A minha experiência de trabalho numa ONG

Talvez tenha uma visão um pouco heterodoxa sobre a relação das pessoas com o trabalho, na medida em que contrario a visão generalizada do trabalho como valor em si mesmo. Que uma pessoa seja uma boa trabalhadora, por si só, não me diz muito. A postura perante o trabalho tornou-se uma das principais medidas pela qual se julga o valor dos indivíduos e eu não posso concordar com essa ideologia. Por isso considero crucial, já que vivemos em sociedades em que temos pagar o direito a sobreviver e a ser gente que, no mínimo, encontremos algum interesse no que estamos a fazer. Que muitas pessoas (e é provável que todos o enfrentemos em algum ponto do percurso profissional) tenham que agarrar qualquer oportunidade, mesmo que isso signifique mal-estar e ansiedade oito (ou mais) horas por dia, não significa que devamos considerar que é essa a norma e que, por exemplo, alguém que recusa um emprego mesmo estando desempregado é preguiçoso. E neste particular tenho tido sorte, porque em todas as minhas experiências até à data encontrei um propósito maior que ganhar dinheiro. 


Quando referi de passagem a minha breve experiência numa ONG, sugeriram-me que falasse mais sobre isso. No início do verão de 2010 (ou 2011 - sou péssima a localizar acontecimentos no tempo), candidatei-me a uma vaga para integrar uma equipa de rua de uma Organização Não Governamental orientada para a defesa dos Direitos Humanos. Candidatei-me por achar que tinha chegado a altura de uma primeira experiência de trabalho, porque secundava os valores dessa ONG e, em grande parte, porque sentia que precisava de uma experiência intensiva de contacto com o público, uma vez que pretendia concorrer a mestrado e teria que passar pelas provas de defesa da dissertação, que exigem um certo à-vontade e desenvoltura que não são as minhas características mais fortes.  


O trabalho que fiz - abordar pessoas nas ruas de Lisboa, cinco horas por dia, para falar sobre Direitos Humanos e tentar persuadir o interlocutor a apoiar a ONG mediante o pagamento de uma quota mensal - é o oposto polar da minha personalidade. Não sou extrovertida, faladora ou particularmente apta na cena social. Mas, curiosamente, ultrapassei essas dificuldades no primeiro dia. Acho que tenho, em determinadas circunstâncias, uma certa facilidade em criar e interpretar um personagem, e durante aquelas cinco horas encarnava a persona necessária para o sucesso da minha tarefa. A contrapartida disto foi um crescente cansaço com o passar das semanas - se no início estava totalmente empenhada tanto na causa que advogava quanto no trabalho que me iria render um pagamento, no final já deitava direitos humanos pelas orelhas. Porque, afinal, é um trabalho muito cansativo, e acredito que o seja para qualquer pessoa. A nível físico exige-nos estar bastante tempo de pé, na rua, independentemente das condições climáticas, e a nível mental requer a resistência para lidar com a indiferença de alguns, o assédio e a agressividade de outros e chico-espertice daqueles que nos dão um número de telemóvel falso porque não têm coragem de dizer que não estão interessados. Também há aquelas e aqueles realmente interessados, simpáticos e acessíveis (e não são necessariamente os que querem/podem aderir e pagar quotas), mas não em quantidade suficiente para compensar a idiotice. 


No final, os meus objetivos foram cumpridos - tive a minha primeira experiência de trabalho, numa organização que vai ao encontro dos meus valores éticos e morais, recebi bastante acima do que é comum num part-time e, durante dois gloriosos anos, a minha ansiedade ao falar em público melhorou imenso (depois voltou com força redobrada, mas não vamos estragar o final feliz). No entanto, foram menos de dois meses que me pareceram muitos mais, dada a intensidade do trabalho e a roleta que é abordar e lidar com desconhecidos. Hoje, só o voltaria a fazer caso não tivesse outra alternativa - foi o trabalho certo na altura adequada.

15 comentários

  1. Para mim, aquilo que importa nisto do trabalho é, sem dúvida, "ter um propósito maior que ganhar dinheiro".

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  2. Admiro muito esse tipo de trabalho exactamente pelo que relatas: a imprevisibilidade do vosso público. Eu raramente estou receptiva a apoiar no momento as causas que me abordam porque gosto de ir ler um bocadinho sobre as mesmas e quando quero apoiar faço-o depois, pela net (sempre que possível). Mas sempre que tenho tempo, gosto de ouvir sobre as causas porque a paixão de quem está na rua em busca de ajudas é sempre um incentivo para que depois me chegue à frente e contribua.

