A ideia que pode mudar o mundo: supermeat



Acredito genuinamente que a grande, grande maioria das pessoas não se sente confortável com a realidade da exploração animal. Ninguém, salvo quem sofra de algum grau de psicopatia, fica satisfeito ao imaginar os milhares de animais não-humanos que diariamente são forçados a entrar em matadouros - lugares de sangue, brutalidade e morte que perturbam até quem lá trabalha - para que lhes roubem as vidas em prol da nossa conveniência. Disso é sintomática a postura que muitos adotam em relação a quem escolhe não ser parte desse horror, como se ficassem genuinamente irritados por alguém lhes relembrar, muitas vezes apenas com a comida que traz no prato, de que também eles têm escolha. O perguntar pelo sofrimento das alfaces e o indagar por outras dimensões do caráter da pessoa que é vegan (dás esmola aos mendigos? Se não dás és mau e isso justifica que eu continue a comer animais!) são sintomas de que a pessoa, mesmo que não o admita, está inquietada. O tentar convencer-se de que esta é a realidade da pirâmide alimentar (ou, para os mais caústicos, o ciclo da vida) é outra instância dessa ilusão que alguns tentam criar...como se confinar galinhas em jaulas durante meses, em aviários permanentemente ilumidos para que ponham ovos continuamente ou inseminar artificialmente vacas e retirar-lhes as crias para obter um alimento - o leite - que não só não nos pertence como nos faz mal, como se algo disto ou algum dos milhentos horrores associados a estes processos pudesse, em alguma realidade, ser considerado natural.


O meu pressuposto de que as pessoas são, na realidade, mais sensíveis a este problema do que geralmente se pensa é reforçado pela postura que, enquanto sociedade, temos em relação aos animais que nos são mais próximos - o cão e o gato. Não concordamos que se abandonem ou espanquem animais e revoltamo-nos com os casos de negligência. E fazêmo-lo porque tal não afeta a nossa vida: nós não batemos nem abandonamos cães, por isso podemos insurgir-nos em pleno. Com uma vaca, um borrego, uma galinha ou um porco é diferente, porque condenar a atitude significaria termos que alterar as nossas práticas diárias. Todos condenamos quando a vítima é um cão, mas quando alguém tenta explicar que a vida de um porco (um animal igual ou superior ao cão a nível de inteligência) não tem menos valor (qualquer que seja o critério que usemos para definir esse valor), abdica momentaneamente da maioria das suas faculdades mentais e só consegue pensar "mas... carne" e começa secretamente a planear uma manifestação pelos direitos das alfaces. Por algum motivo muitas pessoas que comem animais adotam uma postura passivo-agressiva em relação aos veganos, partindo do pressuposto de que estes se consideram melhores pessoas que eles. Que essa ideia esteja na cabeça de tanta gente acaba por trair o que essas pessoas realmente pensam: elas, no fundo, também não concordam com esta indústria da morte, sabem que não participar dela é uma decisão altruísta e, por essa razão, acabam por desenvolver um sentimento de inferioridade que se traduz em recalcamento e ataque.


As pessoas, mesmo que o mascarem por via dos mais variados  artifícios, não são indiferentes. Se declarar-se a favor da vida animal não impactasse o quotidiano, a maioria estaria do lado do lado daqueles que decidem banir o sofrimento animal das suas vidas. A novidade é que isso poderá ser possível . Sim, sem alteração de hábitos, continuando a comer carne. É essa a proposta por detrás do Supermeat.







O Supermeat não é um produto alternativo à carne - esses existem e, apesar de em muitos casos o sabor replicar perfeitamente aquele do frango, da carne de vaca e do atum (entre outros), esses produtos são maioritariamente consumidos por veganos, especialmente aqueles que estão em transição. O Supermeat, por seu lado, é destinado ao consumidor de carne, porque é carne. Carne de cultura, cultivada a partir de células animais mas sem a utilização de animais - sem crueldade e muito melhor para o ambiente. O projeto está em desenvolvimento e penso realmente que caso consigam apresentar custos significativamente mais baixos poderá ter sucesso, especialmente se apontarem para as próprias cadeias de distribuição (que, neste cenário, passariam a comercializar a Supermeat em vez da carne de exploração). Se os números forem vantajosos, a indústria da morte de animais não-humanos pode ser ameaçada. Afinal, é o lucro que move a máquina da exploração animal... lembram-se das galinhas enjauladas e forçadas a pôr ovos continuamente, certo?


