Sou anti-praxe?

Nunca senti grande motivação para falar sobre a questão da praxe académica, até à altura em que alguns de vós deduziram qual seria a minha opinião sobre o assunto e sugeriram-me que elaborasse sobre o meu ponto de vista. À superfície, a resposta é simples: não sou anti-praxe. Ser contra implica uma oposição ética a algo que, regra geral, se configura como uma prática que prejudica direta e intrinsecamente seres sencientes, humanos ou não, que são participantes involuntários ou coagidos, pelas suas circunstâncias económicas, culturais ou sociais, a participar. E, apesar de existir no exercício da praxe uma clara componente de pressão (a principal razão citada para participar é a da integração, sendo que a maioria vê pelo menos algumas das atividades feitas em nome da praxe como um mal necessário) - não considero que exista realmente coação naquelas universidades onde a escolha de não participar não se faz acompanhar de uma segregação compulsiva.


E no entanto, apesar de não ser abertamente contra, eu não participei na praxe, porque não concordo com o conjunto de valores e determinações que a constituem. O meu posicionamento flui de duas motivações: uma a nível pessoal, outra ao nível estrutural. E ambas decorrem da forma como encaro aquela que é pedra basilar da praxe, que é, na sua essência, uma organização hierárquica. A nível individual, os valores e as práticas da praxe formam o contraste perfeito da minha personalidade. Sou uma pessoa naturalmente inquisitiva e desde que me lembro me pergunto porque é que as normas socioculturais são as que são - porque é que comemos animais? Porque é que devemos respeito unilateral aos mais velhos? Porque é que só as mulheres usam saia? Às vezes o questionamento é tão-só curiosidade intelectual - a vontade de saber como determinada prática se formou - e outras vezes torna-se mais do que isso. Certo é que a minha reação face a uma ordem no âmbito da praxe seria perguntar à pessoa trajada por que raio teria eu que encher cinco flexões ou porque é que me sujaram de farinha.  


Não reconheço que alguém, apoiado apenas no facto de ter mais matrículas que eu, tenha a autoridade para me mandar fazer seja o que for. Eu não concordo com nenhuma praxe porque não considero que aquelas pessoas tenham o poder para me dizer o que fazer - e aqui não importa se é dar um passo em frente ou simular um ato sexual, porque é do princípio que discordo. Muitas vezes, a autoridade reveste-se de uma característica curiosa, no sentido de que o poder de determinada pessoa apenas existe na condição da sua validação pelo dominado, e eu não validei a precedência dos trajados sobre mim. Não creio precisar de referir a componente manifestamente sexual de diversas praxes - o simular sons, posições,  etc. - bem como os degradantes gritos ou lemas dos cursos e instituições (o da minha antiga universidade é "ISCTE, ISCTE, conas abertas, caralhos em pé!", um charme), ou a categorização dos caloiros como "bichos" ou "bestas", coisas a que sempre me oporia caso tivesse participado. O problema da praxe é de raiz e dispensa as características das suas práticas mais ou menos fluidas para ser confrontado.


Claro que quem participa racionaliza este acatamento de ordens com a ideia de que a praxe é um ritual de integração que lhes facilitará ou enriquecerá a vida académica. Estou certa de que haverá aqui alguma verdade, porque é uma prática que fomenta a proximidade e a entreajuda (pudera...), mas será que alguém acha realmente que na ausência de praxe os estudantes não socializariam e que não se formariam amizades? Porque é isso que se passa no secundário, certo? No entanto, de todos os argumentos a favor da praxe, o único que considero realmente perigoso é aquele segundo o qual a praxe seria uma espécie de treino para a vida. E não na vertente de entreajuda que referi, mas no sentido de aprender a acatar regras e não questionar aqueles que estão numa posição de poder superior à nossa, uma espécie de treino para a vida adulta e laboral. Isto sim, é perigosíssimo, e é algo incutido pela praxe mesmo que não seja sempre verbalizado, porque a praxe é muito isto: obedecer a outrém com base numa precedência arbitrária de uns sobre outros. Se eu tivesse decidido, como espécie de experimento social, participar da coisa, teria ouvido, a determinada altura, alguém a mandar-me pular, ou gritar, ou fazer abdominais. E eu, talvez não à primeira vez, mas certamente no primeiro dia, teria respondido com um "faz tu", antes de virar costas e abandonar a palhaçada.

