Alerta série: The Crown

Elizabeth II e Winston Churchill em The Crown



De vez em quando, surge uma série que é tudo o que poderia pedir. Com exceção de pouquíssimas (entre as quais o saudoso Lost é o melhor exemplo), só assisto a uma mão-cheia de boas comédias (displicentemente) e a séries históricas ou de época (religiosamente). Downton Abbey, The Tudors, The Borgias, Wolf Hall - cada uma destas deixou o tipo de saudades relatado pelas pessoas que gostam muito de ler, ao terminar uma grande viagem literária. Em Wolf Hall, mini-série sobre Thomas Cromwell, o ambicioso estadista que serviu sob Henrique VIII de Inglaterra, Claire Foy interpretou Ana Bolena, a segunda rainha consorte do rei e a primeira a ser condenada a um destino trágico. Gostei tanto da interpretação da atriz que passei a associar a figura histórica à imagem da Claire Foy, apesar de ter visto outras cinco atrizes no mesmo papel. Em The Crown, série de 2016 da Netflix, Foy é Elizabeth II - e é ainda melhor. 


Não sei o que pensaria se ainda existisse uma monarquia em Portugal mas, muito provavelmente, olharia a família real com o mesmo asco com que olho para as famílias mais tradicionais e antigas, aquelas da caça, das touradas e da direita conservadora, todas coisas que abomino. No entanto, nos países dos outros, a coisa é diferente. Não tenho nada contra ou a favor de membros específicos da realeza europeia e vejo a Coroa, enquanto instituição, como uma sobrevivência do passado -um bocado como quando vou ao supermercado e vejo os rebuçados peitorais Dr. Bayard ou entro numa papelaria e está lá o novo número do almanaque Borda d'Água. O passado tem um certo apelo - principalmente o passado mais remoto, em que a existência da pintura em vez da fotografia e do vídeo conferia um certo caráter de reverência à pessoa representada, que adquiria um estatuto para lá de humano. Isso, claro, estava a mudar na época em que Elizabeth II subiu ao trono. 


O mundo econtrava-se em palpável mudança (pagava para poder ter vivido a experiência de alguém que nasceu no início do século XX e atravessou as maiores alterações a que o mundo assistiu num curto período de tempo): a Europa tinha atravessado duas Guerras Mundiais, com todas as alterações estruturais que estas provocaram a nível social, económico e tecnológico. A sua cororação foi a primeira a ser transmitida na televisão e, com isso, perdeu-se muito da reverência concedida e preservada pelo mistério. Instituições como a monarquia, que repousam no princípio básico da superioridade do monarca (uma superioridade que implica tanto privilégio quanto dever) por virtude das circunstâncias do seu nascimento, perdem muito do seu poder quando o povo percebe que o soberano é, na sua essência, igual a ele. Hoje as casas reais europeias não têm poder sobre as respetivas políticas nacionais. O "povo" transformou-se em "público". E o papel da rainha (que, além do Reino Unido, é soberana em mais de uma dezena de países, entre os quais a Austrália, Nova Zelândia e Canadá) resume-se, em grande parte, a manter o delicado balanço entre a esfera pública e a privada, sempre com o dever de preservar a instituição anacrónica da monarquia e valorizar a Coroa acima das vontades individuais - as suas e as dos restantes membros da família real.


Pela minha parte, é impossível não nutrir uma certa admiração pela Rainha. A personagem histórica que mais admiro é o Thomas More - tenho um fraquinho por pessoas estóicas, que fazem prevalecer os seus valores em detrimento de qualquer noção de conveniência e levam isso até às últimas consequências. Para More, que viveu numa época terrivelmente sanguinária, isso implicou perder - literalmente - a cabeça. Para a rainha, implica ser vista, não raras vezes, como uma pessoa a quem falta humanidade. A série não será um retrato exato da vida privada de Elizabeth, mas acho que ajuda a humanizar a figura e a perceber as suas motivações e um pouco do seu caráter (sabiam, por exemplo, que aos dezoito anos e depois de muita insistência junto do pai, o rei George VI, a princesa serviu como mecânica e motorista nos meses finais da Segunda Guerra Mundial?). The Crown é uma série brilhantemente escrita, dirigida e interpretada, na qual nenhum detalhe é ignorado. Vi a primeira temporada em menos de uma semana e fiquei desgostosa ao ler só teremos a segunda no outono de 2017. Com uma classificação de 9.1 no IMDB, é imperdível para os amantes de ficção histórica.


Elizabeth em fotografia oficial

14 comentários

  1. Não conheço essa série, mas parece-me bem...
    também gostava do Lost

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  2. Vou no sétimo episódio e estou a gostar bastante. É uma grande série e ainda bem que vai continuar por uns anos :)

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  3. Quero tanto ver! :O
    Se gostas deste tipo de séries aconselho-te: Outlander e Reign

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    1. Esta série joga num campeonato em que Reign não participa. Das que referi, todas (e particularmente The Crown e Wolf Hall) são esforços sérios de reconstituição histórica. Reign é uma espécie de Gossip Girl.

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  4. é a serie que estou a ver neste moment e estou a AMAR! mesmo mesmo mesmo! está muito bem feita!

    beijinho
    the-not-so-girlygirl.blogspot.com
    the-not-so-girlygirl.blogspot.com

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  5. Segundo post que leio hoje sobre esta série, começo a achar que ando a perder uma coisa bem boa :)

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  6. Adorei o texto, fiquei cheia de vontade de ver a série! Gosto deste tipo de programas, mas confesso que não os vejo frequentemente, principalmente por não os ter disponíveis na televisão (e não achar grande coisa ver séries no computador) ou não ter conhecimento deles. :)

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    1. Eu também prefiro ver séries na televisão, nada é comparável ao entusiasmo de esperar pelos episódios todas as semanas. Mas esta é tão, tão boa que isso se tornou irrelevante :)

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