Podem saber mais sobre este projeto em supermeat.com



29 comentários

  1. Cada vez gosto mais de te ler.
    Já agora, será que podias fazer um post sobre como fizeste a transiçao para o veganismo? Desde o momento em que decidiste até efetivamente fazer a transiçao? Obrigada :)

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    1. Oh, fico muito feliz :)
      Posso sim, obrigada pela sugestão!

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    2. Eu decidi deixar de comer carne e leite/ovos, e a partir do momento q decidi, deixei de comer e pronto. Uma rápida pesquisa online elucida-nos quanto às alternativas. Passado cerca de 3 dias decidi q n comia mais peixe tb (decidi n cortar o peixe pra facilitar as refeições em família, mas rapidamente percebi q n seria capaz de o fazer muito tempo) e foi isso. Não é preciso grande "preparação". www.centrovegetariano.org e www.universoalimentos.blogspot.pt

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  2. oh meu deus, isto parece-me uma ideia perfeita... mesmo não sendo vegan, sou uma das pessoas que referes no post, que não gosta da ideia de saber que se matam e torturam animais apenas para a nossa sobrevivência, muito embora não planeie deixar de comer carne, pelo menos para já (primeiro, por conveniência e também por habituação). se esta ideia fosse divulgada e se tornasse "comum", seria algo maravilhoso para todos e para o planeta.
    no entanto, pergunto-me se as pessoas iriam aceitar este novo produto ou se iriam recusá-lo usando o pretexto de ser algo desconhecido.
    beijinhos, Noelle :) http://supergirlinconverse.blogspot.pt/

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    1. É ótimo, não é? Espero, pelo bem dos animais, que seja um empreendimento com sucesso.
      Só um reparo: os animais não são mortos para a nossa sobrevivência. Não precisamos de comer animais e seus derivados para sobreviver nem para sermos saudáveis. Somos até mais saudáveis sem.

      Um beijinho =)

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    2. Não somos mais saudáveis sem o consumo animal. O veganismo não se baseia na premissa da saúde, mas sim na diminuição do sofrimento animal.

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    3. Sim, o veganismo engloba vários comportamentos além da alimentação. Mas ao nível da alimentação, sou vegetariana pela minha saúde tanto quanto pelos animais. Mais que isso - só consegui deixar de consumir queijo e ovos (após vários anos sem comer carne e peixe) quando percebi que nos são nocivos. Em Portugal o mais comum é o veganismo motivado exclusivamente por razões éticas - e ainda bem! -. Já nos EUA, por exemplo, é muito usual que a primeira aproximação seja por via da saúde, e ao longo do caminho as preocupações éticas começam a formar-se.

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    4. O queijo, os ovos, a carne e o peixe não nos são prejudiciais. Estão contemplados na roda dos alimentos e o seu consumo é aconselhado. Uma coisa é escolher o veganismo por questões morais, outra muito diferente é recorrer à pseudociencia.

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    5. Há aí algum desconhecimento, que é normal. Sabes que os comités que lançam os pareceres 'oficiais' para a alimentação são altamente financiados por quem tem interesses económicos na indústria produção e consumo animal? Podes verificar isso numa palestra intitulada "Uprooting the leading causes of death". Poderia pegar em qualquer um dos que referes, mas a título de exemplo, como não nos seriam o leite e seus derivados prejudiciais? Um alimento pejado de hormonas, destinado a fazer crescer bezerros... Informa-te, que não há nada de pseudo aqui. Eu escolho o veganismo por razões éticas e pela minha saúde e bem-estar, em partes iguais. Podes espernear à vontade, querid@ anónim@, que eu aqui estou magra, saudável e a tentar respeitar os animais que comigo partilham o planeta.

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    6. Há imensas rodas dos alimentos q já não contêm lacticínios, tipo a de Harvard ;)

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  3. Adorei o facto de teres começado o texto a mencionar "animais não-humanos", porque na realidade acho que pouca gente realmente tem noção que nós, humanos, também somos animais, uma vez que pertencemos ao Reino Animalia.