21 comentários

  1. Que texto tão bem escrito e que espelha exactamente a minha opinião. Eu não gosto de praxes, sou anti-praxe mesmo. Digo-o sem problemas. Mas a tua opinião e a forma como a explicas e justificas está mesmo incrível :) Escrevi um texto sobre o assunto há uns tempos: https://entreosmeusdias.blogspot.pt/2015/09/como-prometido-vamos-la-falar-de-praxes.html

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    1. Bem... a tua curta experiência espelha tudo o que me dá asco da praxe, desde os berros à ordem de simular orgasmos, até ao ridículo de escrever médias na testa. Também li os comentários e gostei particularmente da sugestão de que quem não quer ser humilhado se leva demasiado a sério... só isto dava outro post.

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  2. Eu era daquelas caloiras que estava SEMPRE na praxe, confesso. Mas na verdade concordo contigo. A cena é...a nossa praxe era porreira. For real. Tinha o seu quê de hierarquia, óbvio, mas a qualquer momento tínhamos liberdade para um "não faço" e bom, havia barulho, mas não fazíamos e acabou. Basicamente era a minha sessão de acefalia semanal, pronto. Depois passei para o segundo ano e a coisa mudou de figura - acho que só me apercebi de quão estúpido era andarmos para ali a "mandar" uns nos outros quando passei a andar vestida de preto...e desisti. Não era para mim. Porque na verdade concordo contigo - não pela questão da violência ou seja lá o que for, porque na FEUP não é nada assim e é tudo boa onda, mas pelo princípio que lhe está adjacente. Por isso, mesmo tendo sido praxista e continuando a achar que é uma óptima maneira de passar um bom bocado como caloira (reforço, na minha faculdade era, mas sei que há muitas em que era preciso era chegar o fogo a tudo o que é traje), reconheço que é uma estupidez pegada.

    Jiji

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    1. Só podias ser das poucas pessoas que participa da praxe sem levar ali uma lavagem cerebral e passar a defender o sistema e a hierarquia com unhas e dentes :)

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  3. Parabéns pelo teu texto, não me restam quaisquer dúvidas de que escreves muito bem e sabes expor os assuntos.
    Concordo contigo, durante o meu ano de caloira participei em algumas praxes e outras não por as achar estupidas mas a partir do momento em que um "doutor " me chamou besta nunca mais participei da praxe.
    A praxe é uma estupidez que apenas serve para estupidificar o ser humano fraco que durante toda a sua vida não apreendeu a dizer não .
    Sendo a universidade uma instituição para levares a cabo os teus estudos superiores, é inconcebível que exista uma praxe tão rudimentar e que esses "doutores" sejam cegamente seguidos como líderes.
    A praxe devia servir para mostrar a cidade aos caloiros, indicar onde os caloiros se devem dirigir para resolver determinada situação e devia servir, isso sim, para fazerem actividades em conjunto, tipo tertúlias, idas ao cinema , teatro e claro, também bares e discotecas.
    Beijinhos e boa semana.

    misscokette.blogspot.pt

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    1. Ahah, quase me esquecia da mania de se apelidarem de "doutores", também tem graça. Conheço malta que foi praxada, praxou ("doutoras", portanto) e depois sairam da universidade sem acabar o curso. Mas pronto, a praxe existe completamente à parte da academia, nem faria sentido de outra forma.

      Eu concordo com estratégias de integração como as que falas (não senti necessidade delas, mas não somos todos iguais e há alunos que acabam de se mudar para uma nova cidade, é normal que se sintam desorientados), mas então não seria necessário chamá-las de praxe. Seria os alunos mais velhos a acolherem os recém-chegados, sem hierarquias e ideais bacocos.

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  4. Adorei a tua opinião! Eu não vou a todas as praxes, vou só a algumas e confesso que às vezes me irritam certas coisas mas foi graças à praxe que conheci mais pessoas e que me integrei melhor!

