A Internet, a gratificação instantânea e a minha crise de leitura

Quando eu era pequena, gostava muito de ler. Primeiro banda desenhada da Disney e da Turma da Mônica, depois Harry Potter e outros livros juvenis. Lembro-me de, num verão, passar dias inteiros a ler a Ordem da Fénix, e acho que nunca chorei tanto como quando o Sirius, o padrinho do Harry, morreu. Foi como se estivesse lá e, embora não tenha voltado a ter exatamente a mesma experiência com outros livros, continuei a ler e a apreciar a leitura. Com a Lolita de Nabokov comecei a descobrir as obras dos grandes autores: Melville, Tolstói, Dostoiévski, Austen, Flaubert, García Marquez, Saramago, Steinbeck... E, a cada história, conhecia essa sensação de imergir (umas vezes mais, outras menos) num universo diferente. Acho fantástica a forma como os livros nos permitem estar fisicamente presentes num sítio, seja o nosso quarto ou o comboio, enquanto a mente está tão além que, quando alguma coisa nos força abruptamente a regressar, ficamos espantados por não termos saído de onde estávamos quando começámos a ler. Mas esta é uma sensação que já não reconheço: nos últimos anos, quando - raramente - li algum livro, não foi com entusiasmo. A culpa é da minha relação com as tecnologias digitais.


Este ano terminei apenas um livro. Não foi por falta de tempo ou de livros que me agradem. Li como quem desempenha uma tarefa, porque achava que, se forçasse, cedo entraria no ritmo. Mas, no final de cada página, tinha vontade de puxar do telemóvel. Espreitar as novidades nos grupos de Facebook de que faço parte, ver umas Insta Stories ou consultar o e-mail. Se estivesse em casa, começava a pensar que preferia estar a ver um vídeo no Youtube ou uma série. Eu, que tinha passado anos a detestar computadores e a resistir ao canto de sereia da Internet e das redes sociais, percebi que estou completamente absorvida. Acho que é mesmo a palavra acertada: a Internet é como a toca do coelho da Alice no País das Maravilhas e tem o poder (se deixarmos, claro, mas esse potencial é intrínseco à natureza da Internet) de nos absorver e manter fixados. Quem nunca se sentiu preso ao computador, ao final do dia, sem mais necessidade de o manter ligado, mas sem vontade de desviar o olhar? Eu senti, inúmeras vezes. Só mais um vídeo do Buzzfeed, só mais um episódio desta série de que nem gosto assim tanto. Temos o mundo inteiro ali, virtualmente qualquer informação que quisermos à distância de um clique. E é fascinante, e maravilhosa, a forma como nos facilita a vida de tantas maneiras e nos permite expressar a nossa criatividade e opiniões através de plataformas como o Youtube, o Blogger ou o Instagram, ou mantermo-nos ligados a amigos através do Facebook e WhatsApp. Mas é também desgastante para quem, como eu (e, acredito, cada vez mais pessoas), não se consegue desconetar. À imagem de um cyborg, é como se o smartphone já fizesse parte da nossa mão.


Na minha dissertação de mestrado, sobre a relação da mente humana com as tecnologias digitais, escrevi sobre o poder contido na Internet que pode, até, modificar a própria estrutura da nossa consciência. Um exemplo disso é o declínio de certos mecanismos de lembrança de informação: tendo toda a informação no bolso das calças, há muitas coisas que já não precisamos aprender. A Web deu-nos muito, mas acredito que também vá tirar - afinal, estamos só agora a assistir às primeiras gerações nascidas na era das tecnologias digitais, que cresceram com elas como nós crescemos com a televisão, mas que têm um poder que a televisão não tem. E vai ser engraçado ver de que formas nos irão transformar, até porque a mudança não tem que ser má, pode apenas ser... diferente. Até lá, o que gostava mesmo, mesmo, era de me enroscar com um livro à lareira (ou ao radiador, não sou esquisita) e ser transportada para outro mundo, sem a inquietação de estar ligada à rede que nos une a todos e à informação na Web.