    Como bem disseste no texto, a falta de argumentos em favor de um lado leva sempre a que essas pessoas sejam muito mais agressivas, e cujos argumentos acabem por cair muito facilmente. O projecto parece ser bastante interessante na teoria; é ver como é que se desenvolve na prática. Se já há tanta (re)produção celular artificial, só acho lógico que este projecto se associe a esta área de "investigação".

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  4. Não sou vegan mas concordo contigo :) Excelente post, toda a gente devia de ler e ter a noção!
    Beijinhos!

    https://missweetie.blogspot.pt/2016/09/serum-garnier-fructis-adeus-danos.html

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  5. Não sou vegan mas não concordo com a crueldade que os animais sofrem para nos dar alimento!

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  6. Se replicarem exatamente o sabor da carne e os nutrientes que ela oferece, acredito que possa ser uma alternativa perfeitamente válida.
    Se é igual - pelo menos no que descreves - e se for acessível (tanto em termos de distribuição como de carteira), acredito que possa ser viável em muitos países e empresas de restauração.
    Pessoalmente não poderia ser vegetariana (nenhuma das variações) mas não tenho gosto em saber as condições deploráveis em que alguns animais são tratados e esta parece-me uma alternativa inteligente embora receie que seja demasiado cara para ser um sucesso. Vamos torcer para que seja uma realidade democratizada :)

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    1. A ideia é que seja mais barato que as carcaças de animais mortos. A criação e matança de animais tem muitos elos - alimentação, água, espaço, transporte, pessoas para matar e outras para limpar os cadáveres, etc - e cultivar carne envolveria menos recursos, logo seria, à partida, mais barato. Fingers crossed!

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  7. Com recurso a bio e nano tecnologia tudo é possível e tenho a convicção que será um dos objetivos o futuro, ja que esta industrua esta em crescimento exponencial. Hoje em dia desenvolvem-se tecnicas em laboratorio de criacao de tecido animais para experimentação de modo a que se reduza o mais possível. Se esta ideia chegar tambem a alimentação seria imensamente incrível.

    porondeandaasofia.blogspot.com

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  8. Eu não sou vegan, adoro carne e não consigo viver sem ela, mas respeito quem tomou a opção de deixar de a comer. Sou sensível à questão dos animais, porque tenho mesmo pena deles e gosto de animais. Lembro-me em miúda que uns vizinhos mataram um porco e eu chorei o dia todo. A minha mãe até me disse para eu não chorar que assim o animal demorava mais tempo a morrer. Cenas de aldeia. Confesso também que hoje em dia já não gosto assim tanto de carne como antes. Mas acho que há um extremismo tanto por parte de quem decidiu optar por outro tipo de alimentação, como os que defendem o consumo da carne. A verdade é que o nosso organismo precisa dos nutrientes dela, assim como dos nutrientes dos vegetais e do peixe. Certo? Há que respeitar a opção de cada um, infelizmente não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar algo na nossa vida conforme a nossa consciência das coisas.Gostei de saber sobre a supermeat, parece-me bem.

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    1. Bom, eu estou aqui viva e saudável sem consumir nenhum produto de origem animal, portanto provo que não precisamos de animais e seus derivados. O nosso corpo precisa de nutrientes, mas aqueles que se encontram na carne encontram-se também em alimentos de origem vegetal.

      Quanto ao respeito... eu não respeito a decisão de comer animais. Respeito os indivíduos, porque sei que é uma prática culturalmente aceite e que a sociedade ainda não acordou em massa para esta questão. Mas onde há uma vítima, não posso respeitar a conduta. Extremismo é matar sem precisar, não é decidir viver tentando não prejudicar outros.