    Beijinhos
    That Girl

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  5. Clap, clap, clap. Finalmente alguém que acha o mesmo que eu. A primeira coisa que eu disse quando me disseram "ah, a praxe ajuda-te para a vida porque ensina-te que tens de respeitar os teus superiores e ensina-te a engolir sapos". Primeiro acho idiota um dos argumentos ser "ensina-te a engolir sapos". Porque sim, podem existir momentos na vida em que tenhas de os engolir mas a praxe não te ensina isso: a vida ensina-te isso e certamente quando tens 18 anos já terás engolido algum. A praxe não ensina, faz questão de te mostrar como é engolir sapos. Segundo, ensinar a respeitar os superiores? Mas estas pessoas nunca tiveram pais, avós, professores? Como tem sido a vida deles até aqui para só agora aprenderem a respeitar os superiores?
    Já para não falar na forma duvidosa como são eleitos os "superiores". Queres saber a melhor? Eu andei na praxe e se houve algo que a minha praxe me ensinou foi que os doutores eram todos uns palermas que achavam que podiam gozar com os outros só porque lhes falta mimo em casa. Que achavam que pertencer à praxe era um privilégio e faziam a vida negra a quem faltava a 1 praxe por exemplo - sim sim, fui posta de lado na praxe porque faltei a 1 dia de praxe (durante a tarde) porque tive de fazer um exame àquela hora mas apareci numa festa, à noite. Meteram-me num canto porque eu não merecia a praxe. E foi aí que me levantei e vim embora, e os mandei a todos para o caralho.
    Mas atenção, eu acredito que não seja assim em todo o lado, claro. Uma colega minha de aveiro disse que a coisa mais parva que fizeram enquanto caloiros foi brincarem com iogurtes - atirarem iogurte uns aos outros, vá. Os doutores eram respeitados, sim, mas todos se olhavam nos olhos, ninguém era tratado como besta, não andavam de 4 nem sequer eram castigados. Eu digo às pessoas que estão a entrar na universidade para experimentar, para não se focarem na minha experiência. Mas esses argumentos são de uma tacanhez hedionda.

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    1. De todas as coisas idiotas envolvidas na praxe, o argumento de que é uma preparação para a vida é o mais idiota. Podia não saber grande coisa aos 17 anos, mas sabia que não queria esse tipo de "treino" e mantenho que vou lutar sempre contra os abusos de uns sobre outros. Só posso esperar que não levem realmente estes ensinamentos para a vida futura.

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  6. Só tenho uma coisa a acrescentar: a forma como a hierarquia da praxe é definida é absolutamente ridícula. No meu curso, o rei dos veteranos era um rapaz que já ia na oitava matrícula, sem acabar o curso. Eu repito: ele andava há *oito* anos a fazer um curso de três, e por causa disso era a autoridade máxima. Mas alguém achará que isto faz sentido...?

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    1. Isso é porque a autoridade no contexto da praxe não advém do mérito académico. E até seria estranho que assim fosse, porque a essência da praxe contraria os próprios valores da academia.

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    2. Certo, mas não só o facto de a autoridade não advir do mérito académico: ela vem efectivamente do insucesso académico, o que é pura e simplesmente absurdo!

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  7. Mais uma vez, eu adoro o que tu escreves, e não podia deixar de concordar com cada linha que escreveste. Sou exatamente da mesma opinião. Também não fui à praxe, porque é que acham que rebolar na relva o dia todo e ser chamada de "verme" me vai ajudar a socializar com os meus colegas? Não fui à praxe e tenho amigos na mesma, não entendo porque é que alguém um ou dois anos mais velho pode vestir um traje e achar que faz de mim o que quiser, e não percebo como é que alguém se sujeita a isso na esperança de ser integrado.

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  8. A praxe não é mais do que um abuso de alguém sobre outro alguém sem que o primeiro tenha o menor direito de o fazer sobre o segundo. Como qualquer outro abuso, é de todo urgente que seja combatido. Defendo a sua proibição porque existirão sempre aqueles que não terão força suficiente para ir contra o que está instituído e acabam por se sentir coagidos a participar. Fracos e oprimidos existirão sempre e os mais fortes têm a obrigação moral de os defender. Não reconheço nenhuma hierarquia dentro da classe estudantil e por essa razão nunca permiti que me dessem ordens. A antiguidade, a meu ver, não é um posto e os direitos são iguais tanto para um veterano como para um caloiro. Para além disso, sob a capa da integração e de uma autoridade inexistente cometem-se atropelos da mais básica dignidade humana. Mais uma vez, o meu aplauso pela tua forma de estar e pensar.