18 comentários

  1. Como te compreendo! Antes adorava ler, devorava um atrás do outro! Agora, mal começo, já não tenho forças para continuar. Parece que todos os livros me aborrecem... Tenho de voltar à leitura!
    Um beijinho grande*
    Vinte e Muitos

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    1. É precisamente o que sim... que frustração!

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  2. Oh, Nádia... por um lado, sei que gostavas mesmo de voltar a sentir o entusiasmo pela leitura, por isso, fico triste que este te esteja a escapar. Como tu, também li sempre bastante, ui, ninguém me parava, estava a meio de um livro e já pensava no que ia ler a seguir, as minhas estantes estão bem pesadinhas. Porém, os anos de 2015 e 2016 foram muito ocos no que toca a leitura, andava completamente desligada das grandes obras e queria era fazer outras coisas, muitas vezes peguei em livros, mas, ou as redes sociais faziam *plim*, ou algo mais emocionante estava a acontecer lá fora. Foi este ano que decidi que tinha de ler, sentia falta de novo vocabulário, de conhecer novas personagens e entrar em conversas com elas, de ver novos cenários e explorar cada canto. Depois de dois anos sem ler quase nada, à excepção de Agatha Christie que consigo ler quando quiser, já li mais de 25 livros este ano e afirmo que não houve um que não me tenha deixado embrenhada. Acho que o que estava a precisar era de desligar um pouco e deixar que o gosto retornasse por ele mesmo. Por outro lado, compreendo a análise que trazes à cerca das redes sociais e dos motores de pesquisa... de qualquer forma, elas não anulam a necessidade de cultura. Assim, sei que um dia te vais sentar em frente à lareira, vais pegar no telemóvel e vais querer ardentemente ir buscar um livro!
    Beijinhos <3

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    1. 25 livros é um sonho de leitura! Acho que nem nos meus tempos de leitora despachava dois livros por mês. Comecei há dias uns, espero levá-lo até ao fim!

      Beijinhos :)

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  3. Podia usar as tuas palavras como minhas, cada uma delas...ainda há uns dias dei por mim, às 2h da manhã, a perguntar por que raio estava a pastar no Facebook e não a ler - isto porque, se não estava a fazer algo produtivo, que até tinha que fazer, pelo menos podia estar a enriquecer-me, mas não!, estava ali feita cabeça oca a desperdiçar o meu tempo. É assustador e, caramba, podemos criticar quem quisermos mas a verdade é que caímos nesta armadilha como patinhos. However, e apesar de frequentemente me esquecer disso, há algo que me invade quando estou de férias e que devia aplicar também nos outros dias: largo o mundo digital por "obrigação" - deixo propositadamente o telemóvel noutra divisão, não ligo o pc, etc. - e apesar da ressaca inicial, passado um ou dois dias torno-me naquelas pessoas que não responde a mensagens. E fico orgulhosa disso :p Há que fazer um detox por obrigação.

    Quanto às novas gerações...não sei. Pode correr muito bem ou muito mal. A partir do momento em que vi uma criança de 3 anos a tentar fazer scroll numa revista, confesso que fiquei com medo lol

    PS.: também fiquei no mesmo estado que tu com a morte do Sirius. Not fair.

    Jiji

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    1. Trueee, há sempre melhor forma de gastar o nosso tempo, mas ficamos tipo antas a olhar para um ecrã. Hei-de tentar essas técnicas, mas prevejo um período sério de privação da "droga" :P.

      Ahhh, ainda hoje ressinto a J.K. Rowling por escrito aquele fim para o Sirius...!

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  4. Compreendo te perfeitamente, tb deixei a leitura de lado. Mas tento inverter a situação. Concordo imenso com o último parágrafo!
    Beijinhooo
    Rtissima Blog

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  5. Apesar de ser uma amante da internet, ler sempre foi aquela actividade que para mim nunca perdeu a magia. Sou capaz de ficar um dia inteiro a ler sem sequer agarrar no telemovel. x

    E. ♥ Meet me for Breakfast

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    1. Tão bom! Já fui assim, entretanto passei para o lado negro da força.

