem pela mesma razão que diversas coisas ocorrem em sociedade. Ao escrever este texto, tentei e falhei dizer isto de forma menos condescendente: eu acho que a maioria das pessoas não desenvolve, na sua formação pessoal, a faculdade de pensamento crítico. A respeito desde assunto particular, falta a muita gente a introspeção e a orientação ética necessária. Falta que cada pessoa esteja disposta a empreender uma autoanálise de forma perceber que estilo de relacionamento mais se adequa à sua personalidade e às suas vontades. 


Tenho poucas dúvidas de que seja possível, para alguns indivíduos, amar mais que uma pessoa ao mesmo tempo. E poucos discordarão que para muitas pessoas o amor e a atração são coisas que nem sempre coincidem, sendo possível estar numa relação satisfatória e sentir desejo por terceiros. E nada disto representa um problema se aceitarmos algo muito simples: ninguém é obrigado a estar numa relação monogâmica. Juro-vos, não há, no nosso país, nenhuma lei que impeça um homem ou mulher de ter vári@s namorad@s ou companheir@s ou de manter uma relação aberta. Ora parece-me que, quando os sentimentos e o bem-estar de outros estão em jogo, é responsabilidade de cada pessoa fazer uma introspeção honesta e perceber quais são as suas expectativas. Para mim, que sou naturalmente monogâmica, essa é a diferença entre cruzar-me com uma pessoa que numa fase inicial tem o cuidado de me informar que é poliamorosa, permitindo-me fazer uma escolha informada, e outra que jura fidelidade eterna no auge da paixão mas que na realidade nunca pensou no assunto. A diferença é que a primeira pessoa pauta as suas ações por uma conduta ética e a segunda é um tiro no escuro: pode interessar-se por várias pessoas ao mesmo tempo, pode desejar a estabilidade emocional de um parceiro fixo mas sentir vontade de ter aventuras pontuais com outras pessoas ou pode, por acaso, ser também naturalmente monogâmico. E a maioria dos relacionamentos são este tiro no escuro porque as pessoas não percebem que têm opções. Não me parece que qualquer modelo de relacionamento seja melhor que o outro, mas há uma qualidade que deveria imperar em todos: a honestidade de parte a parte que permita a cada pessoa decidir se está confortável com determinada situação. 


Há vários indicadores de que alguém não é monogâmico - se uma pessoa tem historial de terminar relações porque se interessou por outra, sentindo no entanto que gosta de ambas, talvez seja poliamorosa. Se acha que estar numa relação de exclusividade é um desafio na medida em que se sente constantemente tentada por terceiros, talvez uma relação aberta seja o mais adequado. De qualquer forma, a pessoa que escolhemos para partilhar a vida, ou alguns meses ou anos dela, deve ser informada disto. O que não vale é afirmar que se é monogâmico porque se vê nesse tipo de relacionamento certas características desejáveis e depois agir (normalmente, escondendo isso d@ namorad@/companheir@, etc.) como se estivesse num relacionamento aberto. Uma relação amorosa tem, pela grande proximidade entre as pessoas envolvidas, o poder de nos fazer sentir muito bem ou muito mal, e ninguém tem o direito de brincar com a vida e o tempo de outra pessoa dessa forma, nem de colocar em risco o seu bem estar físico e psíquico. Quem trai pode até amar - mas é um amor que desrespeita o poder de escolha do parceiro - afinal, cada pessoa deve estar consciente das circunstâncias da relação, e se eu entrei numa relação de exclusividade não aceitaria estar numa que não o seja. Pode gostar, mas é um gostar egoísta porque só tem em conta o seus desejos e a maximização do seu próprio bem-estar, sem atenção à agência do outro. É, feitas as contas, um gostar muito pequenino, muito autocentrado, e ninguém merece ser gostado dessa maneira.

22 comentários

  1. Concordo em absoluto. Qualquer relação deve ser pautada, mais do que tudo, pela honestidade e confiança. Se eu deposito noutra pessoa essa confiança e a pessoa aceita que eu o faça e promete-me o mesmo, então é para cumprir e levar a sério esse compromisso. Hoje em dia já não há formas de vida que choquem verdadeiramente, já nada é verdadeiramente diferente, inconcebível, por isso cada um pode e deve optar por ser e fazer aquilo que quer sem estar a pensar o que vão dizer de si. Querem ter muitas? Não se prendam só a uma. Já ninguém se choca com isso.

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  2. Continuo a achar que quem ama não trai. Faz-me confusão que amor e traição possam co-habitar na mesma relação. A traição é uma falta de respeito atroz que deixa marcas sérias e profundas durante muito tempo, nalguns casos, durante uma vida inteira. Trair a confiança de alguém é semear inseguranças nessa mesma pessoa. Por mais resolvida que uma pessoa seja fica seriamente abalada depois de uma traição. Como é que se pode, então, fazer tantos danos a uma pessoa que se diz amar?
    Quanto ao poliamor e relações abertas também me faz uma certa confusão. Não tenho nada contra, cada um faz o que quer, desde que ninguém se magoe tudo bem. Mas é-me difícil conceber a ideia de ser possível estar com mais do que uma pessoa ao mesmo tempo. O certo é que cada vez mais isso acontece e eu começo a sentir-me cada vez mais deslocada deste mundo.

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  3. Excelente análise que aqui fazes, Nádia - acho que a questão do pensamento crítico, e uma espécie de egoísmo generalizado, são fulcrais aqui. A honestidade nestes assuntos pouparia muitas dores de cabeça e de coração a muita gente!