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    1. Percebo a tua posição, mas proibir a praxe é virtualmente impossível porque tratam-se de adultos que, intimidados ou não, deram o seu consentimento. O que as universidades podem e devem fazer é proibir o exercício da praxe no campus e promover alternativas. O ISCTE (que é o caso que conheço de perto) já implementou ambas essas medidas :)

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    2. Se a proibição for decretada por lei, como defende o BE há muito, esse cenário afigura-se como possível. No entanto, as coisas estarão muito mais facilitadas se os primeiros passos forem dados pelas próprias universidades. Desconhecia que o ISCTE já tivesse enveredado por esse caminho, mas manifesto aqui o meu apreço por terem tido essa coragem. Eu venho de outra realidade, infelizmente. Na Lusófona, a praxe parece ser algo intocável, mesmo com o escândalo do Meco. Quando de lá saí, a palhaçada era a mesma da altura em que entrei. Quando é a própria administração a proteger quem prevarica fica mais complicado.

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  9. Acho que depende muito de quem faz a praxe a quem. Se nos calhar alguém que tenha o mínimo de princípios até pode ser uma coisa muito gira de se fazer, mas caso contrário chega a ser um grande, grande abuso...
    Beijinhos,
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    Há giveaway Oriflame a decorrer no blog :)

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  10. Eu fui praxada e até gostei! Provavelmente porque no meu curso faziamos as coisas de forma diferente. Durante a praxe havia a "hierarquia" mas fora, nomeadamente em jantares ou saídas nocturnas eramos como iguais. Alias, os meus doutores não deixavam ninguém ir embora sozinho, principalmente de noite, eram muito protectores das suas "bestas" xD. Para além disso fizemos praxes muito engraçadas tipo praxe fotográfica pela cidade e a praxe natalícia, em que fomos para o centro de Braga cantar músicas de Natal e angriar dinheiro para a Cruz Vermelha. Eu simplesmente recusava-me a fazer coisas que não queria e eles também não insisitiam muito. Enchiamos, sim, pranchas e abdominais, mas pelo menos não precisava de ir ao ginásio. Tinhamos cânticos e guerras de curso, coisas um bocado parvas para quem não gosto ou para quem é mais velho (porque eu, 5 anos mais tarde já não acho piada nenhuma). Como disse uma comentadora acima, era o meu momento de aparvalhar
    Quando fui praxar, odiei! Gritar ordens a pobres indefesos, mandar sem mais nem menos, fez-me imensa confusão, por isso deixei a praxe aí.
    O mais engraçado é que o meu grupo de amigos atual é quase tudo gente que eu não conheci na praxe.
    Por onde anda a Sofia?

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  11. Olha qie giro, também sou do ISCTE (psicologia), assim como o meu marido (OGE), mas no meu tempo por lá, não havia esse lindo grito, felizmente. Fui praxada, de forma muito suave e sempre que recusei algo ou que me quis vir embora, nunca me aconteceu nada. Foi bom só para conhecer a turma mais rapidamente e os veteranos do meu curso que nos ajudaram e orientaram sempre que precisávamos. Quando passei a "veterana" não praxei uma única alminha, porque me parece absurdamente ridículo.

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  12. Muito bem pensado e muito bem construído. Não tenho nada a acrescentar a não ser o facto de, também eu, aos 15 anos, na Rua de Santa Catarina no Porto (onde se fazia muito "disto"), ter percebido que "aquilo" nunca seria para mim. E não foi e não me arrependo.

    Gosto muito de ler os comentários daqueles que por aqui vão passando. É um cenário muito diferente daquele que encontro noutros blogues. Obrigada a essas pessoas. :)

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  13. Concordo bastante contigo! Agora nem tanto, mas no início do ano letivo é costume deparar-me com relatos de quem vai às praxes e não gosta nada e fico realmente triste por haver quem se veja numa posição tão má. Os caloiros são pressionados com a desculpa da integração, participam por medo de serem postos de parte, e depois aguentam porque tem de ser... Por vezes com ansiedade devido a isso, quase com medo de ir à praxe. Não digo que seja mau para toda a gente, por cada pessoa que não gosta há outra a dizer que é a melhor experiência de sempre, mas basta o mal estar que provoca em alguns para me convencer de que não é um ritual benéfico.
    A desculpa do aprender para a vida parece-me disparatada por vários motivos, mas pronto. Cada um com a sua convicção...

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