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  6. adorei o texto e identifiquei-me tanto com ele. pensava que era só eu e de facto eu própria já reparei que é assustador o poder que as tecnologias tem nas nossas vidas. parece que me sinto mal quando vou sair e não há internet ou quando estou nalgum local à espera e não tenho telemóvel. é de facto muito viciante e por vezes nem sequer nos apercebemos das coisas que perdemos por estar agarrados aos ecrãs... eu sou uma pessoa muito nostálgica e apesar de achar que a tecnologia tem imensas vantagens, como a informação acessível em qualquer lugar e a comunicação com várias pessoas, por vezes, desejo que tivéssemos ficado "estagnados" nos anos 2000, sinto que nessa época a vida era mais pura...
    quanto aos livros, também tenho lido pouco, e agora que penso, talvez por causa das tecnologias. antes de ir para cama penso que vou ler um bocado mas acabo sempre nas redes sociais ou no 9gag e para começar a ler é como se fosse uma tarefa para riscar da lista...
    beijinhos! https://ratsonthemoon.blogspot.pt/

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    1. É mesmo um problema comum... parece que os ecrãs nos sugam a alma, ahah!

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  7. Tenho sentido o mesmo que tu. Li bastantes mais livros do que no teu caso, mas ainda assim descuro bastante dos meus momentos de leitura que outrora eram sagrados. Fico demasiado agarrada ao computador a tratar de tudo e mais alguma coisa, ou então só a ver as redes sociais, que facilmente me esqueço de tirar meia hora do meu dia para me perder na leitura dos livros que tanto me esperam.
    E, infelizmente, sei que a realidade do próximo ano será igual, devido ao estágio e escrita da dissertação. O computador será, uma vez mais, o meu fiel amigo.
    Mas pronto, espero que tanto eu quanto tu encontremos nem que sejam os tais 30 minutinhos dos nossos dias para largarmos as tecnologias e nos perdermos nas nossas leituras.
    Um beijinho*

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    1. Espero que sim :)
      Boa sorte com a dissertação!

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  8. É incrível o poder que as redes sociais têm na nossa vida. Dou por mim muitas vezes a pegar no telemovel ir ir para o facebook ou instagram sem razão nenhuma. E o pior é que se perde muito tempo nisso, tempo esse que poderia ser aproveitado para outras coisas. Também me está a custar muito a ler (também porque tive de estudar um monstro de livro durante 1 ano) e espero em 2018 conseguir ler mais.
    Uma coisa que me ajudou muito foi desligar tudo o que seja notificações das redes sociais. Quando estou mesmo ocupada, quase que me esqueço do telemóvel
    Por onde anda a Sofia?

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    1. Também noto que quando estou mais ocupada, ou quando tenho planos melhores, me esqueço do telemóvel. Deve haver alguma associação entre estar-se aborrecido e a procura de gratificação nas redes sociais!

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  9. Para mim, felizmente, é fácil de me desconectar. Aborreço-me facilmente quando dedico imenso tempo às tecnologias, pelo que em substituição, ou leio um livro, ou danço, ou simplesmente me enrosco no parapeito da janela. É-me impensável deixar as leituras em segundo plano, por muita preguiça que às vezes tenha. Gosto de respeitar o espaço que dou aos livros, contudo, quando estou com eles, aproveito sempre imenso!

    novo blogue: IMPERIUM

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  10. Compreendo bem o texto. Adoro ler e tenho dificuldade em fazê-lo durante o dia. Sinto sempre que devia estar a fazer outra coisa qualquer, ou que há uma notificação no facebook que me está a escapar, enfim... Mas leio antes de dormir (não levo o telemóvel para o quarto) e se andar de comboio/metro ou tiver uma consulta levo sempre um livro comigo. No Verão, leio imenso na praia. Li 13 livros este ano, o que é menos do que gostaria. Agora estou a reler Harry Potter :)

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