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  9. Eu respeito e admiro até, por não o ser em parte por conveniência e em parte por hábito, quem é vegan, desde que a decisão seja baseada em argumentos com alguma validade. Claro que em termos utilitários o resultado é o mesmo, esta decisão acaba por ter impacto benéfico de qualquer modo, mas eu não sou o Stuart Mill - para mim uma coisa é ser vegan como forma de protesto ou não-colaboração com a indústria animal e outra é ser vegan só porque se acha os animais fofinhos (nem incluo nestas categorias quem é vegan e come peixe). Por exemplo, na minha opinião (e, como é óbvio, há muitas outras), na possibilidade de haver a criação de animais de forma livre e o consumo equilibrado destes pelas pessoas sem alteração do seu ritmo de vida normal acho que o veganismo perde grande parte do sentido. Perante este cenário, acho que pelo menos parte da população vegan responderia negativamente quanto a se admitiria em tais condições o consumo animal. Penso que em parte isto demonstra alguma ingenuidade, roçando já o 'eu não quero comer animais porque eles são fofinhos'. A repulsa pela indústria animal e a repulsa pelo ciclo natural da vida são coisas diferentes e que as pessoas devem considerar diferentes, embora quando detentoras de qualquer uma delas as pessoas tenham direito a agir com conformidade.
    Claro que parece que estou a criticar uma posição sem ter direito de o fazer, uma vez que concordo com as premissas vegan e não o sou, mas estou a falar e pensar em termos unicamente racionais. Quem sabe esta vertente superará o hábito e não te escreve uma futura vegan (sempre foi uma opção por mim considerada, por isso não é improvável). :)
    Depois do testamento que para aqui vai, resta-me só dizer que achei essa ideia fantástica. Com os interesses que gerem as coisas tardou mais do que poderia, de outro modo seria de supor que com o grau de desenvolvimento que temos vindo a atingir tal alternativa chegasse mais cedo, mas mais vale tarde do que nunca! :)

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    1. Não há nenhum vegan que coma peixe. Se come animais e/ou seus derivados, não é vegan. :)

      A mim interessam-me as vítimas - os animais -, por isso é-me meio indiferente quais os motivos para a decisão. Obviamente, só é meio indiferente, porque sei que alguém que se torne vegan por motivos éticos provavelmente manter-se-á assim a longo prazo, enquanto aqueles com motivações mais frívolas terão posições mais instáveis. De novo, o meu foco está nas vítimas.

      A minha posição não é nenhuma das que relatas: não sou vegan por achar os animais fofinhos, mas não concordo com a matança de animais para consumo humano mesmo sob a bandeira de criação "ética". Para mim seria equivalente a ter escravos e tratá-los bem. Criar e matar seres sencientes para satisfazer o paladar é, para mim, anti-ético e nada tem que ver com o ciclo natural da vida. Mas se tens interesse nestes assuntos aconselho-te, de coração, a leres o Animal Liberation do Peter Singer. Acredito que, se partires para a leitura preparada para te deixares convencer por argumentos fortes e lógicos, perceberás aquilo que estou a tentar dizer.

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    2. Estava a ser irónica, tenho perfeita noção de que nem os vegans nem os vegetarianos comem peixe. Estava a referir-me às pessoas que se auto-intitulam de uma coisa ou outra quando comem peixe :)

      Eu acho que é preciso separar um pouco as coisas. Não considerar diferente quem é vegan por motivos válidos ou por motivos inválidos (claro que depende do ponto de vista, mas vamos fingir que é tudo a preto e banco) é o mesmo que dizer que quem faz voluntariado não é diferente de quem presta serviço comunitário devido a ordem do tribunal, ou que se a meio de um assalto um ladrão vai disparar sobre a dona na loja, falha e atinge o cúmplice é boa pessoa. Uma coisa são os efeitos do estilo de vida ou das ações de cada um e outra coisa são as motivações ou situações que levaram a este. Para mim, em termos morais, uma pessoa que é vegan porque os animais são fofos ou está em negação relativamente à morte não é melhor do que uma pessoa que come animais. Os efeitos no mundo da primeira são mais benéficos? São. Mas dizendo que esta não é melhor, neste aspeto, que a segunda não digo o contrário, apenas distingo as intenções do impacto que elas têm. Claro, este é o meu ponto de vista.