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    1. Percebo-te - também sou um bocado avessa a comprometer-me assim. Acaba por ser uma decisão tomada por impulso e pouco ponderada (é claro que é essa a estratégia destas campanhas de rua, e pelos vistos tem funcionado).

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  3. Como se diz, quem corre por gosto não cansa. Acho que quando nos identificamos com a causa somos mais produtivos. Já passei por um call center, onde não me identificava de todo com o que produzia, e foi um martírio. Por outro lado, já fui mal paga num emprego que me fazia sentir como contribuinte para melhorar o mundo, e foi uma das melhores experiências laborais que tive. Já fiz também voluntariado e adorei. Foram experiências que ficaram e que me fizeram aprender que aceitar qualquer coisa nem sempre é a melhor opção. Aliás, tirei a licenciatura em jornalismo porque estava tudo tão mau (já cá estava o início da crise) que mais valia estudar uma coisa que me agradasse. Mal por mal ... :)

    Beijinho,
    Vanessa

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  4. Acredito que deve ser mesmo um trabalho super cansativo, mas também acredito que tenha sido das melhores experiências pela qual poderias ter passado <3
    Beijinhos,
    An Aesthetic Alien | Instagram | Facebook
    Há giveaway Oriflame a decorrer no blog :)

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  5. Não consigo abordar desconhecidos, tenho vergonha....

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  6. Nádia, agora fiquei curiosíssima: não nos queres dizer qual a ONG em que trabalhaste?

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    1. Não referi no texto porque não sabia se deveria, mas foi a Amnistia Internacional :)

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    2. Eu sabia! :)

      Gosto muito da Amnistia Internacional, e acho até que os seus colaboradores são (regra geral) os melhores que já encontrei. ou então eu sempre tive sorte, mas todas as pessoas da Amnistia que já falaram comigo foram impecáveis e deixaram-me com vontade de ajudar, sem que me sentisse obrigada a ajudar - ao contrário de muitas, muitas outras organizações em que as pessoaspessoas são insistentes, desagradáveis e quase te insultam se não quiseres ou não puderes contribuir.

      Até já ponderei voluntaria-me para esse tipo de trabalho com a AI. E fico mesmo feliz por poder apoiar o trabalho que eles fazem, e por haver alguém a fazer esse trabalho.

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  7. Parece ter sido uma ótima experiência!

    Beijinhos
    That Girl

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  8. Não conhecia esses suplementos mas fico à espera do teu feedback. Devem ser ótimos :)

    Que depoimento tão bom. Serve de aprendizagem também para nós. Além disso é uma forma de conhecermos um mundo que, à partida, não nos passa tão ao lado. Trabalhar com o cidadão não é fácil, e essa tarefa que desenvolveste não é melhor, até porque ninguém gosta de ser abordado na rua. Ainda assim retiramos sempre grandes ensinamentos!

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  9. Este Verão também trabalhei numa ONG relacionada com o ambiente. Estive a falar com pessoas, recolher apoios e fundos para a organização. Não sou extrovertida, por isso, foi um desafio mas no final gostei bastante. Para mim, as pessoas simpáticas e dispostas a ouvir, principalmente as crianças, compensaram muito as pessoas antipáticas.

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  10. A tua experiência parece que foi incrível, eu não sei se conseguiria fazer esse trabalho, porque sou super tímida e não sei se conseguia assim falar com pessoas desconhecidas no meio da rua

    Por onde anda a Sofia?

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  11. Esse tipo de experiência é mesmo enriquecedora, embora canse muito (principalmente quando está fora da nossa zona de conforto).
    Uma altura também fui falar com as pessoas que passavam na rua e distribuir panfletos e fiquei traumatizada, nunca mais recusei pegar num panfleto quando me ofereciam :P Pronto, não foi assim tããão mau, mas as pessoas põe um ar presunçoso e ignoram quem está a falar e isso é *ligeiramente* irritante. :P

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  12. Sou sincera, eu aprecio o trabalho que a Amnistia Internacional faz e reconheço valor das lutas que travam por todos nós e ia juntar-me até ver a forma como as pessoas que estavam a distribuir os panfletos faltaram ao respeito e humilharam pessoas com quem eu estava só porque lhes responderam que não se iam comprometer sem falar com os pais até porque não tinham rendimentos deles, pelo que tinham de primeiro falar com os pais. A forma como os trataram, tendo eu assistido àquilo, fez-me não querer aderir sobretudo sabendo que há outras organizações não governamentais que também travam lutas dignas e também precisam de apoios.
    Fora este pequeno aparte, fico muito feliz por saber da tua experiência!

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