    Jiji

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  4. Este texto está muito bem pensado e muito bem escrito.
    Concordo ponto por ponto. :)

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  5. Adorei o teu texto!!
    Tive uma relação e, achava eu, havia respeito e confiança mútua. Até que descobri que, enquanto estove fora, de férias, ele ficou cá a trair-me! E nem teve coragem de o assumir!
    A partir do momento em que quebram a minha confiança, acabou-se! Tudo!! Deixo de conhecer aquela pessoa.

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  6. "Pode gostar, mas é um gostar egoísta porque só tem em conta o seus desejos e a maximização do seu próprio bem-estar, sem atenção à agência do outro. É, feitas as contas, um gostar muito pequenino, muito autocentrado, e ninguém merece ser gostado dessa maneira." é isto... completamente de acordo!

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  7. Adorei a reflexão. Mas quem ama não trai, quem já amou é capaz...

    www.kiza.pt

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  8. Adorei o post! Como sempre, expões muito bem os teus argumentos e fazes-me pensar. Também sou uma pessoa naturalmente monogâmica e traição é das piores coisas que me podem fazer. Uma vez que a confiança se perde, é dificílima de recuperar.

    Há giveaway a decorrer no blog, participa! ♥
    Beijinhos, xx
    My Little Corner

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  9. eu acho que se trata muitas vezes de uma questão de falta de respeito e não de falta de amor!

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  10. Já tinha saudades de ler estes teus textos! Desta vez estou contigo a 100%... Até acredito que trair não implique falta de amor, mas implica falta de muitas outras coisas, como tão bem disseste. Quanto à falta de pensamento crítico, temos aí pano para mangas, porque há tantas coisas na sociedade que são exemplos disso

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  11. Gostei muito do teu texto mas, e atenção que pode ser prepotência da minha parte, mas acho que quem ama não trai. O problema é que numa sociedade tão dada a sentimentos velozes e intensos muitos perderam a noção da diferença entre amar e gostar. Quando se ama o bem-estar do outro torna-se tão importante como o teu próprio bem-estar e nunca, pelo menos não propositadamente, alguém iria querer magoar uma pessoa que ama.
    Lamento por quem é traído e por todo o sofrimento que está associado a essa traição mas tenho verdadeiramente pena é de quem nunca aprendeu a grandeza da palavra amor.

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  12. Eu acho que quem ama realmente não trai, eu sou um exemplo disso, estou com meu marido há 4 anos sendo 1 ano de namoro e 3 de casados, e nunca trai meu marido, nunca pensei nem nas horas de brigas ou grandes estresses, nunca dei chance p nenhum homem vir de conversinha fiada, é uma questão de respeito a ele e ao nosso relacionamento, não julgo quem faz eu fez, cada um com seu cada qual, mas eu me sinto completo por isso nunca fiz e nem quero fazer.

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  13. Traição é um comportamento cobarde, mesquinho.

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  14. Sou uma grande fã deste tipo de textos escritos por ti. Gosto muito da forma como escreves e acho muito interessante a forma como pensas.
    Acho que tens muita razão no que aqui escreveste.
    Um beijinho
    https://wallflowerbyines.blogspot.pt/

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  15. Realmente, se as pessoas que o fazem se assumissem logo como poligâmicos evitavam muitas chatices! Pode ser que leiam o teu post :P
    The Fancy Cats | Giveaway

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  16. "aqueles que inventam as próprias regras, como "se uma mulher teve mais que um namorado ao longo da vida não tem direito a exigir fidelidade de ninguém" -- mas que raio? Claramente a minha pequena incursão ao dito website não foi o suficiente para me chocar, que por esta eu não estava à espera.

    Realmente essa é daquelas expressões que nos são apresentadas desde pequenos e que calha muito bem dita em várias circunstâncias, mas o que não lhe faltam são pequeno buraquinhos de consistência. Pensando bem no assunto, acho que tens imensa razão. A questão não deveria ser centrada no amar ou não amar (embora nalguns casos, quando se parte para actividades extraconjugais, o puxão pode ter sido mesmo a perda do sentimento pela outra pessoa), mas sim em algo mais intrínseco como bem disseste - o respeito pela outra pessoa, e os conceitos de moral e ética. É este tipo de comentários que quase me faz querer ficar sozinha, sob pena de calhar com um destes casos "podres". Acho que não seria nada difícil ser-se honesto deste o princípio.

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  17. Gostei muito do texto, está bem escrito e bem fundamentado! Concordo com o que dizes, a monogamia está tão enraizada na nossa cultura que as pessoas não se apercebem de que há escolhas. Seria bem mais fácil se se apercebessem e tomassem uma decisão consciente de acordo com a qual agissem!

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  18. Como seguidora do shiu há já algum tempo tenho também a dizer que fico extremamente espantada com a reação de algumas pessoas à maior parte dos segredos, portanto estou a adorar esta série strangelove. Gosto do modo como desenvolves e concordo com a tua visão.

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  19. concordo em tudo contigo! adoro esta rubrica e a forma como falas sobre o tema :) beijinho, Sofia

    a tua opinião é importante: http://live-to-sparkle.blogspot.com

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  20. adorei o teu texto mas repara que se uma pessoa for honesta e disser, à partida, que pretende ter uma relação aberta já não se trata de uma traiçao. O que quero dizer é que muitas vezes o que motiva alguém a trair o companheiro é precisamente o facto deste não saber e se tornar tudo mais excitante, proibido, emocionante...

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    Respostas
    1. Sim, concordo contigo e refiro isso no texto. A ideia é mesmo essa: com tantos estilos de relacionamento à disposição, é indesculpável enganar outra pessoa. Quem quer essa constante emoção/excitação/whatever que escolha ter relações abertas ou poliamorosas, não engane alguém que pensa que entrou numa relação monogâmica.

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