      Se os escravos fossem bem tratados deixariam de ser escravos. 'A matança de animais para consumo humano' é uma coisa que soa muito mal, mas 'a matança de animais por animais para consumo animal' nem tanto. Quando a primeira é um caso particular da segunda... Qual a diferença entre um animal morto e consumido por outro animal na selva e um animal morto por um humano depois de viver de forma próxima à sua forma natural de vida? Para mim, muito pouca. Para os animais também. Lá está, penso que aqui o problema passa a ser a repulsa pela morte os animais. A sua 'matança' não seria muito diferente da que haveria se os humanos fossem selvagens, apenas um pouco mais sofisticada e com técnicas, até, capazes de diminuir o sofrimento destes e evitar a morte precoce devido a pragas ou doenças. Matar seres sencientes para os incluir na alimentação é precisamente a base do ciclo natural da vida (desde que, volto a frisar, as condições associadas a esta não sejam as de agora), e não somos só nós, humanos, que fazemos isso, o que só reforça a minha ideia. Mesmo se nós não comermos nem matarmos animais haverá outros animais que serão mortos e comidos, de outra forma os mesmos animais (e nós) extinguir-se-iam. E comer carne não tem de ser uma questão de gula/paladar, pelo menos não mais do que, digamos, ingerir produtos vegetais.

      Claro, alguém pode argumentar que os outros animais comem animais porque não têm alternativa nem razão que lhes permita o contrário, e que a partir do momento em que somos dotados de razão suficiente para isso devemos fazer as nossas escolhas e definir o nosso ponto de vista. Não discordo nem acho que isso vá contra o que disse aqui :)

      Novamente, não estou a defender o consumo de carne ou produtos animais, porque sei que as condições que descrevo estão longe de ser reais.

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    3. Pela minha experiência, que vale o que vale, nunca conheci ninguém a intitular-se vegan ou vegetariano e a comer animais. Parece-me que é um bocadinho como a história das feminazis, propaganda reaccionária.

      Temos visões diferentes. A mim não me interessa se quem é vegan é melhor pessoa que quem come animais. O meu foco está nas vítimas, não em julgar indivíduos. Enveredar pelo caminho da avaliação moral da pessoa que é vegan ou não constitui um certo tipo de demagogia na medida em que nos desviamos das questão principal: matar um ser senciente é éticamente errado. No entanto, e como disse, mesmo no plano prático as motivações acabam por ter peso: uma pessoa que seja vegana por razões éticas provavelmente será vegana ao longo da vida e será mais ativa na promoção do veganismo, o que é mais benéfico para os animais. Ou seja, vejo relevância nas motivações, mas um tipo diferente de relevância daquele que tu identificas.

      Nenhum vegano sente repulsa face à morte de uma gazela por um leão, por isso posso dizer com confiança que o que está aqui em jogo não é a rejeição do ciclo natural da vida. Na verdade é o contrário: o veganismo sabe que, biologicamente, estamos muito mais próximos de um herbívoro que de um carnívoro, à semelhança dos restantes grandes primatas. E matar animais para sobreviver é a base do ciclo natural da vida para algumas espécies animais. Na verdade, a maioria das espécies é herbívora :)

      Mas o argumento da pena e da "fofice" dos animais não é completamente descabido. Eu chamo-lhe compaixão - não conseguiria olhar nos olhos de um animal que quer tanto viver quanto eu e matá-lo para obter um "alimento" de que não preciso. Não me parece que haja algo errado nisto... muito pelo contrário, aliás. E, voltando à questão inicial, eu considero-me uma melhor pessoa por não comer animais. Mas considero-me melhor em comparação comigo própria caso os comesse. Ser "melhor" ou "pior" está dependente de diversos fatores e não é quantificável.

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    4. Eu não tenho nenhum prazer particular em criticar vegans que não são realmente vegans :P Se disse o que disse relativamente ao ser (supostamente) vegan e comer peixe foi porque conheço casos... Não é nenhum contra-ataque, é um facto (sem que se pretenda com ele sequer criticar quem é vegan, até porque os visados não o são). Não é a dizer que quem defende a mutilação genital feminina se contradiz ao ser feminista que se contradiz o feminismo...

      Desde o início falei explicitamente em termos não práticos mas morais, que surgem inevitavelmente quando se fala em assuntos deste género. Acho até que não fui a primeira a fazê-lo, já que até em partes deste post se nota o julgamento de indivíduos (é inevitável, não estou a criticar). De qualquer forma, falei desde o início em respeito e admiração pela decisão quando tomada por determinados motivos, não negando que em termos práticos a questão era outra - apenas mencionei, em paralelo, a moralidade. Não nego que seja menos importante nem que, como dizes, 'não interesse' em termos de 'resultados', mas não deixa de ser um assunto que pode ser explorado como fiz. Em termos práticos é equivalente debater a nível individual o uso de armas nucleares ou não o fazer, mas isto não nos proíbe de pensar ou conversar sobre o assunto. Trata-se apenas de uma tomada de posição ética, o que não me parece tão irrelevante quanto isso. O 'argumento da fofura' faz-me sentido numa perspetiva utilitarista apenas, como disse (o que não é bem um atestado ao sentido do argumento, apenas o ignorar dele em prol dos resultados), de outra forma seria igualmente legítimo matar animais por se os achar feios/repulsivos.

      (E claro que ser melhor ou pior não é quantificável, referia-me a este aspeto em particular...)

      De resto, temos realmente visões diferentes... Percebo o teu ponto de vista mas não partilho dele :)

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    5. Temos, sim. É pena, neste particular, e entriste-me que ainda estejamos numa época em que alguém pode achar moralmente defensável um humano matar um animal. É uma posição que não posso respeitar, na medida em que respeitá-la significaria desrespeitar as vítimas.

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  10. Confesso que isto tem sido um assunto que tem crescido no meu interesse nos últimos meses. Já há alguns anos que não como carnes de porco e coelho, vaca muito raramente e tenho reduzido muito o consumo de frango e perú. Tenho verificado ainda que não me custa assim tanto fazer refeições que não envolvam a carne e, para ser sincera, há qualquer coisa que me anda a fazer desgostar de a comer (provavelmente o facto de saber mais do assunto, não sei). Leite também já deixei há uns meses e não tenho sentido falta.
    Não acho díficil nas minhas condições atuais deixar de comer totalmente carne - mas admito que relativamente ao peixinho e ovos a coisa é mais díficil. Mas não impossível! Como todas as coisas que abdiquei nem foi por imposição, mas sim por não me apetecer, pode acontecer o mesmo ao peixe e aos ovos! Se não peço-te uma ajudinha! :P
    Quanto ao projeto que falas já conhecia e como acredito muito na ciência e no avanço tecnlógico acho mesmo que vai ser uma alternativa viável em breve :)
    Óptimo post como sempre :)

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    1. Que bom, Adriana! De facto, quando começamos a conhecer a realidade e desde que não arranjemos artifícios para evitar pensar no assunto, algo muda em nós. Há pessoas que deixam de consumir todos os produtos de origem animal de um dia para o outro, mas também não foi o meu caso. Fi-lo ao meu ritmo e apesar de ter levado muito tempo -anos!- a eliminar os ovos e o queijo, sabia que era esse o objetivo.

      Eu digo isto sempre que me alguém me diz ter interesse no vegetarianismo: espreita os produtos do Talho Vegetariano (http://talhovegetariano.pt/produtos/o-talho-vegetariano.html)! Aqueles que experimentei são totalmente idênticos aos de origem animal, acho ótimo para quem está a deixar de consumir carne/peixe porque a comida é igual mas de origem vegetal. Adoro o "frango"!

      Beijinhos =)

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    2. Mas muitos produtos do Talho Vegetariano são ovolacto :/

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    3. StarBreaker, é verdade, mas pessoalmente acho que podem ser uma ajuda para quem está a fazer a transição. Eu como pouca comida processada e sinto-me fisicamente melhor com uma dieta mais "limpa", por isso não dependo desses produtos, mesmo daqueles que são 100% veganos, como o "frango". Mas quando estava em fase de transição procurava muito substituir a carne com proteínas vegetais processadas, porque a tendência inicial é tentarmos replicar os pratos a que estamos habituados. E nesse sentido acho que os produtos como os do Talho Vegetariano, mesmo que não sejam veganos, podem desempenhar um papel :)

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    4. Sim, eu concordo q pra quem está em transição possa ser óptimo, mas vejo muita gente a consumir sem ter noção q é ovolacto. Ou seja, vegetarianos estritos a ingerir produtos ovolacto pq o nome induz em erro... :(

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